Atriz, do princípio ao fim

Foto de Guga Melgar

Por Robinson Borges | De São Paulo
NO VALOR ECONÔMICO

No bar de um hotel em São Paulo, o ambiente é tranquilo e o serviço, eficiente. Da música que se ouve em volume moderado à louça disposta nas mesas de madeira combinando com os quadros em tons de bege, tudo parece buscar a harmonia perfeita para não chamar a atenção dos hóspedes e suas múltiplas personalidades. Mas a voltagem dramática da atriz rompe a proposta. Olhos grandes, passos firmes, gestos largos. Não há como ignorar a entrada de Fernanda Montenegro. Vestida de terninho preto e camisa branca, seu estilo é despojado: maquiagem sóbria, cabelos recatadamente alinhados, rosto suave e sem muitas evidências de seus 82 anos completados no domingo.

“Você me desculpe pelo atraso”, diz, assim que se aproxima do repórter. A atriz é low-profile, mas carrega um brilho incotestável. Nos momentos iniciais deste “À Mesa com o Valor”, fica impaciente com os ruídos que atrapalham sua concentração, mas logo se revela uma antidiva sem afetação nem arrogância – apesar de demonstrar consciência do papel que muitos esperam que desempenhe: o de dama do teatro.

A vida de estrela, no entanto, dá pistas falsas. Nem sempre o glamour atribuído aos grandes artistas se faz presente. Enquanto os frequentadores das mesas do bar confraternizam num “happy hour”, Fernanda tem longa jornada noite adentro. Depois de tomar as duas xícaras de chá de hortelã neste encontro frugal no Lobby Bar do Hotel Meliá, terá outros compromissos profissionais até iniciar o ensaio da peça “Viver sem Tempos Mortos”, às 23 horas, que reestrearia em São Paulo no fim de semana. “Eu trabalho muito, sabe?”, diz a atriz, que frequentemente checa se está sendo suficientemente clara e conclui as frases com os verbos saber, entender ou compreender.

Apesar de o trabalho exigir demais de Fernanda, não há vestígios de esgotamento – artístico ou físico – em seus mais de 60 anos de carreira. O tempo exíguo é a justificativa para a pouca familiaridade com os títulos em cartaz no cinema e no teatro ultimamente. “Quando acaba um dia como hoje, estou morta, você entende?”, afirma. “E eu sou ‘cinemeira’. Sou de uma geração ‘cinemeira’. Vim para o teatro porque adoro cinema.”

Ainda no colégio e antes de iniciar a carreira como radioatriz e locutora na Rádio MEC, aos 15 anos, encantou-se com o talento de Charles Chaplin, Laurence Olivier, Bette Davis, Greta Garbo, Katharine Hepburn. Nostálgica, lembra-se de que em seu bairro havia três cinemas que exibiam dois filmes e mais um seriado. “É impressionante, a gente entrava na sala às 7 horas e saía à meia-noite”, conta, sem refrear a empolgação.

Hoje, no entanto, só há disponibilidade de tempo para seus novos projetos. Em breve começa a rodar “A Primeira Missa”, filme da cineasta Ana Carolina. Em seguida, viverá Bibiana Terra na versão cinematográfica de Jayme Monjardim para a saga “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, e atuará também em “As Bruxas”, produção dirigida por seu filho, Cláudio Torres. “Fazer cinema é um ato de coragem.”

No longa-metragem de Ana Carolina, Fernanda interpretará uma ministra da Cultura cuja missão será decidir sobre financiar ou não a produção de um filme em que será representada a primeira missa realizada em território brasileiro. Na vida real, Fernanda já foi convidada duas vezes para ocupar o mesmo papel – por José Sarney e Itamar Franco. Não aceitou por falta de vivência política para encarar o cargo.

Crítica da pouca ação do Ministério da Cultura, Fernanda já foi menos tolerante em relação à política de incentivo, especialmente via Lei Rouanet. “Aconteceu o seguinte: é assim. É assim. Então, que seja assim”, afirma. “Alguém deverá estar se realizando, entende? Você faz o teatro que pode fazer, os monólogos, os diálogos, de vez em quando alguém ousa fazer uma peça com cinco, seis personagens, que acaba naquela cidade porque é difícil viajar. Mas, segundo a ideologia e a política do governo, o dinheiro público está sendo dividido entre muitos mais. Não sei se esses muitos mais estão felizes”, prossegue, com uma cadência pausada e tom reflexivo, sinais de um raciocínio lógico e cauteloso.

– E qual é a sua avaliação da primeira presidente do Brasil?

– Ela é uma mulher íntegra. Sinto que quer fazer um bom governo. Sinto que quer tirar 16 milhões da extrema miséria, mas ela tem diante de si um quarto poder, que é a corrupção organizada suprapartidária e que sem pudor nenhum chega e diz: “Ou a bolsa ou a vida”. É o ser ou não ser de Hamlet, eis a questão, compreende? Que governo uma mulher íntegra pode fazer enfrentando bilhões sendo desvirtuados do orçamento de atendimento do país?

Não há dúvidas: a pergunta de Fernanda é feita no tom elevado da indignação. Mas há otimismo em relação ao papel da mulher no poder. “O segundo sexo, como diz a Simone, está chegando perto do absoluto.”

Simone é Simone de Beauvoir (1908-1986), autora do livro “O Segundo Sexo”, que Fernanda incorpora no monólogo “Viver sem Tempos Mortos”. A peça estreou há dois anos, teve carreira interrompida durante a gravação da novela “Passione” e agora ganha novo fôlego no Teatro Raul Cortez, em São Paulo.

No palco, uma minimalista Fernanda se transforma em Simone pela mágica da interpretação. Não há turbante, não há cigarros, não há trejeitos característicos da célebre filósofa. Há somente uma cadeira, um foco de luz e uma atriz, uma grande atriz, dirigida por um competente Felipe Hirsch.

Em 60 minutos, Fernanda narra a vida da escritora francesa, referência básica para o feminismo do século XX. É uma encenação sensibilizada sobre a emancipação da mulher, o amor livre e, sobretudo, o seu intenso convívio intelectual e amoroso com o também filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980).

Nos momentos mais comoventes da peça, Simone – ou Fernanda – expõe a dor da morte de seu parceiro, uma associação quase imediata com a trajetória da própria atriz, que perdeu o marido, Fernando Torres (1927-2008), após mais de cinco décadas de casamento e depois de lutar anos contra uma doença que o levou à depressão.

– Há um subtexto intencional na peça sobre sua relação com Fernando Torres?

-Não posso dizer que falei disso para falar de mim. Não pensei nesse espetáculo. Quem pensou foi o Sérgio Britto, que não pôde fazer. Mas, se você viveu longos anos com uma pessoa, e essa pessoa passa longos anos doente, e se luta pela vida, e se esconde o pior da pessoa na doença, se protege a pessoa, acho que isso é uma história comum, não tem nada de especial. Só que Simone escreveu isso de uma maneira extraordinariamente viva, corajosamente real, e por ser tão real e tão cruel ao descrever a finitude do ser humano é tão tocante. Mas nunca parti disso para o espetáculo, até por pudor. Não é uma dor igual, é naquela zona de identificação. É aquilo que o próprio texto dela diz, “o acaso tem sempre a última palavra”. Estou vivendo o acaso com a sua última palavra.

Fernanda e Fernando começaram a namorar em 1950, durante a montagem de “Alegres Canções nas Montanhas”, no Rio. Era a estreia profissional da atriz, que contracenava com o seu futuro marido, um estudante de medicina fortemente vocacionado para o teatro. Um ano depois, Fernanda tornou-se conhecida nacionalmente ao ser a primeira atriz contratada da TV Tupi, onde participou de centenas de teleteatros, experiência bem-sucedida nos primórdios da TV. “Levamos muito a sério um trabalho de trazer para o espectador da televisão o que havia de melhor na literatura dramática e na literatura, sabe?”

Fernanda e Fernando casaram-se em 1953. O vestido de noiva era um presente da atriz Eva Todor. A união rendeu dois filhos – Cláudio e a atriz Fernanda Torres -, uma companhia teatral – a Companhia dos Sete – e inúmeros espetáculos, nos quais Fernando quase sempre era um parceiro, seja como diretor, ator ou produtor.

– Você teve uma visibilidade muito maior do que o seu marido. Foi difícil ser a grande estrela, do ponto de vista da relação familiar?

