As parcerias

a Franklin Jorge

Quando sou ou escrevo nunca sou eu mesmo. Mário de Andrade era mais que trezentos. “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. Fernando Pessoa precisou se multiplicar em vários heterônimos. Numa deliciosa crônica do Fernando Veríssimo quem fica bêbado é o outro; o Rubens. Bouvard precisa de Pécuchet, o Quixote de Sancho e eu, acredito na “ transmigração das almas”, mesmo sem saber o que é.

Na História da literatura essas parcerias são muitas e decisivas. O meu ego desaparece um pouco para o outro existir. Alguns escritores até se escondem atrás do seu Ghost-Writer, editor, agente literário ou colaborador. A Imaginação de Julio Verne muitas vezes não era suficiente para concluir o livro e pedia socorro ao seu editor. Colette, amante de Flaubert, manteve uma parceria mais ortodoxa com o seu primeiro marido Henry Gaulthier-Villars, conhecido por Willy. O Infiel Willy assinava os textos de Colette e montou uma criativa estratégia de marketing para vender os livros da sua mulher, posta reclusa.

O Primeiro livro dessa parceria foi “Claudine à L’ École” e mais três “Claudines”. O esquema montado por Willy ostentava em todos os prostíbulos de Paris uma Claudine Residente e havia loções, gelados, roupas, cigarros, perfumes, pó-de-arroz e postais com a imagem de Claudine, a mulher criança, perversa e ingênua ao mesmo tempo, natural e super-produzida. Através dessa personagem, Colette descreveu magistralmente as experiências simultaneamente eróticas e violentas que as raparigas experimentam” … essas neuroses da puberdade, o hábito de comer barro e carvão, de ler livros indecentes e de espetar alfinetes nas mãos” (AS MENINAS EXEMPLARES /por Helena Vasconcelos. COLETTE, A Monstruosa Inocência.

A grande produção de Alexandre Dumas não foi solitária, e teve a participação de Auguste Maquet. Os grandes best-sellers “Os três Mosqueteiros” e o “Conde de Monte Cristo” assinados por Dumas teve a participação do Maquet. E assim acontece aos montes na historia da literatura, nas artes e ciências. A falta de ética e escrúpulos também freqüenta o fazer literário e as glórias muitas vezes escondem os fantasmas de muitos escritores criativos e anônimos.

Outra grande parceria da literatura se deu entre os escritores Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges. Parceria que rendeu muitos livros de crônicas, antologias e roteiros para cinema. A parceria entre o autor de “A invenção de Morel” e Borges começou em 1942 sob o pseudônimo de Honorio Bustos Domecq, em alusão ao famoso conhaque apreciado pelos escritores e ao nome de ancestrais comuns a eles. O primeiro livro dessa parceria foi “ Seis problemas para Don Isidro Parodi (1942). Em 1946 eles escrevem “Dos fantasias memorables “ e “Un Modelo para la muerte”. Com Borges já acometido de cegueira, eles escreveram outros livros de histórias policiais “Crônicas de Bustos Domecq” (1967) e “Novos Contos de Bustos Domecq” (1977).

As crônicas escritas por Domecq são artigos sobre artistas imaginários e foram dedicadas “a esses três grandes esquecidos: Picasso, Joyce, Le Corbusier”. Borges gostava de imaginar lugares, enciclopédias e pessoas. Na literatura fantástica não há um compromisso com o factual e real e a imaginação pode criar as mais estapafúrdias e incongruentes situações. Quem escreve é um terceiro escritor que se multiplica eternamente por entre espelhos e miragens que causam uma ilusão de verossemelhança e beleza que só a grande literatura pode proporcionar.

Casares não foi um escritor excepcional e sua parceria com o grande escritor Jorge Luis Borges renderam bons frutos. Morto em Março de 1999, escreveu outros livros e foi muito mais que um parceiro de Borges. Escreveu ainda “Diário de la guerra del cerdo”, “Dorme ao Sol” e “Sonho dos Heróis” (Cosacnaify), e outros livros de antologias em parceria com Borges e Silvina Ocampo – a grande escritora e biógrafa de Borges, de uma imaginação fértil e fantasias inesgotáveis. A parceria Borges-ABC (Casares) é uma das mais profícuas da literatura e num concerto a quatro mãos eles realizam o milagre da criação com se um fora:

“A arte da colaboração literária é a de executar o milagre inverso: fazer com que os dois seja um”, sentencia Borges.
No cinema eles participam dos roteiros de Invasion (Argentina 1969), inspirado no grande filme Alphaville, de Godard. Lês Autres (França 1974) e Los Oriellos (Argentina 1975).

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 + 6 =

ao topo