Atenção às memórias do subsolo

Por Silviano Santiago
O Estado de S.Paulo

Nos estudos literários, o conceito de subalterno é recente e pode ser datado. Aparece na década de 1980, quando emerge na América hispânica um subgênero de autobiografia, a autobiografia dos destituídos, logo classificada como “testimonio”. Um escritor decide emprestar a palavra literária a um líder comunitário popular, desprovido da escrita e do livro pelas razões que o lado escuro da colonização europeia do Novo Mundo explica. Por virem tensionados pela alta voltagem da retórica revolucionária, os testimonios alcançam sucesso imediato.

A figura carismática da indígena guatemalteca Rigoberta Menchú (foto), de extração maia-guiché, tornou-se emblemática do subgênero testimonio. Publicada em 1982, sua autobiografia, Me Llamo Rigoberta Menchú y Así Me Nació la Conciencia, foi traduzida ao português pela Editora Paz & Terra. O livro levaria Rigoberta ao cobiçado prêmio Nobel da Paz em 1992, ano em que se comemorou a descoberta da América. A partir de entrevistas, Me Llamo Rigoberta Menchú foi escrito pela venezuelana Elisabeth Burgos, então esposa do ativista e intelectual francês Régis Debray, cuja prisão e liberação nos anos de chumbo bolivianos foram acompanhadas pelos brasileiros.

O testemunho (ousemos aclimatar o espanholismo) retoma experiências menos politizadas da antropologia mexicana moderna. Escrito por Ricardo Pozas, Juan Pérez Jolote (1948) é a biografia dum índio nascido e criado na hoje explosiva região de Chiapas. O subgênero dialoga também com a antropologia urbana americana, de onde saem as narrativas de Oscar Lewis, de que é exemplo A Vida (Nova Época, 1973), uma sofrida história da família porto-riquenha Ríos em Nova York, publicada em 1966.

Por ser de uso recente, a categoria de subalterno guarda sua atualidade. Surge no momento em que, por adesão à democracia, os governos nacionais hispano-americanos rechaçam o projeto de uniformização dos povos indígenas por sua inclusão indiscriminada na classe operária, como aconteceu na época do governo mexicano de Lázaro Cárdenas (década de 1930). Rechaçam-no porque já desconfiam da modernização industrial descontrolada que, nos países em desenvolvimento, vilipendia as culturas autóctones e o meio ambiente. Desenvolvimentistas, acatam, no entanto, o que a socióloga brasileira Lélia Gonzáles (1935-1994) chamou de “recuo pedagógico” frente às culturas indígenas e africanas que, no Brasil, eram cultivadas apenas na vida privada dos descendentes. Nas Américas, o interesse pelo subalterno se transformou em bandeira de lideranças indígenas revolucionárias, de que é bom exemplo o presidente Evo Morales.

Ao final do século 20, o testimonio inverte os sinais ideológicos das autobiografias dos pequeno-burgueses europeus no século 19. Refiro-me aos relatos autobiográficos de figuras enriquecidas pela indústria e o comércio, ou pelo exercício de profissão liberal, mas sem reconhecimento na própria comunidade. Na busca da glória, o novo-rico pagava um ghost writer para escrever sua autobiografia e disseminá-la por editora mambembe. A autobiografia do pequeno-burguês é semelhante aos portraits dos “infames” (salauds) exibidos em museu francês da província, de que fala Jean-Paul Sartre no romance A Náusea. O crítico francês Philippe Lejeune tem texto definitivo sobre “a autobiografia dos que, no século 19, não sabiam escrever”. Está no livro Je Est Un Autre (Seuil, 1980, ainda sem tradução).

Entre nós, a autobiografia Quarto de Despejo (Ática, 2007), da favelada Carolina Maria de Jesus, seria exemplo precursor e legítimo de testimonio. O jornalista Audálio Dantas teria emprestado forma literária aos diários de Carolina. Publicado em 1960, antes, portanto, do tempo propício para sua boa divulgação, Quarto de Despejo foi pouco notado fora do Brasil, mas hoje se encontra traduzido em 13 idiomas. Os relatos de Rigoberta e de Carolina ainda despertam controvérsias. Os interessados em Carolina podem consultar os livros do seu fiel estudioso, José Carlos Sebe Bom Meihy.

Nos estudos literários brasileiros, o conceito que melhor traduz subalterno, embora dele não apreenda as nuanças pós-modernas, é o de pobre. Penso, por exemplo, em Os Pobres na Literatura Brasileira (Brasiliense, 1983), coleção de ensaios organizada por Roberto Schwarz. Trinta estudiosos traçam um panorama das nossas letras que vai dos “vadios na literatura colonial do século 18” à “conspiração do silêncio” das mulheres de Tijucopapo (alusão a romance de Marilene Felinto). O conceito de pobre como o de subalterno tem uso analítico elástico e eficiente, propício a outra apreensão das letras nacionais, cujo chão seria pavimentado pela “história dos vencidos”, para usar a nomenclatura consensual. Roberto conclui o prefácio à coleção de estudos, afirmando que “a situação da literatura diante da pobreza é uma questão estética radical”.

À semelhança da proposta feita por Roberto aos críticos literários brasileiros, John Beverley, notável especialista da subalternidade, valeu-se do contexto atual da categoria para melhor analisar e interpretar não só uma figura clássica do Siglo de Oro espanhol, o pícaro, como também personalidades e personagens da literatura contemporânea. De leitura obrigatória seria a coletânea de seus ensaios intitulada Testimonio: On The Politics of Truth (University of Minnesota Press, 2004).

Os leitores interessados pela questão, tal como proposta nos estudos hispano-americanos e asiáticos, têm agora um bom guia em português. Trata-se do ensaio Pode o Subalterno Falar? (Editora da UFMG, 2010), da pesquisadora indiana Gaiatri Spivak, tradutora de Jacques Derrida e professora na Universidade de Columbia, em Nova York.

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