Ator Josivan Alves adapta O Menino do Dedo Verde

Vem de Parelhas uma adaptacão teatral de O Menino do Dedo Verde.5
Com 20 mil habitantes, Parelhas fica distante cerca de 250km de Natal; cidade foi passagem do bandeirante Domingos Jorge Velho, no século XVII e tem um dos maiores açudes do RN, o Boqueirão; ela é das principais do Seridó Potiguar e terra natal de Josivan

Um dos apelidos da cidade de Parelhas é Paris Seridoense.

Exagero típico nordestino esse de comparar lugares e episódios locais com o que existe no além-mar, mas o fato é que o pequeno município com 20 mil habitantes é dos principais do Seridó e tem certa organização urbana e padrão de limpeza, dentro da realidade potiguar, para sorrirmos com a brincadeira.

Lá onde esteve o bandeirante Domingos Jorge Velho, no século XVI; lá onde o açude Boqueirão amplia a beleza sertaneja com um mundaréu d’água, relíquia em um solo castigado pelo astro-rei e pela geografia.

Lá onde nasceu e se criou Josivan Alves Pereira, sujeito ligado a arte desde os sete anos de idade, hoje residente em Natal e responsável por um projeto que utiliza a literatura para educar crianças.

De peruca loira, macacão verde e um boné com uma espécie de pirocoptero no topo, ele encarna o personagem do livro O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon, para compor seu Tistu Pensa Verde, uma bateria de ações que incluem contação de história, incentivo a leitura, troca de livros, palestras sobre fauna e flora, distribuição de sementes e orientações sobre alimentação saudável.

Afinal a ideia é explorar o Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte, o belo espaço arquitetônico-ambiental desenhado por Oscar Niemeyer, subutilizado pelas classes média e alta natalense.

Sempre no último sábado de cada mês, é ali que Josivan reúne cerca de 40 crianças em sessões de 25 minutos para mostrar sua releitura da fábula do menino Tistu, cujo poder de proliferar plantas em recantos impossíveis conquista gerações.

Foram cinco anos entre a coordenação do Espaço Nordeste do BNB Cultural, em Parelhas, distante 250 km de Natal, e apresentações teatrais na capital do Estado.

Josivan trabalhou em buffets, escolas, até perceber uma demanda maior em Natal e vir morar com um irmão, há três anos.

Nesta quarta-feira (15) em que a temperatura deu uma trégua na moleira dos passantes, nosso personagem abre os braços para a oportunidade que a vida lhe deu, como um náufrago recém-resgatado de uma terra isolada.

“A arte me salvou, eu tinha tudo para me tornar alguém marginalizado, um futuro traficante. Lá no bairro tinha muito tráfico de drogas, violência. Eu tinha a escola como refúgio. Outros colegas dessa época, que não seguiram o caminho das artes e do esporte, seguiram o caminho das drogas”.

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Fotografia: John Nascimento

No qual a morte da mãe foi sentida

Falemos dos anos 1980, época em que o menino Josivan estudava na Escola Municipal Inácio Miranda dos Santos, no bairro de São Sebastião, então um dos mais pobres de Parelhas.

Segundo mais novo de sete irmãos, ele era arredio, desregrado, como vários colegas da vizinhança.

“Eu dava muito trabalho, mas tinha facilidade de fazer poesia, de me apresentar em público, de interpretar”.

Se o lirismo poético fazia brilhar os olhos de criança, duas tragédias das mais brutais transformaram o chão de Josivan em areia movediça.

Aos sete anos de idade, ele virou órfão de mãe e viu o pai desenvolver um alcoolismo com graves consequências familiares.

Sobrou a escola.

E ali, em meio às aulas de português e matemática, a professora foi desafiada a criar um grupo de teatro com os melhores alunos – boletim azulado era pré-requisito.

“Só que ela perguntou por que que só tinha que ser quem tinha notas boas e bom comportamento. Por que não aqueles que chamavam mais a atenção, que davam mais trabalho? Tinha muita gente talentosa nesse meio de crianças ‘revoltadas’. E ela me fez o convite”.

O que sobrou na memória lhe diz que era um texto de Maria Clara Machado ou Ruth Rocha, ambas escritoras com carreiras dedicadas à literatura infantil.

“A partir desse grupo foi que se criou uma associação que organizou um festival de cultura por muitos anos. Isso foi em 1994, 1995. Dez anos depois essa professora me entregou a coordenação desse grupo, que ainda continua. Era chamado Caminho do Futuro, depois virou Sonho de Igualdade, e agora é o Baú Nordestino de Artes. Por questão de apoio financeiro e logístico, ele só fica na cidade mesmo”.

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Projeto Tistu Pensa Verde acontece no último sábado de cada mês no Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte

Longe de casa, em um município pobre do sertão norte-rio-grandense, eis como Josivan conheceu os livros.

O que viria na sequência nem um gênio da lâmpada poderia prever.

No qual uma amiga abreviou caminhos

Inicia a década de 2010 e também o flerte de Josivan com Natal.

Apesar de pequena, Parelhas vivia um boom artístico, com mais de uma quinzena de grupos culturais.

“E grupos que não deixam a desejar para ninguém. Mas em Natal o movimento é muito maior, e eu comecei a ficar mais aqui”, diz Josivan, 30 anos.

Foi a amiga Nina Bezerra quem estendeu o tapete e abriu a porta principal para o ator entrar na sala, no caso, a Sala Natal, um dos quatro departamentos da Secretaria Municipal de Cultura.

Nina apresentou Josivan ao jornalista e escritor Franklin Jorge, diretor da instituição pública, que já conhecia o trabalho do parelhense à frente do centro cultural do BNB.

Após concorrer em uma maratona de contação de história, em 2013, veio o convite inusitado: celebrar os 70 anos do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, com uma adaptação que valorizasse o tema ambiental do Parque da Cidade – obra iniciada dez anos atrás, orçada em R$17 milhões.

“No início eu fiquei receoso, porque é uma responsabilidade muito grande. Fiquei com medo, é uma obra muito universal, conhecida. Eu pensava em esquecer alguma coisa e todo mundo perceber”.

A titubeada tem uma explicação.

Alguns intelectuais potiguares asseguram a influência de Natal sobre a obra de Exupéry, como a estrela que simboliza a cidade e o baobá de propriedade do poeta, advogado e presidente da Academia Norte-rio-grande de Letras, Diógenes da Cunha Lima.

O francês teria visitado a Cidade do Sol nos anos 1920, segundo eles.

Outros, negam tudo com veemência e exigem provas da presença do aviador parisiense em terras potiguares.

“Têm algumas coisas que fazem sentido. Exupéry foi servir a aeronáutica americana, que montou base aqui em Natal. E como todos sabem, Natal foi fundamental na Segunda Guerra. Existem provas que ele esteve em Santa Catarina, mas aqui, infelizmente, sabe como é, não tem esse costume de se registrar as coisas e, na época, ele também não era muito conhecido”.

Polêmica à parte, o projeto de Josivan foi um sucesso, e logo veio a chance de prosseguir com mais um clássico da literatura infanto-juvenil da terra de Baudelaire.

Era chegada a vez de usar as flores contra todo o mal.

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Maurice Druon (19018-2009) foi ministro da cultura da França, ex-combatente da Segunda Guerra e vencedor do prêmio Goncourt com a novela As Grandes Famílias; ao ser nomeado ministro declarou não entregar verbas do governo a “subversivos, pornógrafos ou intelectuais terroristas”. Ganhou a ira de artistas, escritores e políticos e foi tachado de “ditador intelectual”

No qual um morador da casa-que-brilha inspirou Josivan

Em O Menino do Dedo Verde, Tistu é um garoto de oito anos que mora em uma residência impecável.

Sob os cuidados do criado Cárolo, nada estava fora do lugar; assim como o cabelo do pai, as joias da mãe, a crina dos nove cavalos e o polimento dos nove automóveis.

Ele morava na Casa-que-brilha.

A família era dona de uma fábrica de canhões na cidade de Mirapólvora, enriquecia com as intermináveis guerras no entorno.

Enviado à escola, Tistu é um fracasso: dorme do começo ao fim das aulas, para irritação do diretor, que o envia de volta pra casa com um bilhete constrangedor.

“[…] não é como todo mundo”.

O ‘Sr. Papai’, então, decide que o filho terá lições na prática, longe dos livros.

