“As melhores entrevistas de RASCUNHO”

Por Schneider Carpeggiani
JORNAL DO COMMERCIO

Conversa sem meias palavras: dois estaques do livro “As melhores entrevistas de RASCUNHO”

Jornal curitibano Rascunho lança obra com as suas melhores entrevistas com autores 15 brasileiros de repercussão nacional

Um dos nomes mais singulares da literatura brasileira da última década foi Bernardo Carvalho. O autor de romances fundamentais como Nove noites e Mongólia, que desmontam universos à nossa frente, não é o entrevistado mais fácil. Ele tanto pode tergiversar, perder o fio da meada, como lançar grandes clarões sobre a sua literatura. É o caso dessa conversa concedida quando Nove noites havia acabado de ser lançado, em 2002. Em muitos momentos, ele recorre ao clichê sobre as motivações da sua literatura: “Escrevo porque gosto de escrever”, porque “me faz bem”, porque “fico mal se não escrevo”. Mas nos oferece também a chave: “a inutilidade da literatura incomoda as pessoas”. Nessa época, seus romances passaram a fazer um estranho jogo entre realidade e ficção, provocando quem lê com alguma finalidade operacional.

“Nove noites joga com essa ambiguidade. Você nunca sabe onde está o limite, e é isso que lhe dá a sensação de labirinto. Na verdade, essa ambiguidade já estava presente nos meus livros anteriores, de formas variadas. O que fiz, aqui, foi explicitá-la de outra maneira, usando fatos e nomes reais, de gente conhecida, para pôr em dúvida os próprios fatos, aquilo que as pessoas acreditam que são e que veem. Falando assim, pode parecer um tanto prepotente ou professoral, mas é mais um jogo. Se você quiser encontrar caminhos diferentes dos que já conhece, terá que remanejar seus sentidos e não se agarrar a certezas, estar disposto a correr o risco de se perder”, diz Bernardo.

E, numa outra declaração, Bernardo deixa claro por que sua entrevista no Rascunho recebeu o provocativo título de O agente da solidão: “Você passa a vida tentando sublimar a solidão e a morte, arrumando assuntos para se distrair, para não pensar nelas. Mas há uma outra maneira de lidar com o que você desconhece, com a sua condição. Todo mundo é ‘só como Franz Kafka’, mas ninguém se expressa assim. Ao formular desse jeito a solidão, Kafka dá a ela uma outra dimensão, uma dimensão positiva. Ela a inverte pela criação e pelo humor. Deixa de ser sujeito passivo da solidão para se tornar agente, remanejando os seus sentidos, que é o que faz a literatura”.

O pernambucano Fernando Monteiro (na foto) foi o primeiro nome a ser entrevistado pelo Rascunho. Também o que mais concedeu entrevistas, quatro. Nessa coletânea, o organizador fez um apanhado dos principais depoimentos de Monteiro, que emparelham sempre duas características – a reflexão e a ironia. Numa das respostas, ele concede uma das melhores respostas à famigerada pergunta “Para que leitores o senhor escreve?”

“Não os do passado, certamente – com toda estima e respeito que merecem os mortos que tiveram o privilégio de ler as primeiras edições de um Joseph Conrad, por exemplo. Vocês sabem, acredito que todo escritor escreve para aprender. Não para aprender a escrever, veja bem, mas para aprender saber, conhecer algum núcleo misterioso das coisas e o seu eu, o qual será o compartilhamento final da experiência da sua obra com o leitor sem rosto, num quarto solitário. Escrevo para o leitor que sou, para o leitor fora de mim, e para o futuro que se entorta na dobra do presente insondável”.

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» As melhores entrevistas do Rascunho – Luís Henrique Pellanda, org.). R$ 39,90 (preço médio)

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