As memórias balsâmicas

Por Fátima Oliveira (*)
No Vi o Mundo

As memórias balsâmicas podem minorar a insanidade moral?

Diante do meu interesse sobre a capacidade de enfrentar problemas e resolvê-los sem gerar novos conflitos, e até que ponto a agressividade destruidora impede resolvê-los “numa boa”, sem mortos e feridos, uma amiga disse que ando filosofando demais. Ela tem alguma razão. São perguntas filosóficas, mas ancoradas também em outros naipes.

Meu interesse é focado em pessoas desprovidas do “locus da moralidade”, que a psiquiatria catalogava como “insanité sans délire” (insanidade moral), hoje sociopatia ou psicopatia – uma condição neurodegenerativa, que atinge 1% a 3% da população, “intratável, incurável e irreversível” – o mesmo que Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS), ou Distúrbio da Personalidade Antissocial (DPAS), para maiores de 18 anos, e que na infância é diagnosticado como um dos “transtornos disruptivos do comportamento”, atitudes antissociais: Transtorno Desafiador e de Oposição; Transtorno de Conduta; e Transtorno de Personalidade Antissocial.

Leiga em psiquiatria, prefiro a antiga terminologia “insanidade moral”, que expressa bem a condição de TPAS/DPAS: insanos morais irrecuperáveis, pois não há ex-sociopata; não têm dó de ninguém; possuem memória afetiva distorcida: mesmo criados em ambientes emocionalmente saudáveis, sentem-se lesados. Compreendê-los exige mergulhar num mundo estranho, pois nascem incapazes de incorporar discernimento moral e habilidades sociais para solucionar problemas de modo ético e não conseguem sair da borrasca para um céu de brigadeiro, pois não possuem o porto seguro das memórias afetivas.

Rememorar a minha infância é balsâmico. Ouço vovó mandando entrar quando a brincadeira de roda estava na melhor parte: “Chispa! Pra dentro. Lave os pés e escove os dentes”. Ordem inegociável. Depois de “asseada”, eu corria para o colo do meu avô, que àquela hora sempre estava sentado na calçada “pegando uma fresca”. Esperneava quando ele dizia: “Pega a menina Maria, já dormiu…”. Ele não me levava até o quarto, pois não entrava no quarto das meninas. Era uma conduta moral lá das brenhas do sertão. Adulta, perguntei à vovó por que aquilo. Respondeu que “não se usava pai entrar no quarto das filhas, depois de grandes. Era o costume”.

É doce ouvir: “Vamos ler a revista nova do papai?” Abria onde queria que eu lesse; e, se eu errasse a entonação, ou engolisse a pontuação, ele corrigia: “Lê de novo! Agora sem engolir as vírgulas e os pontos”. Transporto-me para a máquina de costura da mamãe, onde eu surrupiava pedaços de pano para fazer roupas de boneca e, desgraçadamente, sempre quebrava a agulha e saía de fininho… Quando ela via a agulha quebrada, logo dizia: “A que horas aquela traquina passou por aqui?”.

Insanos morais não guardam os carinhos recebidos e sentem que todos lhes devem tudo! Seria eficaz uma terapia que os ensine a cultivarem memórias balsâmicas? A criança que vive numa família (biológica ou social) sem bagagem emocional para suprir carinho e outras formas de afetividade pode ter dificuldades de aprender habilidades sociais para resolver problemas, mas não chega à “insanidade moral”, apesar das evidências de que abandono e outras manifestações de desamor na infância estão estreitamente ligadas às posturas agressivas e similares. As que desfrutam de boa acolhida navegam em céu de brigadeiro – estado de aconchego que só quem é ou foi criança feliz tem para recordar e ser acalentada nos momentos difíceis ou felizes vida afora.

(*)Médica – fatimaoliveira@ig.com.br

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