As três irmãs criadoras do mundo

Por Ronaldo Correia de Brito
NO TERRA MAGAZINE

Havia três misteriosas senhoras no Crato, a linda cidadezinha que só existiu em minha infância e se transformou num feio aglomerado urbano. Os rios Granjeiro e Batateiras deixaram de ser rios e viraram canais, latrinas mal cheirosas onde despejam esgotos e lixo. E a floresta da serra do Araripe, tão longe e misteriosa, queima a cada ano. As onças, os veados, os tatus e as antas, seus antigos moradores, são animais que as crianças conhecem apenas nos desenhos dos livros.

Mas eu falava de três mulheres que sempre imaginei serem fadas, daquelas com varinha de condão, criando e transformando o mundo em volta delas. As três fadas possuíam nomes sem nenhum encanto. Todos na cidade se referiam a elas como as irmãs do alfaiate Zé de Rita. Simplesmente assim. O alfaiate não costurava bem, tinha o juízo alvoroçado e botava as roupas a perder. As pessoas deixavam os panos, ele tomava as medidas e na data de entregar as encomendas nunca estavam prontas e sempre ficavam frouxas ou apertadas.

Apesar da má fama do costureiro, eu teimava em fazer minhas roupas com ele, pelo encantamento de entrar na casa antiga de terraço e jardim laterais, no estilo árabe das mil e uma noites. Até as fruteiras evocavam o oriente de Sherazade: romãzeiras, laranjeiras e figueiras. As costuras eram pretexto para poder conversar com as três irmãs do alfaiate, perguntar como iam os trabalhos da lapinha, o presépio mais encantador e criativo de todos os que montavam no Crato. Elas se ocupavam o ano inteirinho criando anjos, pastores, pastoras, ciganas, borboletas, beija-flores, céus estrelados, desertos com oasis e camelos, lagos cheios de patinhos, cisnes e gansos, casinhas com terreiros de galos, galinhas, guinés, perus e pintinhos, cidade medieval que lembrava uma suposta Jerusalém, rios, pontes, igrejas, torres, florestas, moinhos e, em meio a todo esse esplendor, no lugar de maior destaque, o Menino Jesus deitado na manjedoura, ladeado pelo pai e pela mãe.

Eu suspirava todas as vezes que passava em frente à casa, ansioso para que chegasse o primeiro dia de dezembro, quando as portas se abririam e o mistério se revelaria aos meus olhos de criança. As três irmãs fadas sentavam em cadeiras e recebiam as pessoas, felizes em poder representar o milagre do nascimento de Cristo.

Curioso e inquieto, planejava minhas visitas diárias, querendo usufruir ao máximo o teatro imóvel, que se oferecia apenas até a festa de Reis. Num dia, me detinha nos lagos e pontes. Noutro, queria ver apenas os anjos, arcanjos, querubins e serafins, a corte celeste em adoração ao Menino Deus, arrumada contra um céu azul de pano, bordado com lua, estrelas, sol e cometa. Nunca vi cenário mais bonito em toda vida.

Com as três irmãs fadas aprendi o sentido da palavra dádiva. Durante onze meses elas se entregavam à construção da lapinha, que podia encher uma sala inteira. Nunca soube se ganhavam algum dinheiro com isso. Com certeza, não. O único pagamento era o brilho dos olhos das pessoas, o encantamento, os gritos de alegria. Bastava para compensar as noites sem dormir, os ferimentos nos dedos, as dores nas costas. As três irmãs do alfaiate Zé de Rita eram dadivosas como o próprio Cristo, me ensinava mamãe.

Nunca pagarei o que essas três mulheres fizeram por mim. Todo Natal imagino-as montando um grande presépio lá no céu, com anjos de verdade e o próprio cristo transformado em Menino, deitado nas palhas da manjedoura. Deve ser assim mesmo. E o compositor Bach, certamente prepara uma linda cantata natalina, que os anjos entoam com suas vozes de anjo. As três irmãs sentam em cadeiras sobre as nuvens, olham a criação de suas vidas e sentem-se divinas.

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