As odes de Nelson Patriota

Por Hildeberto Barbosa Filho

Quero crer que as formas poéticas, em sendo históricas, podem se renovar e subsistir ao longo do tempo. A canção, a balada, a elegia, o epigrama, o soneto, a ode constituem estruturas, às vezes fixas, às vezes flexíveis, que vêm sofrendo variações desde o período clássico até a época moderna e contemporânea. A ode, por exemplo, teve cultores modelares, a exemplo, entre outros, de Píndaro, Alceu, Anacreonte, Horácio, Musset, Shelley, Verlaine, e, mais hodiernamente, T, S. Eliot, Fernando Pessoa, Emílio Moura e Mário de Andrade.

Em geral moldada em tom elevado e entusiástico, tende a associar a amplitude e a pluralidade temáticas ao caráter melódico da linguagem, ora configurando uma perspectiva de louvor, ora uma perspectiva crítica, que vai desde os apelos reflexivos de ordem existencial ao recorte paródico e sarcástico tão ao gosto dos modernos.

Nelson Patriota, escritor norte-rio-grandense, cultivando essa antiga tradição, escolhe a vertente meditativa, para elaborar o Livro das odes (Natal, Sol Negro, 2013), com o qual se inaugura no âmbito do discurso poético.

O volume contém 12 odes, em versos livres e brancos, não obstante presididos rigorosamente por um andamento musical que vincula cada peça às exigências intrínsecas da forma, ao mesmo tempo em que faz da palavra, na verdade, do poema, na sua fisicalidade sonora e imagética, o eixo irradiador das meditações acerca do amor, da existência, do tempo, da noite e da própria singularidade da poesia, sobretudo nos áridos tempos de agora.

O tom reflexivo e a presença-ausência de um leitor implícito, ou de um destinatário em aberto, marcado pela segunda pessoa do singular, como que formula uma espécie de conservação entre o eu lírico e um outro, em torno das questões que motivam e dilaceram a própria tessitura do poema. A precariedade cognitiva que envolve a percepção do eu poético, e que permanece como matriz estruturante de cada texto, já se revela nos primeiros versos da primeira ode: “Tento escrever-te mais este poema / para dizer-te não sei bem o quê / ou que expressão usar no seu contexto / de incertezas”.

É possível pensar nesse outro como a poesia, experiência natural e humana que se oferta sob a modalidade de diversas motivações. A noite, o amor, o tempo, considerados aqui, na materialidade da expressão poética, exigem seu valor de uso, seu peso afetual, sua dimensão simbólica, fora logicamente dos concertos pragmáticos e mercadológicos do ethos atual. Daí porque a escrita do poema se reconhece na sua diferença, pois o sujeito lírico confessa, ainda na “Ode dubitativa”: “(…) Dou-me, conta, enfim, /que escrevo sob uma clave pessoal, / visceralmente pessoal, /quando pretendia falar de ti, / ou melhor, / de nós”.

Personificando a figuração do poema na terceira ode, numa exploração metalinguística e também existencial, o eu lírico constata o confronto de duas linguagens, a estética e a instrumental, aquela se pondo como negação crítica desta na amarga dialética que coteja o espiritual com o material. Leiam-se estes versos: “(…) Estás exausto e há tempos não te sentes seguro em parte alguma, / há tempos são os mesmos signos de sombra, / há tempos que observas o descorado das manhãs mudas de arrulhos, a fuligem das tardes descambando oblíqua para noites / onde um céu indistinto encobre estrelas / de cuja existência já duvidas de tanto não vê-las”.

A mesma tensão recorre na “Ode ao poema ferido”, quando o eu poético reclama que o “poema da amizade, por exemplo, /sofre amargamente nestes tempos”, o que vai culminar, na “Ode da pulsão escritória”, na sacralização da palavra poética, com estes versos emblemáticos: “(…) Escrevo-te para não perder o diálogo que entretenho contigo, / artifício com que espero desesperadamente / alimentar nossa comunhão laica, / embora cada palavra nossa pareça, em sua sacralidade, / portar bênçãos imensuráveis”.

Comprometido com a poesia, como comprova a construção medida de cada poema, na fluidez do ritmo, no tratamento adequado dos vocábulos, nas incursões plásticas de algumas imagens, o poeta ainda resiste, nesses ásperos tempos, louvando os ingredientes do amor, quando, na ode a seus eleitos, assinala: “Prefiro pensar que o amor, / coirmão de ciganos, pândegos e saltimbancos /inclassificáveis, /é de natural infenso a correntes”.

Na última peça, “Ode do derradeiro segredo”, o giro reflexivo se impõe no impacto das indagações e no fecho do poema. Diz o eu lírico: “(…) Hoje não confesso nem a mim próprio algum anelo, / salvo uma recôndita certeza que, todavia, / um dia amadurecerá para mim.. / Ou será o contrário? Nesse caso, o que mudaria, se eu soubesse? / Não me importa a resposta / desde que expresse a essência de minha alma”.

Ora, expressar a essência da alma, e eu diria, expressar a essência das coisas, ou, quem sabe, a essência da poesia. Será que certas equações poéticas afinadas com o utilitarismo midiático e com o glamour visual das novas tecnologias absorvem o teor de tais inquietações?

Creio que as odes de Nelson Patriota, que também é contista, tradutor e ensaísta, intentam uma resposta sutil e determinada, pois apostam na palavra e apostam no verso enquanto elementos essenciais do poema, integrando, assim, a rica tradição poética do Rio Grande do Norte. Tradição a que pertence, entre outros, Zila Mamede, Luís Carlos Guimarães, Jarbas Martins, Sanderson Negreiros, Diva Cunha e Marize Castro.

Comentários

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  1. Jarbas Martins 11 de setembro de 2013 17:49

    Vinha pensando em escrever sobre a poesia de Nelson Patriota, esse poeta e amigo de longas datas.O crítico e poeta Hildeberto Barbosa Filho, bem mais preparado, poupou-me da árdua tarefa. O que dizer de Nelson,voz sequestrada pela vanguarda provinciana ? Diante do texto criativo e pertinente de Hildeberto, posso apenas acrescentar o meu testemunho sobre esse poeta, que soube, acima da mesquinhez e da pobreza de espírito, unir seus ideais estéticos aos seus princípios éticos.Com muita coragem. Llivro das Odes”, preciosa edição da editora Sol Negro, é sem dúvida um livro que ficará na história insulada e envergonhada da poesia norte-rio-grandense.

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