As voltas do meu coração

Inicialmente eu escrevi esse texto como uma carta para minha irmã Ana Célia. Essa que está ai na foto abaixo comigo, na Galícia, em 1989. Depois achei que seria interessante transformar a carta em um texto público. Pessoal, mas transferível.

Fotografia de capa: Porto, em Portugal, por Carito Cavalcanti

Eu tive um sonho. Ou talvez seja melhor chamar isso de uma condição onírica. Ou condução onírica. Pois é. Eu bem podia estar morando no Porto, Portugal. Ou na Galícia. Ou talvez passando uns tempos nesses lugares. Vivendo de aldeia em aldeia.

Quando eu era adolescente eu só queria viver de bar em bar. Mas isso também pode fazer parte dessa condição/condução onírica: beber cerveja Super Bock que me traz os montes e Estrella Galícia pelo antigo reino da mitologia céltica.

Carito e Ana Célia na Galícia, em 1989.

Enfim, como canta Zé Ramalho: “devaneios tolos a me torturar”. Se eu não tivesse pedido demissão da UFRN em 2001, depois de 16 anos trabalhando como arquiteto, eu poderia estar perto de me aposentar. Ou pelo menos ter a tão desejada estabilidade. E ficar viajando mais, por outras terras no além mar. Porque aqui tá além má. Sem pedir perdão do trocadilho.

Aí tem dias como hoje que sou assombrado pelo velho ditado: “se arrependimento matasse”.… Mas eu também podia ter morrido antes do arrependimento. Ou ter continuado na UFRN e estar me arrependendo também. Eu não teria morado onde o sertão virou mar, eu não estaria fazendo Cinema, eu não teria conhecido Nathalia. Mas ela disse que a gente poderia sim ter se conhecido de outra forma, não necessariamente no audiovisual, como foi. Ela é produtora, mais racional. Eu sou poeta, e dizem que “poeta não fica cansado: fica exausto”. Afasta de mim esse Fausto.

Sei que pensar tudo isso não adianta de nada. Pois “eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá”. Talvez eu esteja assim por causa da série que assisti recentemente no Netflix (por sinal, a série se passa na Galícia). A série citou Dante: “Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria.”

Tenho dias felizes sim, e não estou na miséria. Mas estou sentindo muito essa frase, por males nunca Dante navegados. De certa forma, sou um privilegiado, e sei disso. Mas a batalha do dia a dia para quem sobrevive de arte e cultura é foda.

Aos 55 sem saber o dia de amanhã. Mas quando foi que soubemos o dia de amanhã, não é mesmo? Nunca soubemos e sempre soubemos.

Afinal, começamos a morrer na hora que nascemos. E sei sim o dia de amanhã. Sei que amanhã é segunda e vai ver que isso que sinto faz parte do vazio do domingo. E o domingo pede cachimbo: “segura a coisa que eu chego já’.

Nesses tempos em que artista é chamado de vagabundo e expor fragilidades é mimimi, qualquer coisa confessional como esse texto vira motivo de apedrejamento. Pois atire a primeira pedra aquele que não sofreu por paisagem. Minha paisagem hoje é a da Galícia. Talvez por ingenuidade, talvez por malícia. Ou só por rima mesmo. Talvez eu queira ser galego de novo. Do tempo em que me chamavam galego de água doce lá na Pirangi dos anos 70. E tô encarando qualquer água. Pode ser a que passarinho não bebe.

“Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho”, explode Byron. Gonzaguinha explode coração do Pessoa que vive em mim: “estou farto de semideuses”.

Produtora cultural Nathalia Santana na ponte entre Valença do Minho, em Portugal, e Tui, na Espanha. Foto; Carito Cavalcanti

P.S.: E nesse domingo saudoso, lembrei uma caminhada que eu e Nathalia fizemos de Valença do Minho (em Portugal) para Tui (na Espanha), em 2017. Estávamos na fronteira, então fomos ali na Galícia tomar uma cerveja e depois voltamos para Portugal.

Cervejas tradicionais espanholas em um bar de Tui, na Galícia. Fotografia; Carito Cavalcanti.

Poeta, cineasta, vocalista, performer e arquiteto [ Ver todos os artigos ]

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