Atravessando o deserto com Rimbaud

NA TRIBUNA DO NORTE

Estava há algum tempo procurando algo bom para ler que fugisse um pouco do trivial variado que infesta minhas pilhas de livros. Encontrei esse Rimbaud na África – Os Últimos Anos de Um Poeta no Exílio (1880-1891), de Charles Nicholl, Nova Fronteira, 496 páginas, R$ 22,00 (está esgotado nas livrarias, encontrei um exemplar bem maltratado pela umidade na Estante Virtual). Confira a sinopse: “Este livro traça um panorama de um período pouco abordado da vida de um dos maiores gênios literários da língua francesa – o poeta Arthur Rimbaud, pioneiro da poesia moderna e ídolo de ícones pop como Bob Dylan e Jim Morrison. O autor utiliza diferentes saberes – história, psicologia, literatura, antropologia – e um esmero narrativo que revela seu próprio talento literário, para traçar um perfil completo do poeta – da infância sem a presença do pai à morte precoce aos 37 anos.”

Estou atravessando uma fase de grande dificuldade para ler poesia. Só consigo ler alguns poucos grandes poetas, outros por obrigação profissional e o resto acabo achando um tédio só. Rimbaud é um desses poucos. Então foi com grande prazer que comecei a ler esse livro sobre Rimbaud e perceber o quanto de lenda foi criada em torno da vida deste homem, que revolucionou a poesia, mal saído da adolescência, e a abandonou em seguida para nunca mais voltar. A impressão que fica é que ele decidiu viver a poesia na pele e escrever deixou de ser necessário. Depois que ele vive um romance conturbado com o também poeta Verlaine, decide também abandonar o homossexualismo e passa a manter casos apenas com mulheres.

Tudo na vida desse ser humano é radical, intenso, nada tem meios termos. Depois de ter escrito poesia da mais alta qualidade e ter mantido um romance com outro homem, quase destruindo a vida do pobre, ele decide viajar. Tudo é motivo para uma viagem, sempre com muitas dificuldades e não sem algum perigo. Percorre boa parte da Europa e depois ruma para o Oriente e a África. É aí que ele vive seus últimos 11 anos de vida. Esse ser humano complexo é dotado de todos os defeitos que alguém possa ter e ao mesmo tempo dono de uma bondade intrínseca. Vemos um homem que viveu para as palavras se transformar num outro de poucas palavras, reservado, frio, calculista. Vemos seus sonhos de atingir metas prosaicas, como adquirir dinheiro e enviar para sua mãe e irmã. Vemos um funcionário comum de uma empresa de comércio cafeeiro atravessando o deserto em uma caravana. Vemos até um sujeito interessado em fotografia. Só não o vemos como o poeta que foi, o homem de vida literária, e talvez isso seja o que me fascina mais nessa figura emblemática do poeta maldito.

Percorrendo esse itinerário com Rimbaud eu me vejo cheio de admiração por essa pessoa. Um cara que teve a coragem de largar tudo e dar as costas para as vaidades tolas desse mundo literário, esse mundo de conversas pueris e fúteis encontros de salão. Viver a poesia é mais difícil que escrevê-la, vejo agora. Que preço alto tem que se pagar pelo sublime! Jean Arthur Rimbad pagou esse preço. Talvez poucos saibam, mas seu único livro publicado em vida foi bancado pela mãe dele. E ele se arrependeu tão imediatamente de ter permitido essa publicação que anos mais tarde um pesquisador encontrou uma pilha dessa primeira edição no armazém de uma gráfica.

Tudo em Rimbaud é marcado pelo desprezo pelas convenções, pela fama e pela vaidade. Tudo nele é legítimo, íntegro, trágico. Talvez daí venha sua grandeza. Tudo nele é fugidio, misterioso, inclassificável. Até a casa que as pessoas dizem ter sido sua morada na África, não é a verdadeira. O leitor que procurar um traço sequer do Rimbaud poeta nesse Rimbaud na África vai sair completamente decepcionado. É impressionante como alguém consegue apagar totalmente seu passado para recriar uma nova persona.

Uma coisa interessante nessa biografia, e que me chamou muito a atenção, foi saber que mesmo sem gostar mais de escrever, Rimbaud continuou gostando muito de ler. Periodicamente ele fazia pedidos de livros familiares e amigos, geralmente eram livros com algum ensinamento da vida prática que ele desejava aplicar imediatamente. Desconheço experiência mais maravilhosa do que a leitura para afugentar o tédio. Lendo essa biografia de Rimbaud sou transportado no espaço e no tempo, sem o mínimo esforço, além de passar as páginas do livro.

Acho que ele estava certo em trocar o ato de escrever pelo simples ato da leitura. Estou caminhando nessa direção. Quanto às pessoas que gostam de escrever poesia, acho que devem continuar fazendo isso. Não sou eu que vou dizer às pessoas o que elas devem ou não fazer. O que não agüento mais é ser exposto a tanta baboseira. Minhas leituras estão ficando cada vez mais restritivas e específicas. Por isso fico tão feliz quando leio um livro como este de Charles Nicholl.

Uma coisa que fica muito clara é que Rimbaud era um sujeito muito desagradável durante sua vivência de poeta em Paris. Fazia o tipo gênio rebelde que cuspia em todo mundo, uma espécie de punk fora de época. Depois que parte em viagem vira uma pessoa afável, educada e bastante tolerável, se levarmos em conta sua vestimenta, quase sempre de uma simplicidade que beira mendicância. Aqui e acolá vemos retornar os rompantes do selvagem urbano que ele foi durante algum tempo. Vez ou outra se mete em confusão, faz besteira e deixa aflorar seu passado. Ninguém foge de si mesmo de uma hora para outra.

Então o herói literário que perdura até os dias de hoje vira apenas um sujeito grosso comum. Mas na maioria das vezes é apenas um francês meio sujinho e educado, sem despertar a atenção de ninguém. Normalmente tomado por uma melancolia que só quem sente é que pode entender. Se vivesse nos dias de hoje, dificilmente Rimbaud alcançaria a notoriedade que lhe garantiu a permanência no imaginário moderno. A poesia perdeu seu status de poder renovador, revolucionário, aglutinador de forças transcendentais. A poesia hoje é um mero jogo de palavras, diversão para egos inflados e grupinhos de aficionados. “Ó que versos belos você escreveu, fulano…” Rimbaud detestaria ouvir uma merda dessas. Atravessando o deserto sobre seu cavalo, ele sentiu de perto o bafo da eternidade em seu rosto. Quando a doença chegou, primeiro uma sífilis e depois uma infecção na perna que não sarava nunca, fez com que ele olhasse a morte de frente. Não deve ter sido muito fácil para ele saber que tudo fora inútil. Ele não viveu o suficiente para viver ao lado das pessoas que amava e nem teria capacidade para isso.

Não gosto mais de ler poemas.

Comments

There are 6 comments for this article
  1. Jota Mombaça 9 de Maio de 2012 18:37

    não fossem os urubus a nos sobrevoar, Carlos de Souza, recostava minha cabeça turbulenta ni teu ombro selvagem e chorava o choro indócil doutro poeta em fuga.

  2. Marcos Silva 9 de Maio de 2012 23:52

    A correspondência africana de Rimbaud está incluída no volume de Correspondência publicado entre nós pela Topbook, com boa tradução de Ivo Barroso.

  3. Gustavo de Castro 12 de Maio de 2012 0:51

    Bom lembrar Carlão que ele, além de mandar buscar na Europa livros técnicos, também se afeiçoou à fotografia. Fez várias fotos, não foi? Rimbaud fotógrafo é algo de que sabemos pouco, mas descobrimos um pouco na biografia do Nicholl.

  4. Valdir DM 1 de Fevereiro de 2013 21:12

    Carlos:

    Muito bom texto.

    Entendo perfeitamento o seu ânimo (ou desânimo). Parece que no Brasil, nos últimos 100 anos, Poesia passou a ser, não uma atividade de poetas genuínos, mas uma espécie de atividade de gente inútil e problemática (geralmente filhinhos de papai ou de mamãe) que quer justificar a própria existência… posando de poetas. Aí, dá-lhe confrarias e irmandades e igrejinhas para alçar alguns destes inúteis-em-fuga-de-si-mesmos (“mais inúteis”, na terminologia de Orwell) a “gênios”. Mas quem gosta de Poesia e gosta de Guimarães Rosa, por exemplo, não engole esses Manoéis (os dois!), Cabrais e Drumundos da vida…

    Só agora estou “descobrindo” Rimbaud. O que li, gostei.

  5. Luiz Osório 2 de Fevereiro de 2013 8:53

    Vou dormir um ano em paz depois desse texto. “Ó que versos belos você escreveu, fulano…” Rimbaud detestaria ouvir uma merda dessas. 2013 começou a valer a pena.

  6. horácio oliveira 3 de Fevereiro de 2013 5:52

    Valeu, Carlão!

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