Auden, Adélia, Manoel

Por José Castello
O GLOBO

Complexas, e por isso mesmo tensas, costumam ser as relações entre a literatura e o saber. Penso, sobretudo, no saber organizado. No saber dos grandes sistemas. A crítica acadêmica, cheia de normas e rigores, se contrapõe à leveza e à liberdade que definem a crítica dita “impressionista”. As teses e dissertações, pesadas e austeras, defrontam a elegância e as sutilezas do ensaio literário livre. Pensar com rigor, ou livre pensar? Os dois caminhos guardam suas vantagens, mas também seus riscos. A adesão a um ou a outro é uma escolha pessoal. Costuma ser, também, o resultado de uma formação.

Um poema do inglês W. H. Auden (1907-1973) me ajuda a pensar essa cisão entre saber e sentimento. Chama-se “Oxford” e eu o encontro em “W. H. Auden (poemas)”, livro organizado para a Companhia das Letras por João Moura Jr., com a tradução de José Paulo Paes. Já os dois primeiros versos são incisivos e decisivos: “A natureza invade: velhas gralhas calvas, como bebês ágeis,/ Ainda falam, em cada jardim acadêmico, a linguagem dos sentimentos”. A expressão direta dos sentimentos é o que mais ameaça. Ela desafia a força das muralhas que sustentam o saber racional.

Penso, ato contínuo, em poetas, grandes poetas, como Adélia Prado e Manoel de Barros, que escrevem com os nervos e o coração, e que _ talvez por isso _ tanto desprezo costumam sofrer nos meios eruditos mais ortodoxos. Eles são as “velhas gralhas” de que nos fala Auden, sempre a sobrevoar a solenidade do saber para desafiá-lo com a interposição desagradável (e desordenadora) da sensibilidade. São as vozes dissonantes que confirmam as regras. Que as alimentam e as relativizam. Que desafiam as torres do saber, “inteiramente/ satisfeitas com seu peso, ainda”.

Os afetos _ cogitam os mais rígidos avaliadores _ costumam perturbar o entendimento. As afeições _ eles continuam a ruminar _ são perigosas porque desvirtuam a consciência. Prossegue Auden: “Junto às torres, um rio costeiro ainda corre e há de continuar correndo”. A permanência dos sentimentos, em sua correnteza imperturbável, desafia a serenidade do saber. Pelos corredores de Oxford, os estudantes desfilam com sua “beleza ruidosa”. Há uma voz do coração “que não dorme até encontrar alguém que a ouça”. Há uma luta contínua entre a norma, que deseja delimitar para se impor, e a beleza _ que é desordem e caos _ que a rompe e a provoca.

Não digo, evidentemente, que todo ensaio literário tenha qualidade. Nem que toda tese acadêmica seja, em si, má. Seria um preconceito absurdo. Mas o poema de Auden me leva a pensar no quanto, entre os corredores do saber organizado, um sentimento vago _ e intenso _ insiste em escorrer e em contradizer. Em como os poetas o representam. E no modo como esse sentimento _ de calor, de impulso, de instabilidade _ ameaça. Esse sentimento mina as paredes que sustentam a razão. Ele relativiza o rigor do saber.

Poetas como Adélia e Manoel _ só consigo pensar nos dois, pelo injusto desprezo que ainda hoje os cerca _ alimentam, com sua fluidez, um mundo que se enrijece. O coração duro do saber necessita da fluência das emoções para se relativizar e se humanizar. Não se trata de “tomar posição”. Tampouco de discriminar e de excluir. Por isso os sentimentos devem ser afirmados. Auden nos mostra, assim, os dois lados que compõem a sabedoria, que não devem ser excluídos, nem um, nem outro, sob pena de tudo se perder. Volta-me, por fim, a advertência de Antero de Quental: “Lembremo-nos que a literatura, porque se dirige ao coração e à inteligência, à imaginação e até aos sentidos, toma o homem por todos os lados”.

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