As mãos que mataram João Alberto Silveira Freitas

“Esse governo falhou com o Negro.

Esta chamada democracia falhou com o Negro”

Malcolm X

No dia 19 de novembro, na véspera do dia da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, foi brutalmente assassinado.

Ele estava fazendo compras com sua companheira, Milena Borges Alves, 43 anos, no Carrefour, na unidade do mercado na zona norte de Porto Alegre, quando se envolveu numa confusão com dois seguranças contratados de uma empresa terceirizada, a Vector.

Os envolvidos deste crime são: Magno Braz Borges, um dos seguranças que prestava serviços no estabelecimento e que, junto com Giovane Gaspar da Silva, policial militar recém contratado, espancou João Alberto até a morte. E a agente de fiscalização do supermercado, Adriana Alves Dutra, que permitiu o crime acontecer, mesmo tendo autoridade para impedi-lo.

Poderíamos afirmar que as mãos que mataram João Alberto Silveira Freitas, foram as de quem citei acima, mas sinto dizer, que infelizmente, foram milhares de mãos. Todas as mãos que naturaliza, que incita, que defende, que estrutura o racismo.

Há séculos que existe um processo de desumanização das pessoas negras, que sofreram todas as formas de violências com a escravatura. Que após abolição foram deixadas às margens sociais. Mantendo-se no mesmo lugar de subalternidade e miséria.

Para confirmar isto, consultemos os gráficos, a história. A subjetividade coletiva social foi construída e validada tornando o negro como sinônimo de ruim, e isso, lexicamente materializada. Temos um líder da nação que legitima o racismo, todas às vezes que agiu, falou ou se posicionou de forma racista, e nada aconteceu.

“Não corro o risco de ter uma nora negra porque meus filhos foram bem educados” – Jair Bolsonaro

Diante disso, questiono: como podemos acreditar que o que aconteceu com João Alberto não foi racismo? Se há toda uma estrutura que o desumanizou enquanto homem negro, e que legitima qualquer violência sobre seu corpo, ao ponto que as súplicas de sua companheira e das demais testemunhas não serviram de nada, e já mobilizado, machucado, sem forças pra qualquer reação, os assassinos o asfixiaram.

E assim se foi mais um filho, mais um pai, mais um irmão, mais um companheiro, mais um amigo. Morto por uma falsa democracia racial.

Por tanto, não deixemos que as nossas mãos também assassinem outras pessoas, pois como diria a professora, ativista e filósofa socialista, estadunidense, Angela Davis, “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista. Precisamos nos posicionar e combater toda e qualquer forma de racismo. Pois o silêncio nos torna cúmplices”.

Fotografia: Silvio Avila (AFP)

Artista, poeta, jornalista, militante do movimento negro [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo