O átomo e a estrela

Por José Castello
O GLOBO

Onde encontrar uma chave para ler “Um ano”, o romance esfacelado do chileno Juan Emar (Rocco, tradução de Pablo Cardellino Soto)? Ler é experimentar chaves que decifrem uma narrativa. Nenhuma delas funciona: relatos vigorosos são arredios aos esforços do leitor. Ainda assim, apontam vias de aproximação, revelam caminhos, nos ajudam a sonhar.

Encontro uma provável chave em uma nota de pé de página. Falo da página 22. A nota é assinada pelo tradutor Pablo Soto e se refere à palavra “alhuaquerecas”. No livro, ela aparece assim: “… rodeado de parentes tristes, mudos, imóveis como sinistras alhuaquerecas”. Recorda Soto que a palavra alhuaquerecas “tem significado obscuro, e somente é encontrada em dois livros de Emar”. Refere-se ao próprio “Um ano” e a “Diez”, inédito em português. Esclarece: “Não se sabe com certeza qual o significado com que Emar a usou, mas em ambos os casos a morte está presente na narrativa”.

A estranha palavra, com seu significado incerto e ameaçador, define o livro de Juan Emar (1893-1964). Com doze capítulos, cada um deles dedicado ao primeiro dia de cada um dos meses do ano, “Um ano” é um livro que explora os limites da ficção. Um livro que, costurando relatos soltos em uma estrutura insólita, e sem temer a presença do absurdo, aposta tudo na arte de inventar.

Vejam o caso de “1º de novembro”. O narrador se apaixona por certa Camila. Por motivos obscuros, ela o ama um dia em cada oito. Nos outros sete dias, abandonado, o protagonista sofre. O telefone de Camila é o “52061”. Logo ele se dá conta: “5 + 2 + 0 + 6 + 1 = 14!” Já no primeiro capítulo de “Um dia”, somos informados de que o personagem de Emar tem um problema com este número. “Tenho uma certa afinidade, ou uma certa superstição com o número catorze”, ele diz. O número lhe serve de fronteira. Sempre que esbarra em 14, seu mundo se detém. É o que se repete agora. Telefona para a amada. Disca os cinco números sinistros. “Eu te amo, Camila!”, ele grita, mas ela só responde com “um risinho precipitado, agudo, penetrante como alfinetes em guizos”.

Suplica por seu silêncio, mas Camila não para de rir. Quando, exausto, tenta se afastar do telefone, ele percebe que tem o fone grudado ao ouvido. “Tentei tirá-lo suavemente. Inútil. Tentei retirá-lo como se fosse um parafuso. Também não.” Nada funciona _ está definitivamente preso ao riso sarcástico da amada. Não tem escolha: pega uma tesoura e corta o fio do telefone. Finalmente, o silêncio.

Mas o silêncio é também devastador. “Supressão perfeita de toda manifestação de vida pelo ouvir”, descreve. Chega a um impasse: deve escolher entre o desprezo de Camila (risinho) e o silêncio brutal do mundo. “Ensaio todos os meios para arrancar semelhante apêndice: a força, a suavidade, o parafuso, uma faca, um creme. Nenhum resultado”. O impasse se perpetua.

Sempre com o fone grudado ao ouvido, descobre que, cada vez que se aproxima do telefone, o risinho doloroso retorna. “Assim a cada dia, a cada hora. Ou o túmulo ou o desdém de Camila”. Luta para se adaptar a esse novo modo de existir. Quando se distancia do aparelho, começa a descobrir as sutilezas escondidas no silêncio. “Faz três dias que declarei para mim mesmo que, dali por diante, poderia ser feliz até o fim da minha vida”. Aceita seu estranho destino. A ficção dobra a vida.

Pois é disso, no fim das contas, que a literatura trata: do caráter vivo da escrita. Um dia, de surpresa, bate à sua porta o doutor Hualañé. O médico lhe promete a cura. Submete-o, então, a uma cirurgia para separar o fone da orelha. Volta enfim a ouvir. “Agora tudo retumba com estrépito”. Já não suporta os ruídos do mundo: a cura é sua condenação. Volta a discar o número 52061 e a esperar. Mais uma vez, esbarra no limite imposto pelo número 14.

A literatura de Emar é excêntrica _ o leitor não tem um centro em que possa se segurar. Nenhum bom senso, nenhuma relação natural, nenhuma causalidade. Nada. Tudo pode acontecer. Em Juan Emar, as exigências da ficção se sobrepõem aos fatos do real. A ficção não deve nada a ninguém. Só a ignorância abre caminho para a escrita. Só ela nos deixa inteiramente livres para o arbítrio e para a invenção. O leitor deve desistir de qualquer coerência: nas narrativas de Emar, nenhuma lógica merece confiança.

Já no primeiro capítulo, Juan Emar nos dá uma pista sobre a função da escrita. “Toda a minha pressa tinha se esvaído. Agora, escrevendo, estou tranqüilo. Envolve-me uma paz sem igual”. Se o aflige, a escrita é também seu amparo. No mais, tudo não passa de um jogo do acaso. Aprende, então, a admirar as guinadas do destino. “Um dia” é um livro sobre a potência da ignorância. Só ela nos permite imaginar. O personagem de Emar só se liberta quando descobre que “as coisas não acontecem exatamente como exigido pela lei”. Os acontecimentos escapam à nossa vontade. Escrever é a forma mais suave de submissão.

Detenho-me no capítulo dedicado a “1º de agosto”. O narrador recebe a visita do amigo César Miró, que vem lhe relatar uma experiência perturbadora. Pela manhã, ainda na cama, pegou um jornal para ler. De repente, as letras começaram a escorregar pelas páginas do jornal e a cair em seu colo. “Sozinho em seu quarto com uma folha em branco na frente dos olhos”, Miró se dedica ao trabalho de alinhavar as letras perdidas. Já não sabe como ordená-las. Também ele, diante do desastre, “pode tudo”. É uma tarefa impossível. Decide buscar o conselho do narrador.

“Miró passeia ao longo do meu escritório. A cada passo se solta de sua roupa uma letra presa a ela. Junto aos meus sapatos jaz um ´f´; um ´t´ pende da grade de minha janela; um ´o´ quica no chão”. É todo um mundo que agora deve ser reescrito. Miró ocupa o mesmo vazio, o mesmo ponto morto, desde onde os escritores se põem a trabalhar.

No capítulo dedicado a setembro, o protagonista reflete: “O homem, pelo seu tamanho, ocupa, mais ou menos, o ponto médio entre o átomo e a estrela; por isso, para ele é mais ou menos igual se ocupar do infinitamente pequeno ou do infinitamente grande”. Divididos entre esses dois extremos, nos agarramos às palavras.

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