Jardinagem com o Sr. Bigode, para saber de onde brota a vida; ordem, miséria e doença com o Sr. Trovões, para entender como funciona uma sociedade.

Em cada situação o poder de criar verdadeiros jardins suspensos floridos leva Tistu a melhorar o que vê, e o leitor segue a magia criada 60 anos atrás por Maurice Druon, ex-ministro da cultura francês, consagrado por romances históricos.

Josivan tinha lido O Menino do Dedo Verde, e uma doutora em letras o abordou com uma sugestão.

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Josivan  encenou primeira peça aos sete anos, em Parelhas. “Graças a Deus eu tenho a facilidade de prender a atenção dos outros, quando estou falando. Desde trabalhos na escola era assim. Isso é uma coisa que eu tenho em mim. Isso me ajuda bastante porque para prender a atenção da criança é mais difícil. Eu chego e olho diretamente no olho delas, tento conquistar a partir dali. É sentar junto, ir ao chão”.

“Ela viu a apresentação do Pequeno Príncipe e me abordou. Ela é de Campina Grande. Ai ela me disse: ‘Tem um livro que é da mesma linha do Pequeno Príncipe, o autor foi tradutor do O Menino do Dedo Verde e é a sua cara. Já leu?’. Eu disse, ‘Já, mas estou procurando uma maneira de preparar ele para apresentar’. Aí ela me deu umas dicas. Eu tinha essa necessidade de criar um personagem voltado para o meio ambiente, já que aqui é uma área de proteção ambiental. Eu via muita gente que falava nesse livro. Como o livro não é domínio público, eu tenho que dizer que é uma releitura”.

O preconceito com literatura infantil, tratada como linguagem inferior, passa longe do contador de histórias de Parelhas (e deste escriba).

Tida como efêmera, destinada a um público definido como inexperiente e imaturo, ela depende da percepção dos pais para saber até onde pode ir com uma criança, não é assim?

É mais ou menos como se um pediatra fosse menos médico que os outros especialistas.

Pior ainda é quem pensa a literatura como um item desagregador, com tendência inacessível, difícil, pretensiosa, portanto, oposta a uma criança.

Desse mal entendido surgem brechas para a mercantilização da infância, penso eu.

Josivan, no entanto, soube traduzir a essência da trama e adaptar com simplicidade para os frequentadores do Parque – para mim, a chave de O Menino do Dedo Verde está na frase da Mãe Perfumada, ao dizer: “[…] não há lugar para maricas nessa família”.

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“Eu dava muito trabalho, mas tinha facilidade de fazer poesia, de me apresentar em público”.

“Graças a Deus eu tenho a facilidade de prender a atenção dos outros, quando estou falando. Desde trabalhos na escola era assim. Isso é uma coisa que eu tenho em mim. Isso me ajuda bastante porque para prender a atenção da criança é mais difícil. Eu chego e olho diretamente no olho delas, tento conquistar a partir dali. É sentar junto, ir ao chão, pra ficar uma coisa mais íntima. Mesmo quando não estou fantasiado e eu estiver em algum lugar com crianças, ela ficam me olhando. É impressionante”.

Durante os seis meses de montagem do projeto, Josivan recebeu aporte intelectual do escritor Franklin Jorge.

“Ele tem as virtudes do talento: entusiasmo, modéstia e espírito de colaboração. Além de provido da verve do ator. Percebo nele um grande talento como educador”, me contou o diretor da Sala Natal, via Messenger.

Além do Tistu Pensa Verde, o parelhense integra a companhia de teatro Girarte, com estreia da peça Quem anda de cravo encarnado corre o risco são Francisco, marcada para dia 13 de julho, no Teatro de Cultura Popular.

Se o avanço do mal foi brecado pelo Menino do Dedo Verde, a ponto de alterarem o nome da cidade fictícia de Mirapólvora para Miraflores, Josivan vislumbra um futuro de maior compreensão quanto ao equilíbrio ecológico, sobretudo através da ferramenta arte-educação.

“Criança é um público muito bom, o melhor para se trabalhar, principalmente nessa parte educativa. Eu penso que só eles é que podem mudar o mundo”.

Fotografia de capa: John Nascimento

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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