Asas aprisionadas

passaros

Encontrei-o no além-mar outro dia. O professor ainda tem o mesmo cabelo enorme e o mesmo jeito irreverente de quando era adepto da luta armada, nos anos setenta. Comunista ferrenho, não iria ver a sonhada derrocada da burguesia. Ao contrário, hoje contempla o auge do capitalismo individualista, com globanalização e desmatamentos.

As meninas burguesas da época se apaixonavam todas por ele. Mal caíam no laço (ou cama, como queiram), ele começava a pregação marxista. Era bom nas duas coisas: na cama e no doutrinamento. Em três tempos, ele convencia as meninas de que o rímel nos olhos delas era o vilão abominável responsável pela exploração do proletariado. Para terem o status de namorada do revolucionário, trocavam o vestido de seda pelas roupas de saco e o Chanel nº. cinco pelo sabonete barato. Rompiam com as amigas consumistas, com os pais retrógrados, com a família careta. Passavam a ler apenas literatura engajada. Uma ou outra adotava o baseado, hábito indispensável dele. O relacionamento era aberto, claro, mas só ele aproveitava essa tal abertura, porque as meninas, de tão apaixonadas, não tinham olhos para mais ninguém. E quando ficavam com outro, era só para chamar a atenção do ídolo.

Na sucessão de namoradas, a abandonada ficava péssima. Algumas delas fingiam não estar nem aí, eram afinal mulheres liberadas e coisa e tal… Continuavam engajadas no projeto revolucionário, lado a lado com o novo casal, certas de que mudariam o mundo. Outras caíam na real, encaravam o sofrimento, desmistificavam o cara, recuperavam a auto-estima (que ele era craque em arremessar no chão) e iam cuidar da própria vida. Ah, e voltavam a usar o Chanel nº. cinco.

Ele, a certa altura da vida, desiludido com a luta armada, comprou um sítio no meio-norte do país, onde continuou a pregar Marx, Engels e Cia. ilimitada. Mas, e como em tudo há paradoxos, além de comuna, o sítio era um lugar repleto de gaiolas de passarinhos. Eram incontáveis. Nesse lugar, reunia-se a nata da intelectualidade de esquerda local.

Pois um dia, um jovem professor, colega desse nosso personagem, no meio de uma falação do mestre revolucionário, pediu um tempo. É, fez um T com as mãos, aquele gesto característico de toda reunião chata. O mestre, contrariado por ser interrompido quando fazia uma preleção mais que perfeita sobre a libertação da classe oprimida, pensou ser de bom tom conceder o tempo. Aí o jovem, do alto da coragem que o fizera assumir recentemente a homossexualidade por muito tempo reprimida, perguntou-lhe pela libertação dos pássaros ao redor. O outro ficou vermelho, engasgou. É que ele nunca havia pensado nessa coisa tão básica: liberdade verdadeira é para tudo e todos. Nunca havia pensado se os passarinhos gostavam ou não daquelas gaiolas apertadas. Ele, simplesmente, gostava dos passarinhos nelas, e pronto. Como também gostava das meninas eternamente deslumbradas por ele, presas ao seu encanto, alimentando a sua vaidade.

Tanto não soube se explicar para o jovem, que foi no pescoço dele. Sentiu-se desmoralizado? Sentiu-se desnudado, até para ele mesmo. Os dois foram às vias de fato e teriam se engalfinhado se a turma do deixa disso não os tivesse apartado.

Falso libertário ou só um ser contraditório, como todos nós? Só sei que, pássaros ou pessoas, são tantos que a gente prende sem nem perguntar se eles estão gostando…

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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