As saias rubras da Pombagira e a demonização do sexo feminino

                    “E que tudo aquilo que na vida é rubro, vermelho-escuro,

                    branco raiado de paixão, jamais se acinzente.”

                                       Miodrag Pávlovitch

O quadro “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet, causou celeuma na época em que foi pintado, porque retrata realisticamente o sexo de uma mulher, revolucionando o jeito de pintar os corpos nus até então. Estávamos em 1866 e certamente não faltou quem decretasse, do alto de seu puritanismo e também de sua arrogância que aquilo não era arte. Quando uma obra nos causa qualquer estranhamento, a nossa primeira reação é negar o seu valor. No entanto, a arte precisa de um certo tempo para se solidificar e não é pouco esse tempo. Fato é que até hoje A Origem do Mundo segue encantando os visitantes do Museu d’Orsay, em Paris, onde está exposta.

E segue também até hoje o estranhamento que causa o sexo exposto da mulher em obras de arte, ainda que não esteja tão exposto quanto na obra de Courbet. Na entrada de 2021, a escultura “Diva”, da pernambucana Juliana Notari, deu origem a uma saraivada de críticas, a maior parte das quais dirigida não à qualidade artística da obra, mas ao tema.

A Diva é uma espécie de metáfora do sexo feminino. Uma “ferida vulva”, disse a autora. Reprodução em concreto armado e resina totalmente rubra, a vulva de 33 metros de altura e 16 de largura foi erguida numa galeria a céu aberto na Zona da Mata pernambucana. Não há nela o realismo com que Courbet retratou o sexo feminino. E estamos em 2021. Mesmo assim, o jornal britânico Daily Mail borrou a foto da escultura. Ah, o puritanismo inglês… Ah, o puritanismo…  

É tão óbvio quanto complexo o estranhamento que causa o sexo de uma mulher quando exposto fora dos padrões de exposição que a sociedade lhe destina. Quando de algum modo, “toma suas próprias rédeas”, esse tipo de exposição é prontamente condenado. Sim, porque há qualquer coisa de poder feminino tão exposto quanto o sexo da mulher nas duas obras (o fato de Courbet ser um homem participando desse processo de empoderamento é algo que talvez demandasse uma longa digressão para ser comentado, por isso não o farei). 

O sexo feminino nas duas obras não se destina ao deleite do homem. Está ali, simplesmente. E também, por óbvio, não veda esse deleite. Quem quiser, que goze. A vulva ali está pouco se importando com isso. “Eles que lutem”. É esse poder, não tão explícito e um tanto indiferente, que produz o nosso estranhamento e que, muito provavelmente, é a origem da maioria das críticas.

Na mais recente Revista Trip, o historiador Luiz Antônio Simas, ao ser perguntado sobre os preconceitos em torno da figura da Pombagira, ente sagrado da umbanda, responde que essa figura representa a mulher não domesticada por uma lógica em que o corpo é submetido exclusivamente à ordem reprodutiva ou para servir à virilidade do homem. Diz ele ainda que estamos domesticados numa dimensão que demoniza o corpo da mulher e a Pombagira propõe uma liberdade ligada à soberania desse corpo (também seria uma digressão longa comentar sobre os outros preconceitos envolvendo a umbanda, mas creio que a Pombagira atrai preconceitos específicos de gênero, digamos assim).

O estranhamento que sentimos com as obras de Gustave Courbet e Juliana Notari e com a Pombagira liga-se ao desconforto social  com o não controle do poder feminino, que não é o poder estabelecido. O poder estabelecido é masculino, patriarcal e  pretende naturalizar a dominação do corpo feminino pelo homem.

O estranhamento com a exposição do sexo da mulher leva a mudanças de estrutura, quando se compreende de onde ele vem e os seus porquês, mas também leva a violências que querem impedir essas mudanças, preservando a mulher como objeto de dominação.

O sexo da mulher corporificando o poder feminino é algo desconhecido e o desconhecido gera desconforto, por isso a nossa primeira reação é querer jogar a vulva de volta para debaixo das roupas. De preferência, que não sejam vermelhas, como as da Pombagira.

E no entanto ela se move…

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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