– Nunca percebi no Fernando nenhuma angústia de competição. Não sei se ele demonstrou para alguém, não sei se ele demonstrou para seus analistas. Tenho a impressão de que sou uma mulher de palco e ele sempre foi um homem de teatro. Como um ser de teatro, ele estava em todos os espaços do teatro. Ele se comovia quando eu acertava, me dava a mão para eu acertar, ele se orgulhava de eu acertar, e sem ele eu não teria feito nada. Foi nessa junção de vocação, também de renúncias, que a nossa vida se fez… E toda vez que Fernando foi para a cena, foi um extraordinário ator. Quem viu sabe a dimensão de ator que o Fernando foi, se eu sou alguma coisa, tão ou maior do que eu. Mas com mais generosidade do que eu.

Ao falar do companheiro, os olhos de Fernanda ganham brilho superlativo, a voz se inflama, as feições se adensam. A atriz se emociona. As conversas em espanhol e alemão nas mesas laterais quase cessam e, timidamente, alguns hóspedes passam a observar o depoimento da atriz, provavelmente sem entender as palavras, mas compreendendo as intenções. Naquele instante, o real e o teatral parecem ser um ato único, a expressão de um estado de delicadeza e sensibilidade. A conexão com a Simone do palco é direta.

Mais uma xícara de chá de hortelã cai bem.

Os laços fortes com a arte permaneceram na família. A filha, premiada como melhor atriz em Cannes por “Eu Sei Que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor, é casada com o cineasta Andrucha Waddington, com quem tem dois filhos: Joaquim, 11 anos, e Antônio, 3. Cláudio, sócio de Andrucha na produtora Conspiração, é pai de Davi, 9, e casado com a atriz Maria Luísa Mendonça. “Temos uma comunicação diária por telefone, às vezes duas ou três vezes, onde estivermos.”

A proximidade com os filhos surgiu de uma liberdade incomum, sem os tradicionais almoços de domingo. “Criei meus filhos, juro por Deus, sem obrigação de Natal, sem obrigação de religião, sem obrigação de Dia das Mães, Dia dos Pais. Mas a verdade é que a força cultural que está em volta é tão grande que fico feliz de ter um Natal com eles, fico feliz de ter Ano Bom com eles, fico feliz quando eles se lembram do Dia das Mães. A gente vai vivendo e essas celebrações ficam necessárias. Isentas de presentes…”

Em “As Bruxas”, filme com referências da série “A Feiticeira”, a família estará reunida. Fernanda Torres, Maria Luísa e Fernanda Montenegro estarão sob a direção de Cláudio Torres. A matriarca será a “bruxa-sogra”.

As filmagens devem começar no fim de 2012. Até o fim deste ano, Fernanda, moradora de Ipanema, faz temporada paulistana. São Paulo, que deu a ela “o melhor da vida”, ocupa espaço privilegiado em suas reminiscências. Com o marido, viveu aqui cerca de 12 anos intercalados na década de 50. “Éramos muito jovens, recém-casados e era um período efervescente como nunca mais foi.”

Na capital, o casal conheceu Sérgio Britto, Gianni Ratto (1916-2005), Manoel Carlos e Ítalo Rossi (1931-2011). Fizeram muito teatro e TV e formaram a Turma da Biblioteca, uma referência à Biblioteca Mário de Andrade, onde arquitetavam a reforma do mundo. Caminhavam rumo ao slogan libertário “Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves”, criado nos anos 60 e título de sua peça.

Hoje, os lampejos criativos não estão mais na área de humanidades, lamenta Fernanda. O espírito dos nossos tempos está sendo transformado pela revolução da ciência e da tecnologia. “Sou antimáquina. Tenho quem faça e-mail pra mim. Ainda não tenho tempo e espírito de me dedicar à informática. Escrevo à mão, porque o meu braço vai no meu processo… Sou do tempo das humanidades, está entendendo? Mas a ciência e a tecnologia são mais transformadoras, mais importantes, mais ricas e até mais assustadoras no apelo que representam hoje.”

– No espetáculo, você diz que “o homem é uma realidade finita que existe por sua conta e risco”. Como é a sua relação com a religiosidade?

– A fé é uma graça. Santo Agostinho diz que, se você duvida, tem fé. Sempre que duvido, eu me lembro da fala dele: bem, estou duvidando, estou num estado de fé. O existencialismo de Simone e de Sartre tem essa conceituação de que o homem é responsável pelos seus atos. O homem é o que ele quer ser. Claro que tem as contingências e, além das contingências, o acaso. Segundo as frases do existencialismo que digo no espetáculo, vem uma angústia, e essa angústia é a liberdade. É uma filosofia que está esquecida, não está mais na ordem do dia como foi logo depois da Segunda Guerra, num mundo onde se matou como nunca. Diante daquela hecatombe, trouxeram o pensamento existencialista do século XIX para dizer que o homem é responsável por essa matança. Se Deus existisse, não se chegaria a isso…

Talvez, o templo de Fernanda seja o tablado e os deuses do teatro, seus verdadeiros guias. Embora tenha obtido um extraordinário reconhecimento no cinema e fama na TV, é o palco, reconhece a atriz, que dá a ela a senha para a construção de seus personagens. “Faço sempre teatro”, afirma. “O que sei fazer é algo que aprendi no palco. Claro que no cinema e na TV você não precisa projetar tanto, mas o método de trabalho, como chegar lá, é um método que aprendi de forma autodidata no palco.”

São muitas as glórias no palco: “O Homem do Princípio ao Fim”, “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, “Fedra”, “Dona Doida”. Ao todo são 25 espetáculos. No cinema, Fernanda estreou nos anos 60 na adaptação de Leon Hirszman (1937-1987) para “A Falecida”, obra de Nelson Rodrigues (1912-1980). Nos anos 80, voltou a trabalhar com Hirszman em “Eles Não Usam Black-Tie”, baseado numa peça de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), seu colega no set. O filme levou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza. Mas o grande momento nas telas viria com sua Dora, em “Central do Brasil”, de Walter Salles, que lhe rendeu o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Cinema de Berlim e lhe garantiu uma indicação para o Oscar, em 1999.

A maratona de promoção do filme nos Estados Unidos virou a vida de Fernanda pelo avesso. “O grande susto foi ver como cinema é uma indústria pesada para eles. O cinema não é só diversão ou expressão da sétima arte. É isso, mas antes é um processo de invasão cultural extremamente poderoso e cuidado pelo governo. Eu sou uma ingênua, vou vivendo e vou tirando uma conclusão. Mas o cinema nos EUA é uma questão de segurança nacional.”

No Brasil, é a televisão que ocupa o pedestal na indústria do entretenimento. O veículo, que permitiu a ela criar personagens inesquecíveis, como a Charlô, de “Guerra dos Sexos”, é bem-visto por Fernanda. “Acho que se deve usar a televisão para divulgar uma dramaturgia, para divulgar uma personalidade de atuação. A gente tem uma maneira de representar, a gente tem uma língua pela qual a gente se expressa. É melhor ter uma televisão às vezes não tão boa do que ter um monte de filmes importados, mesmo dublados, que não dizem nada, compreende?”, observa. “Porcaria por porcaria, é melhor fazer a nossa porcaria, e extraordinários trabalhos por extraordinários trabalhos, é melhor que a gente se junte aos bons costumes, está entendendo?

Na TV, no cinema ou no teatro, o trabalho é intenso, mas a mulher que nasceu no subúrbio carioca de Campinho, filha de um mecânico da Light e de uma dona de casa, rejeita artifícios fáceis, como a comparação com a profissão do pai. “A palavra operária da arte fica uma coisa demagógica, sabe?”, comenta. “Uma coisa é você ser um operário mesmo e uma coisa é você fazer um trabalho que, no fundo, resulta em luzes sobre você, onde você se exibe, com todos os perigos que isso também traz, de sucesso ou de fracasso. Eu gosto mais da palavra ofício.”

A entrevista está perto do fim. Já passam das 20 horas e Fernanda tem uma agenda a cumprir. Ficamos apenas no chá de hortelã – “como menos porque a idade já não permite, mas como com imenso prazer”.

Bem-disposta, Fernanda parece desafiar o tempo, mágica essencial para o teatro, a arte do efêmero. “Quando a gente vem para essa profissão, não tem posteridade. É a função do teatro: agora, só para quem viu e guarda na memória. Quando essa pessoa se vai, fica o cronista, que põe aquilo por meio de uma crítica, ou o que esse ator possa ter dito de si nas entrevistas. Não adianta: o resto não fica.”

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