As salinas do rio Mossoró no século XVIII

Pintura de Newton Navarro

Por Antônio Rodrigues Jr. (*)

“Quando ali há falta de sal, o capitão Mor do dito forte do Rio Grande, manda uma ou duas barcas, de 45 a 50 toneladas a um lugar 60 milhas mais para o norte onde há grandes e extensas salinas que a natureza criou por si; ali podem carregar, segundo muitas vezes ouvi de barqueiros que ali vinham com carregamento de sal, mais de 1000 navios com sal, que é mais forte que o espanhol e alvo como a neve. É um lugar deserto (…) estas salinas estão rentes à praia e completamente cheias de sal; mas todos os navios que tiverem de ir ali, segundo penso, devem conservar-se um tanto ao largo porque aquela costa é muito perigosa”.

Eis a primeira descrição das salinas à margem esquerda do rio Mossoró, feita por Adriano Werdonck, morador do Recife, em “Memória”, apresentada ao Conselho político do Brasil, em 20 de maio de 1630. Traduzida e publicada pelo historiador Alfredo de Carvalho, em 1901, pela Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, n°55. Entre outros, o texto acima foi anexado a uma compilação de estudos sobre as andanças batavas nas salinas do rio Mossoró, organizado por América e Vingt-un Rosado, com o título de “Os holandeses nas salinas do Rio Mossoró” (Coleção mossoroense, 1987), publicado por esses pesquisadores e divulgadores da história norte-rio-grandense, há vinte e três anos, por meio da “Coleção Mossoroense”, criada pelo próprio Vintg-un.

Curioso que no livro atestamos a ausência das vozes dos autores, que não se apresentam, ao menos, em um prefácio. E apesar de não se pautarem em uma teoria da História, ou alguma epistemologia, que regasse uma crítica ao corpus do material recolhido e conduzisse os autores a um estudo mais aprofundado do tema, – o que só enriqueceria o trabalho, – contudo, este fato não invalida o trabalho de garimpagem e dedicado amor pela História da região de Mossoró. A obra é marcada por um espontaneísmo exacerbado, embora não comprometendo a importância de seu valor enquanto fonte preciosa para pesquisadores e interessados no tema. Os autores foram felizes em sua intuição na coleta e reconhecimento das fontes, pois o livro se mostra importante para os estudos da presença holandesa na capitania do Rio Grande. Reunindo diversos estudos que tem por conta os primeiros documentos que dão vazante ao início da ocupação de Mossoró, plasmou-se o material, formando didaticamente uma compilação que orienta estudantes de história ou leitores afins, como afirmamos.

A amostragem desses estudos tem início ao situar a posição geográfica de Mossoró no Brasil conhecido pelo holandês, produzida por Câmara Cascudo; passando por breves estudos acerca da utilização holandesa das salinas por parte de Gedeon Morris de Jonge (governador da Capitania do Ceará, nesse momento de domínio holandês); além disso, apresenta a discussão Geomorfológica sobre a questão histórico-geográfica do Rio Mossoró e finda por esclarecer algumas questões acerca dos relatórios e cartas do comandante Morris de Jonge, ocupante europeu pioneiro na tentativa de utilizar os recursos do Rio Mossoró como fonte subsidiária para a WIC (Companhia das Índias Ocidentais), bem como para a própria colônia.

O que nos salta à vista nos textos apresentados por Vingt-un é ressaltar a vontade empreiteira de Morris de Jonge, que vislumbrava uma “indústria” na “excessiva salina”; de outra parte, lembra a negligência da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) ao escolher não financiar ou acreditar na empresa. Seja no texto de Francisco Fausto de Souza, Gonçalves de Mello, Câmara Cascudo, Raimundo Nonato ou mesmo em José Alexandre. O que se sabe, por fim, é que o Gedeon de Jonge foi executado pelos índios na Capitania do Ceará no início da “Guerra dos bárbaros”.

Salvo algumas variantes, todos seguem a temática proposta no título do livro. Os textos se configuram como afluentes de um mesmo rio que desemboca na História do rio que nomeia a cidade, e da dádiva salgada que emana de seus arredores.

A terra era tão inóspita que possibilitou às culturas (autóctone e européia) diversas nomenclaturas para o rio (hoje chamado Mossoró), farei menção a alguns nomes citados ao longo do livro: Aires de Casal denomina o rio como Upanema, posteriormente Apodi. Segundo Tavares de Lira, é só a partir do século XIX que haverá sinonímia entre os rios Apodi e Mossoró. O que comprova que no texto de José M. Brandão os nativos não concebiam essa diferença, porque as nomenclaturas “Apodi” ou “Mossoró” eram proferidas pelo significante “Woroiguh” através da fala indígena. Aparece, igualmente, como Rio do Carmo, cujas violentas cheias encontradas em seu trecho final, “terreno baixo de largas várzeas”, lugar aonde “o líquido engrossa e começa a transformação” do cloreto de sódio (NaCl) “que se faz rápida e mortífera para os habitantes do meio em solidificação”. Ao saber disso, o Cariri denominava o rio como “Ivipanin”, ou seja, “rio de águas pesadas” ou “caipora”; no capítulo “Gente do século 17 na Ribeira do Mossoró”, em subtópico chamado “Rio Upanema”, José Alexandre de Areia Branca arrola uma sequência muito rica de fontes e informações acerca das mais variadas nomeações que recebera o rio ao longo de sua história.

Seguindo reflexão oriunda da leitura dessa compilação apresentada pelos autores em “Os holandeses nas Salinas do Rio Mossoró” percebe-se que a cidade, hoje em dia, referida como “capital do oeste”, segunda cidade mais importante do Estado e maior produtor de petróleo em terra do Brasil, possui cinco importantes atores pioneiros de ocupação de espaço geográfico. Destarte, tem-se de imediato: “o mensageiro” Adriano Werdonik, “o desbravador” Gedeon de Morris, “a vitae” o rio, “a dádiva” o sal (obsessão de Gedeon de Morris), por último, mas não menos importante, temos o autóctone que apresenta o sal e atrai o europeu, de maneira a ser também o indígena que o aniquila, mais tarde, tornando a terra do sal novamente “inóspita” à vista do conceito de “civilização” do colonizador europeu.

Consequentemente o Rio em questão servirá apenas de passagem de citados transeuntes. Entre outros, passam por lá os “confederados do Janduí”, bem como os “soldados de Palmares” no século XVII; constituindo apenas no século XVIII uma ocupação consistente por parte de fazendas “barrocas”, construídas por fazendeiros de outras regiões, edificando a cidade a posteriori, sob os escombros da presença holandesa e do sangue derramado na Confederação do Cariri.

(*) Graduando em Letras pela UFRN. Bolsista PROPESQ da Pró-Reitoria de Pesquisa.

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