As primeiras palavras, segundo Saer

Por José Castello
NO BLOG A LITERATURA NA POLTRONA

Escritores estão sempre aprisionados em si mesmos. Essa condição os leva, sempre, a reescrever o mesmo livro. Existe um único livro a ser escrito na vida de cada escritor, e a tarefa com que ele se defronta, a cada passo, é a de desdobrá-lo sem, contudo, traí-lo. Livros saem uns dos outros e esses laços de sangue configuram o “estilo”. Ao escritor resta se submeter a essa voz interior que o empurra para a frente. Dobrar-se diante desse sentinela alado, que o vigia nas mais altas e íntimas esferas e o leva a ser sempre ele mesmo. Ou a escrita deixa de ser ficção e se torna traição. Banalização. Falsificação.

Alguns pensam que essas são ideias antigas, que o Modernismo teria destroçado, mas não creio que seja bem assim. Volto sempre a um de meus grandes mestres, Juan José Saer, falecido em 2005, em Paris, aos 68 anos. Em meu socorro, e da tese que venho precariamente defender, surge o ensaio “Duas razões”, incluído na coletânea A narração-objeto, de 1999.

Diz Saer: “Uma das primeiras dificuldades que se me apresentam quando estou preparando-me para escrever algo é saber se esse novo texto poderá ou não adaptar-se à minha “maneira”. A ideia sozinha, por melhor que pareça, não basta para justificar um relato”. Não basta ter uma boa ideia _ é preciso que ela corresponda a um sentimento interior. Não basta projetar um grande livro: melhores são os pequenos livros que, apesar de discretos, se adaptam à “maneira”, como diz Saer, de quem o escreve.

Mesmo nos escritores que estão sempre insatisfeitos e que lutam para se superar, e até “se matar”, a cada novo livro, esses rastos persistem. Penso em um dos mais ousados deles, Sérgio Sant’Anna, um desses grandes escritores que tem como projeto deliberado se tornar, a cada novo livro, um “um novo escritor”. É uma luta corajosa, que o conduz a magníficos resultados. Ainda assim, vestígios singulares, marcas quase invisíveis, se repetem livro a livro. Feridas de que um escritor não se livra. Garras de que ele não se desgruda.

Continua Saer em seu ensaio: “A maior parte do tempo, pelo menos no meu caso, são esses mesmos textos que geram prolongamentos futuros”. A confirmação da regra, como quase sempre, surge com mais clareza em suas exceções. É o que continua a dizer Saer: “Às vezes, no entanto, algumas ideias que se apresentam à primeira vista como atípicas, e que parecem difíceis de “adaptar”, me solicitam com tanta força e assiduidade, que terminam por se impor”. Novamente: pressões internas, procedentes de fontes inesperadas e com aparências imprevisíveis, entram em cena e, à revelia do autor, se impõe. À primeira vista, parecem intrusas, ou proibidas Mesmo assim, terminam por encontrar seu lugar. Onde? Na voz única do escritor.

Foi o que Saer sentiu enquanto escrevia A pesquisa, romance policial que publicou no ano de 1994. Na verdade, um falso policial, em que o escritor argentino faz uso dos recursos clássicos do gênero não para confirmar as regras consagradas e as soluções previsíveis, mas, ao contrário, para falar de temas que realmente lhe interessam, como a loucura e a morte. Custou a aceitar que esses “grandes temas” tomassem uma forma tão banal. Mas alguma coisa o empurrava nessa direção e, só quando decidiu aceitar a pressão desconhecida, que parecia desviá-lo para caminhos inúteis e perigosos, entendeu que ela o conduzia, na realidade, a seu próprio caminho. À sua “maneira”.

A voz dos escritores toma formas estranhas. Mais ainda: tons imprevistos, palavras inaceitáveis, ideias alheias e até repulsivas surgem, volta e meia, em seus escritos, como que apagando as palavras originais. O escritor sempre resiste, luta para se defender, esforça-se para conservar sua posição e seu posto de autoridade. Até que entende que aquelas ideias inaceitáveis também são suas. Até que consegue aceitar que elas não o contrariam, nem o desviam, mas, ao contrário, reafirmam o caminho que reconhece como seu.

Vale a pena ler o pequeno ensaio de Saer sobre a construção de A pesquisa. O que aqui me importa, contudo, é esse momento inicial, esse instante de turvação em que o escritor parece obrigado a se dobrar a algo que não é seu. No entanto, aquela voz estranha insiste em ecoar. Ela o ensurdece. Lateja nas entrelinhas, esconde-se nos menores pensamentos, insiste em permanecer onde está. Chega então o momento em que o escritor, mesmo a contragosto, deve aceitar e dizer: “Isso sou eu”. Logo entenderá que aquela zoeira estranha, de fato, vem de seu interior. Que ela é só um eco, mais agudo ou desgradável, um efeito menos cômodo ou mais turbulento, daquilo que, desde as primeiras palavras, ele é.

Uma anotação pessoal. Em um velório, encontro uma prima distante, muito distante, que não me via desde menino. Aproxima-se, pergunta se sou eu mesmo e, após a confirmação, me diz: “Nunca esqueci de você, nunca me esqueci das primeiras palavras que você falou”. Desviando-me dos clássicos “mamãe”, ou “papai”, ela rememorou então, minhas primeiras palavras foram: “duas e dez”. Ainda de fraldas, ganhei um relógio de pulso. Sempre que me perguntavam as horas, não importando a hora verdadeira, eu respondia: “duas e dez”. Eram as minhas horas. Nelas, eu começava a existir.

Dessas primeiras e estranhas palavras, eu nasci. Foi uma revelação que me assombrou. De onde tirei esse horário? _ ainda perguntei a minha prima. “Eu sempre quis saber, mas ninguém nunca me explicou”. Nasci de um mistério que se chama “duas e dez”. Dessas duas palavras surgiram tudo o que hoje, sessenta anos depois, consigo escrever. Volto a meu mestre Saer, de quem me despedi em uma tarde nublada, em um café de Montmartre, sem saber que dele me despedia. Nunca sabemos de nada… Saer me dá forças para pensar: talvez tenha passado a vida tentando me desviar dessas palavras estranhas. Se agora elas me voltaram, na situação improvável de um velório, é porque sempre estiveram dentro de mim. Talvez, penso então, hoje me ajudem a ler meus próprios escritos. Alguma coisa preciso fazer delas, mas ainda não sei o que.

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