Assange e seu complô militante

Por Pedro Dória
O GLOBO

WikiLeaks vai cessar a publicação de novas denúncias. Alega que precisa se concentrar na arrecadação de dinheiro. A organização está quase na bancarrota. A culpa, diz, é do sistema financeiro internacional que o boicota. Talvez. Mas, no fundo, é porque não aprendeu algumas lições que a imprensa tradicional teve ao longo do último século e meio. Foram lições que custaram o suor de muita gente. Ainda têm imenso valor.

Julian Assange, fundador do WikiLeaks, dá nome a quem considera responsável pela bancarrota. As bandeiras de cartão de crédito Visa e MasterCard, o Bank of America, e o maior sistema de pagamento eletrônico dos EUA, PayPal. Estes grupos estão, diz Assange, se recusando a repassar doações para sua ONG. Como ele pretende formar leitores críticos, que não acreditam em tudo que se lê por aí, não seria mal se oferecesse algum tipo de evidência. Mas não custa partir, por boa fé, do princípio de que estes grupos estão realmente bloqueando repasses financeiros.

Independentemente disso, o WikiLeaks tem tido dificuldades de arrecadar dinheiro. Há um mês, colocou uma série de itens em leilão no site. Um deles era um notebook que teria sido usado na edição dos famosos comunicados diplomáticos americanos vazados por um soldado. Pediam US$ 550 mil, a maior oferta foi de US$ 6 mil, segundo a BBC. Mas, agora, Assange tocou num veio que mexe com um bocado de gente hoje em dia: aqueles contra “tudo isso que está aí”. As coisas não estão bem no mundo, a economia vai mal nos países que sempre foram ricos, as instituições financeiras já são vistas com particular desconfiança. Assange aponta como seus inimigos os inimigos da moda. Convém.

O problema é que não traz estabilidade.

Uma sociedade bem informada é a base de qualquer democracia. Governos não gostam de quem informa a sociedade. Alguns disfarçam melhor, outros sequer tentam. Todos os governantes, sem exceção, consideram ser descritos de forma injusta. Alguns toleram porque têm alma democrata, outros fazem campanha contra de forma ostensiva. O papel de informar é delicado e, por isso, exige extrema responsabilidade por parte de quem informa. Uma das maiores responsabilidades é pela sua própria estabilidade. Devem à sociedade sua contínua existência.

O que a imprensa tradicional aprendeu, ao longo do último século, foi que, a longo prazo, é o investimento em dois pilares que garante a existência. O primeiro é credibilidade, e credibilidade vem de temperança. Imprensa militante pode vender muito durante um tempo, em tempos de alta polarização parece destinada à longevidade, mas quando as coisas voltam a acalmar (e sempre voltam), a militância soa mais e mais fora do tom.

O segundo pilar é cultivar uma fonte de financiamento variada. Muitos anunciantes e, sempre que possível, a participação do leitor. Quando os leitores pagam, cobram. É uma cobrança saudável. Quando os anunciantes são muitos, um pode deixar o veículo porque não gostou do que saiu publicado. O impacto é pequeno. Na variedade de fontes de renda. Quanto mais responsável e moderado o veículo, maior o universo de leitores que atinge e mais atraente soa aos anunciantes.

Mesmo que o WikiLeaks quebre, seu conceito viverá. Haverá outros sites, alguns talvez melhores, que sirvam de receptores para informação vazada. Mas seu ponto fraco não é um complô, que talvez exista, talvez não, do sistema financeiro internacional. Seu ponto fraco está entre o ego de Julian Assange e sua razão de existir.

O WikiLeaks não serve para expor governos e instituições para construir uma sociedade melhor. O WikiLeaks serve para destruir governos e instituições. É militante, o que é legítimo. Mas o preço a pagar vem na forma de instabilidade. Ninguém sabe quando é possível crer ou não no que diz, pois oscila entre cuidado no que publica e exposição de qualquer coisa. Os doadores têm dúvidas.

Um grande boicote financeiro contra um veículo admirado por muita gente soaria como confissão de culpa dos bancos. Ninguém sequer ousaria.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo