Assustador mundo de filmes (Filmes do fim do mundo)

Vivi infância e adolescência (anos 50 e 60 do século XX) em Natal, RN. Os filmes que Igor Carastan Noboa aborda neste livro fizeram parte de uma espécie de cenário imaginário daquela etapa de minha vida e da vida de milhões de pessoas pelo mundo afora. Eram sedutoras armadilhas que provocavam medo, excitação, alegria pelo presente livre daqueles monstros e desastres, receio de que as mesmas ameaças e catástrofes irrompessem em nosso cotidiano, naquele aqui e agora, tal e qual no clarão das telas.

O ato de um historiador retomar esses filmes algumas décadas depois de sua produção e seu lançamento (o presente atual, que foi remoto futuro para aquele passado), inclui ousadia intelectual e múltiplas possibilidades de conhecimento. É mais frequente o profissional de História dialogar com filmes que abordam temas e personagens clássicos de sua área de trabalho, conteúdos sociais de incontornável identificação pelo espectador. Igor optou por filmes da imaginação mais desenfreada, que ajudam a entender as sociedades humanas de maneira sutilmente mediatizada. Ao invés de permanecer na antessala do cinema, ele ousa penetrar nos meandros narrativos dos filmes (planos, montagem, diálogos), evidenciando zelo erudito no comentário de diálogos na língua original de filmagem, que as legendas traduzidas quase nunca preservam adequadamente, consultando argumentos originais e uma sólida bibliografia analítica de apoio.

O livro analisa distopias de cinema e possibilidades narrativas que elas configuram. Ao mesmo tempo, percorre problemáticas de saber histórico, como memória artística e História pública (pensada por não-historiadores, destinada a espectadores com múltiplas formações escolares e profissionais) contrafactual (cenários do futuro a partir de possibilidades assustadoras daquele presente).

Se o mundo técnico-científico parecia comandar o cotidiano de todos, a razão sensível do cinema ajudava (e continua a ajudar) a entender tensões inesperadas de uma humanidade aparentemente controladora de sua existência. E se esses filmes remetem o leitor para a História dos EEUU, país onde foram concebidos e realizados, é necessário também considerar que o imaginário hollywoodiano se constituiu em referência para o mundo inteiro, pessoas que, como eu, assistiam a suas cenas em todos os lugares do planeta e imaginavam seu presente e seu futuro a partir de temores e desejos ali expressos.

Nosso olhar do século XXI, acostumado às peripécias da computação gráfica no cinema e noutras artes, pode até considerar os efeitos especiais dos filmes daquele tempo ingênuos ou ridículos, mas sempre vale ressaltar, em contrapartida, a capacidade de seus realizadores para mobilizarem o público em relação ao pensamento visual sobre o mundo de então e seus arriscados destinos.

Diante da ameaça nuclear e da feroz disputa entre potências pelo espólio político mundial, o pior parecia sempre possível – dizimação de milhões de seres humanos, assustadoras mutações na natureza, irrupção do incompreensível desconhecido no dia a dia. Se o espectro de um ameaçador comunismo figura entre os riscos daquele presente dos filmes, outras inquietações sobre o confortável capitalismo também foram ali apontadas. A ficção científica e política, no cinema e noutras linguagens (literatura, quadrinhos etc.), conseguia problematizar aquele perigoso viver onde estávamos mergulhados, um fator a mais para ser sedutora. Sua aparência de produto industrial corriqueiro não impedia o apelo dos estúdios cinematográficos a diretores de grande porte, como Robert Wise (O dia em que a terra parou) e Stanley Kubrick (Doutor Fantástico), nomes que atestavam respeitabilidade para os filmes, mais possibilidades de linguagem que esse gênero cinematográfico abrigava e que se desdobrariam, posteriormente, em grandes obras-primas, como 2001 – Uma Odisséia no espaço (dirigido por Kubrick) e Blade runner – O caçador de androides (dirigido por Ridley Scott).

Analista atento e original, Igor conduz o leitor nessa reavaliação de um tempo de guerras e medos que parece tão afastado (fim da URSS, informatização planetária) mas ainda se mantém cheio de outras guerras e outros medos. O diálogo da História com a ficção cinematográfica sai enriquecido destas páginas, que revelam o talento e a seriedade de seu autor.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP