Atire a primeira pedra

Frida Klalo (Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos (1932)

Sofrer por amor não é um escolha, é uma arte. O homem gosta de sentir aquela dor que aperta o peito e afrouxa as articulações. Gosta de beber para esquecer, sabendo que isso só o fará lembrar ainda mais. Porque sofrer faz parte da natureza humana. Precisamos do descontrole para nos redescobrir mais fraco ou mais forte. Por mais contraditório, a desordem nos ordena. Refaz nossos próprios conceitos e obriga-nos a crescer enquanto indivíduos, pelo menos até o próximo amor.

O desespero é uma fuga para os impacientes. Mas só os que resistem conseguem fazer do sofrer por amor uma poesia. É o silêncio e a impossibilidade da exposição que torna tudo universal, intocável aos olhos e literário aos que sabem escrever as sensações. Para uns, a dor pode ser fatal, mas para outros é um arremesso às alturas da própria compreensão.
Sem o amor e o seu sofrimento o mundo seria menor. Não teríamos o Taj Mahal, os poemas de Lorca, as cores de Frida Kahlo, nem a obra de Vinícius, o maior dos dependentes. Ele foi quem mais conheceu essa amargura. Amou uma dezena de vezes oficialmente e escondeu para si tanto sofrimento que daria uma nova bossa nova. Vinícius gostava de se apaixonar e vivenciar a aflição da conquista. Mas a paixão é efêmera como as intervenções urbanas. É preciso sofrer com controle, do contrário, tudo será efêmero. A dor da saudade é um vinho que se toma taça a taça.

Deixar ou ser deixado é só um detalhe. Por isso, aos que deixaram de amar, não tenha pena do outro em seu leito de ansiedade. Deixe-o sentir todas as dores que lhe cabem e, assim, evite os assaltos que só competem às paixões. Mesmo os que amam precisam pensar nisso. Sentir saudade é necessário mesmo às almas gêmeas. A angústia da espera, a solidão que nos faz pensar na falta, o vazio da cama que não pode ser preenchido pelos travesseiros… a mudez em frente à televisão. Tudo é necessário. Carecemos sofrer porque precisamos ver o que vem depois do caos.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. marlucy oliveira 4 de março de 2012 15:27

    parabéns amigo j.paiva, adorei o texto você estar cada vez melhor com seu trabalho um abraço..

  2. Gilvânia araújo 10 de janeiro de 2012 15:33

    É impressionante como as palavras tem o dom de nos emocionar. E escrito assim dessa forma sem rodeios, mais com uma dose cavalar de poesia…As coisas são assim… Nem tudo que reluz é ouro! O amor não é sempre essa maravilha que todos pensam ser… Às vezes machuca a alma, destrói as esperanças e acaba com a vida.
    Por isso, que o universo tenha piedade daqueles que pensam que o verdadeiro amor encontra obstáculos shakespearianos no seu caminho, porque a vida não será condescendente a ponto de evitar dor e sofrimento…vc usou as palavras certas pra falar sem drama de algo bem real! Mais um texto que li e guardei! Muito bom!

  3. Maira Oliveira 30 de novembro de 2011 21:43

    Paiva, você não poderia ilustrar melhor o seu texto, ter uma obra da Frida é sintetizar o sentimento de dor/amor. Uma vida marcada por angustias, medos, tragédias e por um grande amor… Amor sem limites pelo Diego Rivera. Ela pintava o que ela mais conhecia: ela mesma e sua dor (não era uma artista surrealista).
    Você retrata o outro lado da dor, a dor de quem vive e/ou viveu o sentimento que mais nos mobiliza: o amor. Se “redescobrir mais fraco ou mais forte” mostra a grandeza de quem não tem medo de enfrentar sentimentos que desestabilizam, inquietam. É enfrentar a “desordem” que nos “ordena”.
    “É o silêncio e a impossibilidade da exposição que torna tudo universal, intocável aos olhos e literário aos que sabem escrever as sensações…” “A dor da saudade é um vinho que se toma taça a taça.” Consegue nesses dois momentos falar de amor, sem ser piegas e falar de dor sem ser dramático. Saudade que se degusta, que dar prazer, como o que buscamos em cada nota aromática da bebida Dionisíaca. Dor de amores perdidos, platônicos, passageiros, impossíveis, mas sobretudo, a certeza de que a vida vale a pena e que “o pulso, ainda pulsa”.
    Citando o jornalista Jomar Morais “A dor que nos poda e maltrata é a mesma que nos faz crescer, a que nos isola, a mesma que nos une.”
    Parabéns, mais uma vez. E tenha certeza, que eu não vou “atirar a primeira pedra”.

  4. Regiane de Paiva 29 de novembro de 2011 17:38

    Hoje, seu texto flui por dois rios: o sofrimento dos que foram deixados por seus supostos amores e o sofrer pela ausência do ser amado (e aqui não se trata do rompimento da relação, mas da saudade temporária). Experienciar o primeiro nos fortalece, através da dor, e nos faz maiores que nós mesmos. O segundo é agridoce. Inicialmente se experimenta o amargo das horas que nos afastam de quem amamos; depois nos lambuzamos do doce contido em todo o amor que sentimos pelo outro ausente. Você foi certeiro, eu diria, em toda a sua exposição. Poético: “O desespero é uma fuga para os impacientes. Mas só os que resistem conseguem fazer do sofrer por amor uma poesia”; Inteligente: “Para uns, a dor pode ser fatal, mas para outros é um arremesso às alturas da própria compreensão. Sem o amor e o seu sofrimento o mundo seria menor. Não teríamos o Taj Mahal, os poemas de Lorca, as cores de Frida Kahlo, nem a obra de Vinícius, o maior dos dependentes.”; Preciso: “A angústia da espera, a solidão que nos faz pensar na falta […] Tudo é necessário. Carecemos sofrer porque precisamos ver o que vem depois do caos”. Depois do caos? Vida!

    Maravilha de texto! Bebi gota a gota de toda a sua belíssima elaboração literária. Bjs in… querido!

  5. CJ 29 de novembro de 2011 17:15

    Você chega a quase embriagar os leitores grande pensador… Adorei. É quase uma resposta a tantos devaneios meus…O amor é isso mesmo, cores, dores, sabores…

  6. Camila Paula 29 de novembro de 2011 15:38

    Verdade. O amor se colore de flores, de sorrisos, de olhares, de saudades e de dores… Boa reflexão, J.Paiva!

  7. Polyanna 29 de novembro de 2011 15:25

    Muito bom!

  8. Danclads Andrade 29 de novembro de 2011 12:26

    O amor e o sofrimento que ele causa tem produzido inúmeras obras de arte e isto porque o amor e o sofrimento por ele é imanente a todos. Castro Alves, Gonçalves Dias, Shakespeare, Goethe, dentre tantos outros, se abeberaram nesta fonte. O título é mais que apropriado: “atire a primeira pedra”. Não há quem seja isento deste sofrimento.

    José Paiva, meus parabéns pelo texto: primoroso!!!

  9. Anchieta Rolim 29 de novembro de 2011 9:08

    …mas que seja infinito enquanto dure. Valeu J. Paiva!

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