As três casas de Neruda

Acima: Pablo Neruda e Matilde Urrutia, em Isla Negra

Ao pisar pela primeira vez em solo chileno, confirmei e entendi rapidamente que tudo que há naquele país está impregnado da forte presença espiritual e intelectual de Pablo Neruda (Parral, 12 de Julho de 1904 – Santiago, 23 de Setembro de 1973), seu escritor e poeta mais festejado (foi também Senador da República e diplomata), ganhador do prêmio Nobel de Literatura no ano de 1971.

Nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, mais tarde simplesmente conhecido como Pablo Neruda, esse personagem mais que especial era um homem delicadamente espirituoso e que tinha, sim, algumas ou muitas manias. Uma delas era a de construir casas de uma maneira peculiar e curiosa, recheando-as de objetos fantásticos e fazendo com que a arquitetura e a alma parecessem mais com a de trens ou de grandes barcos em direção ao mar e suas sereias. E Neruda se dizia mesmo um construtor (lembro que a palavra de origem grega “poiesis”, da qual se origina a nossa portuguesa “poesia”, significa criação, ou construção, em última análise).

As casas de Pablo Neruda têm, também, como tudo em sua vida, a marca da poesia e da arte, a estética profunda. As três célebres casas em solo chileno (La Chascona, ao pé do Cerro San Cristóbal, em Santiago; La Sebastiana, no Cerro Bellavista, em Valparaíso; além da mágica casa de Isla Negra, beijando o Oceano Pacífico) são exemplos de uma forte excentricidade e de infinitos esplendor e aura de magia e poesia, cumuladas com algo lúdico, lírico, desconcertante e idílico. Ali, cada objeto tem uma história e um sentido. Nada que se copie. Nada que se demonstre inautêntico.

Visitei as três casas e esse foi um dos maiores feitos turísticos que realizei no país andino. Alguns se contentam em visitar uma ou duas das casas. Eu só sosseguei quando conheci, também, a mais distante e a mais bela das três: a casa de Isla Negra, situada defronte ao mar, numa visão paradisíaca do Pacífico. Lá estão dispostos os restos mortais de Neruda e da última de suas amadas, a mais amada de todas, Matilde Urrutia.

Neruda era um colecionador. Colecionava objetos, colecionava casas, colecionava amores e amigos. Mas, a cada um dos seus objetos, casas, amizades e amores dedicava uma paixão única e profunda. Fez desse acúmulo sentimental um verdadeiro e tríplice santuário no qual expressou toda a sua complexidade como homem e ser que vivia intensamente, tanto quanto sonhava. As suas casas guardavam todo esse acervo material e imaterial.

Mas, foi a Matilde (com quem viveu por um tempo uma paixão clandestina e, posteriormente, uma paixão aberta e avassaladora) que Neruda dedicou as maiores atenções e os sentimentos mais profundos, o que o fez escrever inúmeros poemas de amor, algo comovente, profundo e belo. As casas do poeta, todas, têm algo de Matilde, criadora da Fundação que as mantém e que ajuda a perpetuar a memória do seu amado.

Aconselho a todos que tiverem algum sentimento pela arte, pela poesia e pelos poetas, que conheçam imediatamente o Chile (essa terra que recebeu, também, outro Nobel de Literatura, através das mãos de Gabriela Mistral), um país mais que interessante.O Chile é mesmo de uma franca exuberância natural (montanhas, vulcões, deserto, mar), que possui altíssimas potencialidades gastronômicas (frutos do mar como em poucos lugares do mundo) e vinhos maravilhosos. Além do mais, em cada ponto do país você pode respirar e se inspirar com o espírito de seus grandes poetas e com sua elevada poesia.

E, se você decidir percorrer o périplo das três casas de Neruda, como eu fiz de maneira apaixonada, haverá de descobrir muitos outros mistérios e segredos e entender um pouco o olhar e o sentimento do poeta imortal. E eu confesso que os vivi.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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