Atores fracos, atores fortes: Macchi avalia Hoffman

O ator brasileiro Ricardo Macchi se notabilizou ao interpretar o cigano Igor na novela Explode coração, da TV Globo, 1995. Talvez seja a pior interpretação jamais exibida na televisão brasileira, onde a concorrência nesse tópico é acirrada e permanente. Há quem pense que seu destaque se dá inclusive em nível mundial mas seria muito difícil responder a essa hipótese empiricamente – ninguém viu todos os atores ruins e excepcionalmente péssimos de tv pelo mundo afora para ser justo na avaliação.

Ele comentou sobre a morte do ator estadunidense Philip Seymour Hoffman:

“Ficam todos babando ovo do queridinho sem falar que o cara se perdeu nas drogas e jogou uma vida brilhante no lixo! Que papo de otário essa história de droga! Qualquer droga! Papo de otário! No sábado havia escrito sobre drogas! Droga é pra perdedor!. Vencedor na vida não usa droga alguma”

Traduzindo: ser fraco e perdedor é desempenhar papéis como o de Capote, no filme homônimo, merecer o respeito de crítica e público (recebeu o Oscar de Melhor Ator em 2005, prêmio bastante disputado, como se sabe, além de outros prêmios em cinema e teatro). Ser forte e vencedor é interpretar o cigano Igor.

Não faço comercial de drogas. Por um desses acasos da vida, não uso essas drogas ilícitas – as que experimentei, achei sem graça nenhuma. Mas sei que o mundo está cheio de drogas lícitas (alcool, tabaco), tem gente morrendo pelo uso delas. E sei que tem muita gente brilhante e forte que usa drogas ilícitas.

Macchi não percebeu que a vida brilhante de Hoffman se deu simultaneamente ao uso de drogas (o ator americno não as usou apenas no momento de morrer). Não atribuo o brilho de Hoffman às drogas, se fosse assim qualquer um que usasse heroína seria grande ator. Lamento muito sua morte, ele era bom mesmo, impunha um clima de ator que a imensa maioria do cinema industrial (para não falar em televisão) ignora. Vale a pena lembrar que Hoffman não fez carreira apoiado na beleza padrão de cinema e tv – era gorducho e meio sem graça fisicamente.  Mas era um grande ator, podia interpretar um homem bonitão e convencer enquanto tal.

Seria o caso de lembrar que as vidas humanas, brilhantes ou medíocres,  são socialmente jogadas no lixo, que a condição humana é papo de otário mas não sei se Macchi acompanharia esse raciocínio.

Sobre Macchi, Orwell antecipou: Novilíngua.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Ednar Andrade 8 de fevereiro de 2014 10:49

    Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

    (Clarice Lispector).

  2. Marcos Silva 8 de fevereiro de 2014 9:01

    Lembrei de uma grande artista brasileira que morreu devido a overdose: Elis Regina. Era fraca?

  3. Marcos Silva 8 de fevereiro de 2014 8:59

    Pois é. Vi foto de Meryl Streep indo ao velório de Hoffman. Dá pra imaginar o que significa uma superstar como Meryl Streep homenageando um colega morto? Outro nível!

  4. Tácito Costa 8 de fevereiro de 2014 8:47

    Marcos, sempre tem gente perdendo a oportunidade de ouro de ficar calado. O tal do Macchi foi mais um. Mas nessa época de redes sociais as pessoas não se contém, querem porque querem falar alguma coisa, se mostrarem e muitas vezes acabam dizendo as maiores besteiras. Quase todo dia tem um sem noção destilando “sabedoria” nas redes.

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