Assim mesmo

Já lhe faltei alguma vez? Perguntou o prefeito à senhora que, a pouco, entrara chorando pedindo qualquer coisa que, pela reação do homem, parecia insignificante.
Ela sente aquelas coisas. Disse uma mulher na sala de espera, se referindo a mesma senhora. Outra, ao seu lado, concordou.
Ao telefone, a atendente do gabinete fingiu surpresa ao saber que não tinha médico no posto de saúde: ele só chega à tarde é? A indagação foi uma resposta a uma jovem que esperava ter o pai atendido com urgência. Ele tá vomitando sangue… Lamentou resignando-se.
Lá fora, o vento soprava manso e, no pátio da prefeitura, poucos se movimentavam. As duas mulheres atendidas tomaram como calmante a falta de ação do Prefeito e da atendente. As outras que aguardavam a vez sabiam que, dali a pouco, tomariam o mesmo lenitivo e sairiam sem nada, ainda assim continuavam esperando.
Não se preocupe, vou entrar com você. Disse uma à outra tentando conforto. Entretanto, nada me convencia de que aquele apoio moral servisse para alguma coisa. As caras escuras, com traços de sol forçado e olhos cansados, convieram ao meu pré-conceito. Sentia-me melhor que elas.
A atendente desviou minha atenção com o mesmo desprezo que as atendentes de cidades pequenas têm com jornalistas e me mandou entrar. Encontrei um prefeito idoso de uma calma incoercível. Respondeu-me como quis, eu agradeci, acho que satisfeito, e saí tranquilo, tranquilo, como se fosse assim mesmo.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Regiane de Paiva 4 de outubro de 2011 19:00

    Hoje, sua crônica literária revela um triste recorte da nossa dura e cruel realidade, seja na capital ou no interior. Sob o aspecto da literariedade, podemos transitar por este universo através da sua descrição e da força do relato. Sob o aspecto da estrutura profunda, sentimos asco diante do descaso, da incompetência e da hipocrisia que se instauraram no corpo político deste país.
    Parabéns, meu querido, por mais um maravilhoso texto!

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