Até um próximo sol, Moacy

Por Pablo Capistrano
BLOG DE PABLO

O Encontro Internacional de Literatura em Campina Grande, no ano de 1994, parecia ter tudo para afundar em um inexorável tédio acadêmico, com aquelas arrastadas leituras de artigos sobre aspectos intrincados de hermenêutica literária ou construções pseudopoéticas de críticos que giravam em torno de um conto, umas duas linhas de um poema ou um personagem qualquer de algum romance obscuro.

Por isso, eu e meus companheiros de viagem, Lauro Marques, Jota Jota, Fabio Fonseca, Carlo Negreiro, Walter Pinheiro Junior, Alessandre de Lia, preferíamos passar o tempo em busca de atrativos mais selvagens pelos botecos e inferninhos da noite campinense. Até que apareceu uma mesa com Moacy Cirne. Era uma discussão sobre literatura e subliteratura (se a memória desses vinte anos não me engana). O auditório do teatro lotado, estudantes de diversas universidades, escritores, professores de literatura, convidados do staff cultural da cidade, uma ruma de gente envolta em uma daquelas solenidades que te fazem bocejar e clamar por uma rede de dormir.

Tudo parecia correr no tédio sem limites das coisas sérias, até que a palavra chegou em Moacy, que passou a versar sobre o poema processo e suas diversas implicações na ordem da moderna literatura brasileira etc etc etc. A luz do teatro incidia sobre as suas sobrancelhas, ocultado seus olhos sob duas insondáveis cavernas escuras e sua barba branqueada, contrastando com o brilho sempre presente do crânio nu, dava ao poeta, o ar de um velho rabino judeu, do tempo dos profetas.

Lá pela metade da fala, com um bocado de papeis nas mãos, simulando uma leitura, Moacy anuncia a assertiva: “Mas o poema processo não é Subliteratura!” e antes que a plateia pudesse deglutir o sentido da frase, Moacy jogou os papeis para cima, se levantou, começou a urrar e apontar para a audiência, gritando balbucios sem sentido e girando a língua como se tivesse possuído por algum tipo de furor santo, enquanto esvaziava os copos d´água, estrategicamente postos sobre mesa, na cabeça dos palestrantes, nas cadeiras da primeira fila e em si mesmo, molhando com gotículas brilhantes sua longa barba branca.

Foi uma comoção. Pessoas riam, balbuciavam interjeições de espanto, mexiam-se nas cadeiras do teatro. Lembro de uma moça, com os braços cobertos por uma longa blusa branca, os cabelos presos e uma saia que lhe ocultava os tornozelos, correndo pelo teatro em busca da porta de saída, segurando um grito com as mãos diante da boca, como se tivesse visto o próprio exu tranca rua se manifestando no palco.

Jota Jota (José Soares Júnior – para os “não íntimos”), que estava sentado na fileira em frente à minha; levantou-se com sua câmera fotográfica e começa a clicar enlouquecidamente, ao mesmo tempo de se dirigia à nós com os olhos arregalados repetindo sem parar “Moacy surtou, Moacy surtou!”.

Antes que eu pudesse soltar o meu “caraaaaaalhooooo” de praxe, sempre presente quando me deparava com algo profundamente arretado, Moacy voltou ao “normal”. Sentou calmamente em meio a balburdia em que o teatro havia se transformado, pegou o microfone e continuou sua fala com o tom sóbrio e solene que a circunstância acadêmica exigia, como se nada tivesse acontecido “o poema processo não é subliteratura”.

Eu conhecia Moacy mais pelo mito que circundava as longas reuniões que meu pai, meu tio Lula Capistrano, Falves Silva, Anchieta Fernandes, Bianor Paulino e outras figuras da vanguarda, faziam lá por casa na luta mensal para fechar mais um jornal “A Margem”; por isso fiquei empolgado com a possibilidade de um contato mais próximo com ele.

Naquela noite procuramos Moacy após a palestra e eu me apresentei como filho de Franklin Capistrano. Moacy sorriu. Acho que tentava lembrar do garoto de onze anos que apareceu, dez anos antes, em um lançamento conjunto, dele com meu pai, no bar Casarão, em Natal.

Marcamos, na hora, um bate papo para aquela mesma noite e gravamos uma entrevista com Moacy, que foi parar nas páginas do jornalzine, “A Crítica”, dos alunos do curso de comunicação da UFRN. Terminamos a noite completamente chapados, fumando e bebendo junto com um velho e pensativo Moa, na casa de alguém que não lembro quem, em algum lugar de Campina Grande que eu nunca vou saber qual é. A uma determinada altura daquela madrugada louca, Moacy guardou-se em uma cadeira de balanço numa sala cercada de livros e quedou na penumbra coçando a barba. Parecia contemplar aquela meninada maluca dos anos 90 tentando repetir, de alguma forma, uma história que ele mesmo havia ajudado a escrever.

Hoje, soube pelo meu primo, Vlademir Capistrano, da morte de Moacy. Havia ouvido rumores que ele estava doente, com um problema no fígado. Algum tempo atrás, andando pela Poty Livros do Praia Shopping, lá em Ponta Negra, encontrei o poeta Jarbas Martins que me disse: “Moacy ligou pra mim esses dias, e ficamos conversando até altas horas no telefone. Ele me perguntou sobre Deus e o que eu achava da morte. Está preparando um livro sobre a Bíblia. Ouvi dizer que ele está doente”.

A gente sabe; amigo velho, que as pessoas morrem. A gente aprende que elas passam. Sabe que o tempo nessa terra é longo para uns, curto para outros, cheio de surpresas e misérias, pleno de diversas melancolias, mas sempre exultante de vida. Apesar disso, sempre soube que Moacy Cirne era um desses caras que não merece passar. Um sujeito decente, de uma generosidade intelectual difícil de encontrar em figuras da sua estatura, que veio pra marcar gols nessa vida e não pra cumprir tabela.

Escrevo essas linhas longe de Natal, onde o corpo dele está sendo velado e também bem longe de Caicó, sua cidade fundamento. Não poderei estar com o velho Moa na sua derradeira performance pública (o velório é nosso último evento social). Apesar disso, não escrevo para dizer “A-Deus”.

Moacy era um ateu, devoto fervoroso de Santana; não iria profanar sua crença metafísica justo agora, que ele se foi. Prefiro dizer o que eu gostaria que dissessem para mim, no dia em que eu me for.

“Siga em frente Moa, até um próximo sol”.

ps.: esse texto foi escrito no dia da morte de Moacy Cirne em Tabatinga, litoral sul do RN, mas só hoje chegou ao site. Fica o registro da lembrança.

Comments

There are 4 comments for this article
  1. edjane linhares 21 de Janeiro de 2014 14:08

    Lembrei desta passagem, Pablo, quando Moacy afirmava ser um marxista devoto de Sant’ana. Só esta convicção já dava para admirar o cara. Deve ter muitas histórias como essa. Pena que não estive tão próxima dele. Inclusive, por motivo de viagem, não participei do seu ‘último evento social’. Assisti, em Caicó, creio que em 2008, uma palestra sobre ‘Grande sertão: Caicós’, promovida pela UFRN (Deptº de História). Tentava responder as indagações do seu livro, com este mesmo título: ‘Não seria Caicó uma simples ilusão, uma mera fantasia, um inegável delírio? Será que Caicó existe mesmo? Não será fruto da imaginação de uma coletividade que, por sua vez, foi gerada pelos ancestrais tapuias?’. Neste percurso, se perdia e se achava em seu próprio redemoinho. Fiquei encantada com a sua narrativa. Lembrava muito o ritmo e a sensação que tive ao ler Guimarães Rosa. Grande figura.

  2. Lívio Oliveira 22 de Janeiro de 2014 2:40

    Bravo, Pablo!

  3. Jarbas Martins 22 de Janeiro de 2014 9:51

    Belo testemunho. amigo Pablo.

  4. Tácito Costa
    Tácito Costa 23 de Janeiro de 2014 10:02

    Jarbas, por favor, envie o nº do seu celular para o meu e-mail. obg.

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