Atestado de óbito

Por Luiz Weis
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Na terça-feira (14/4), a Folha de S.Paulo publicou uma curiosa entrevista do seu correspondente em Londres, Leonardo Colon, com um ex-funcionário da holandesa SBM Offshore, fornecedora de equipamentos para a Petrobras.

O entrevistado, o inglês Jonathan Taylor – que pediu ao repórter para não dizer onde foi ouvido, porque “temia por sua segurança” – acusou o Tribunal de Contas da União (TCU) de só ter aberto investigação sobre alegado suborno de US$ 31 milhões pago pela empresa em que trabalhara a dirigentes da petroleira três meses depois de ter recebido a sua denúncia – mais precisamente, depois da eleição presidencial de outubro que manteve Dilma no Planalto.

A Folha, estranhamente, não procurou o “outro lado” para comentar a alegação. A atual assessora de comunicação do TCU, Bárbara Lobato, e – mais importante – o ministro presidente do órgão à época do suposto engavetamento, Jorge Hage, tiveram que mandar cartas ao jornal informando que a investigação tinha sido instaurada já em abril. A correspondência enviada no mesmo dia da entrevista foi publicada na edição seguinte.

Cartas para a redação

Pois bem. Como se o TCU se tivesse mantido mudo e quedo diante da acusação de Taylor, ou como se a resposta do tribunal à Folha não merecesse ser levada a sério, na quinta-feira (16), em editorial intitulado “A polícia mais perto do PT”, o Estado de S.Paulo comprou pelo valor de face as declarações de Taylor, para concluir que “Dilma Rousseff parece estar envolvida em mais uma grossa encrenca”. Como quem espanta distraidamente uma mosca, o texto registra que o governo, “é claro, nega tudo”.

No sábado (18/4), quase caindo da seção de cartas, o jornal publica, obviamente a contragosto, alentada contestação de Jorge Hage. “A acusação”, escreve ele, “é mentirosa, inverossímel e, como tal” – acrescenta com elegência – “não pode merecer guarida em órgão de imprensa com a tradição do Estado”, antes de provar com fatos e datas que o TCU começou a investigar o assunto “meses antes de qualquer contato com esse senhor (Taylor)”.

O que fica do episódio, do qual o trêfego Aécio Neves logo tratou de fazer um cavalo de batalha na sua escalada pelo impeachment da presidente, é o mau jornalismo, se não facciosismo, com que os dois jornalões paulistas inflaram a história. É como se o presidente de um órgão como o TCU, com cargo de ministro – ao se ver obrigado a escrever cartas para desmanchar uma fabricação acolhida pela mídia e usada politicamente contra o governo – tivesse redigido o enésimo atestado de óbito da credibilidade da grande imprensa brasileira.

P.S. [acrescentado à 01:00 de 20/4]

As gravações fornecidas à Folha pelo o inglês Jonathan Taylor de suas conversas com funcionários da CGU sobre o suborno de U$ 139 milhões que a SBM Offshore teria pago a funcionários da Petrobras não parecem corroborar a denúncia da própria fonte de que a CGU esperou o fim da eleição presidencial para mergulhar no caso.

Os grampos – alguns deles transcritos na edição online do jornal no domingo (19) – indicam, antes, que a CGU foi sim atrás da história a tempo e hora, mas a fornecedora holandesa da Petrobras – e até autoridades do país – não tiveram o menor interesse em ajudar o governo brasileiro a elucidar o caso.

E muito menos explicam porque a grande mídia nacional adotou o reprovável procedimento de obrigar o órgão federal a procurar as seções de cartas da Folha e do Estado para ver publicada a sua versão do episódio.

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Luiz Weis é jornalista

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