Ateu com a graça de Deus

Por François Silvestre
No Novo Jornal

Todos os deuses existem. Mas Deus não existe e nem por isso tudo é permitido. A existência de Deus não é condição imprescindível para limitar as ações humanas. O deísta mau caráter pode viver a “glorificar” Deus e assim mesmo não tê-lo como barreira para a prática do mal.

O ateu bom caráter tem no remorso o mais terrível dos deuses. E aí morre a argumentação de Dostoievsky.

Não existe monoteísmo. Todos os crentes, de todas as seitas, fatiam sua fé. E disfarçam. O cristianismo desmembra Deus na trindade misteriosa. Tanto que os evangélicos nem sabem mais da existência do Deus hebreu. Basta-lhes um dos testamentos e todos os arrecadamentos. O uso do velho testamento só serve quando o texto interpretado justifica dízimos e outras prebendas.

Zé Maria vai me telefonar para corrigir. E mandar que eu leia Isaías.

No Islã, Alá só é único no verso de abertura do Alcorão. “Láh iláhá illa Alláh, Muhammad rasúl Illáh”. Na prática, Maomé é deus e são deusas todas as guerras “santas” desde os embates de Saladino com templários, cruzados e sucessores de Balduíno.

Deus existe até no ateísmo. Por quê? Porque se não existe na forma de criador, existe no formado de mito. O mais exuberante, imortal e universal de todos os mitos. Só que nesse caso ele é criatura e não criador.

Os deuses gregos só diferiam dos humanos na força específica de cada destinação e na imortalidade. Dispensavam as Academias. No resto, carregavam as mesmas paixões, fraquezas e grandezas humanas.

A beleza de Afrodite e a embriaguez de Dionísio, Vênus e Baco latinos, sempre fascinaram o imaginário da literatura de ficção. Ou até da literatura de ensaios.

Não gosto do deus hebreu porque ele me assustou na infância. Eu não rezava por admiração. Rezava por medo. Medo de almas e das suas barbas saindo das nuvens, nos “santinhos” que o padre alemão distribuía na igreja dos Domingos.

Só depois descobri que alma só assusta se for nova e conhecida. Nas aulas de história, todos estavam mortos. Mas eu não temia as almas de Deodoro, de D. Pedro nem de Anchieta. Almas velhas, distantes, desconhecidas. Morria de medo das almas de colegas ou vizinhos mortos. Almas novas é que assustam.

Hoje eu tenho medo do medo. Não o quero de volta. Troquei o medo pelo desprezo. Apenas olho com olhos frios e descaso essa parafernália de igrejas vendendo lotes no céu aos desesperados.

Não me vanglorio do ateísmo. Gostaria de acreditar. Mas a fé não se encaixa no recipiente da razão. Se eu pudesse manobrar a fé, me incluiria nela. Tenho inveja dos que acreditam honestamente. Digo honestamente, porque não creio na fé dos vendilhões de salvação.

É angustiante não crer na própria alma. Se a minha existe, que duvido muito, ela não acredita nem nela mesma. Té mais.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. françois silvestre 11 de julho de 2011 6:49

    É por aí, Edjane. Você alcançou o que eu quis dizer.

  2. edjane linhares 10 de julho de 2011 13:53

    François, hoje o deus e os templos são outros. A descrença em si próprio e no seu semelhante faz com que a carência humana seja compensada com bens materiais.
    Outros se voltam para forças divinas. Admiro a devoção dos fiéis (honestos) à Sant’Ana. Ver a multidão agradecendo ou fazendo pedido à santa é de uma energia inexplicável. Em seus rostos emanam um brilho intenso. Mistura de dor e contentamento. Talvez esta magia tenha contaminado Moacy Cirne, que se diz marxista e devoto de Sant’Ana.
    Moro perto da Catedral. As badaladas do sino já fazem parte da rotina do bairro. São chamadas para missas e novenas. Anunciam nascimento e morte: a tonalidade aguda, falecimento de mulher, a mais grave, a de homem. Talvez para muitos, a igreja seja um dos poucos espaços públicos onde a pessoa senta, medita (ora) e fica em silêncio. Mesmo com o ritual, é o único lugar disponível para se ter paz por alguns momentos. Um abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo