Augusto de Campos fala sobre o revolucionário legado de Pagu, ‘musa-mártir do Modernismo’

Por Guilherme Freitas
O GLOBO

Coletânea de textos de Patrícia Galvão, organizada pelo poeta e esgotada há décadas, ganha nova edição

Patricia Galvão (1910-1962) foi a “luminosa agente subversiva de nossa modernidade”, diz o poeta Augusto de Campos na abertura da nova edição de “Pagu: vida-obra” (Companhia das Letras). Mescla de antologia e perfil biográfico, o livro ajudou a resgatar essa figura singular da literatura brasileira quando foi publicado, em 1982, pela Brasiliense. Na época, diz Campos, a escritora paulista era uma “estrela menor do anedotário modernista”, lembrada mais pela beleza provocante e por ter motivado a separação de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade (com quem Pagu se casou e teve um filho em 1930). No livro, Campos reuniu fragmentos dos principais textos de Pagu: “Parque Industrial” (1933), considerado o primeiro “romance proletário” do Brasil; suas colaborações para o jornal “O homem do povo” (1931); o diário a quatro mãos que manteve com Oswald entre 1929 e 1931; a mescla de versos e desenhos de “O Álbum de Pagu” (1929); além de traduções pioneiras de autores que ela ajudou a introduzir no país, como James Joyce e Artaud.

Essa colagem compõe o retrato de uma artista engajada, militante de esquerda presa diversas vezes, torturada na cadeia, mas abandonada pelo Partido Comunista, que a obrigou a assinar uma retratação em que se apresentava como “agitadora individual, sensacionalista e inexperiente”. Fora de catálogo há décadas, o livro ganha agora versão ampliada, com mais textos da autora, um ensaio e uma entrevista de Campos. O poeta falou por e-mail ao GLOBO sobre a postura revolucionária de Pagu dentro do movimento modernista, suas críticas à Geração de 45 e a Mário de Andrade, e o impacto que a atividade política e as prisões tiveram sobre vida e obra da autora que já foi definida como “musa-mártir do Modernismo”: “O que mais importa é a lucidez de suas intervenções, o exemplo ético e estético de sua presença”, diz Campos.

Desde a primeira edição de “Pagu: vida-obra”, quais foram as maiores mudanças na recepção da obra de Pagu no Brasil? Como ela é vista hoje pela crítica e pelos leitores?

Até a publicação de “Pagu: vida-obra”, em 1982, precedida pelos textos que divulguei nas revistas de vanguarda dos anos 70, “Código” e “Através”, Patrícia Galvão, Pagu, era evocada apenas como uma figura vagamente ligada ao anedotário do Modernismo, uma jovem escandalosa, que acabara com o casamento de Oswald de Andrade e Tarsila. Os meus estudos, secundados pelas colaborações de ensaístas como Antonio Risério e pesquisadores como Erthos Albino de Souza e José Luis Garaldi, evidenciaram a importância cultural de sua personalidade literária e artística. Não tivemos qualquer apoio institucional para as pesquisas, que levaram cerca de oito anos. Tive a oportunidade de entrevistar a maioria dos principais contemporâneos e familiares de Patrícia, que ainda viviam nos anos 70 e 80. O livro teve três edições, na época áurea da Brasiliense, e enorme repercussão, gerando uma série de outros livros que nele se basearam, inclusive dois curtas e um longa-metragem. As universidades paulistas, sob a influência de Antonio Candido e seu patrono Mário de Andrade, a ignoraram, certamente porque Pagu, crítica implacável do conservadorismo, em uma memorável comunicação ao Congresso de Poesia de 1948, em São Paulo, com Oswald ainda vivo, repudiou a geração de 45 e acusou Mário de Andrade de “traição” à causa modernista, devido ao seu demissionário “Elegia de Abril”, texto de abertura da revista “Clima” (1941), de Candido e dos que Oswald chamava de “chato-boys”, “funcionários tristes da sociologia”. Texto esse que inspirou o longo climatério que fez com que “o corpo docente” acadêmico só engolisse Oswald quando a antropofagia “tinha virado carne de vaca” (Décio Pignatari) e nunca entendesse a poesia concreta. Sabotaram Pagu, como sabotaram a redescoberta de Sousândrade, por ter sido obra dos poetas concretos, hostilizados por meio século pelas universidades paulistas. Entretanto, Patrícia entusiasmou um brilhante brasilianista da Universidade de Yale, Kenneth David Jackson, responsável pela tradução do romance “Parque Industrial” para o inglês, e autor de vários estudos e pesquisas sobre Patrícia. Há também uma tradução para o francês, de “Pagu: vida-obra”, em preparo. Nos meios acadêmicos mais importantes do país Patrícia é ainda praticamente ignorada.

Por que falar em “vida-obra” de Pagu?

Porque a obra de Patrícia está profundamente ligada à sua vida, e não é propriamente feita de obras-primas, mas de obras-fragmentos, embora numerosas, dispersas em grande parte em periódicos, alguns de pequena circulação. Sua atuação revolucionária, tanto por suas intervenções políticas quanto literárias, a marginalizou, e sua obra foi profundamente afetada pelas prisões e perseguições que sofreu. O trauma do longo encarceramento interrompeu e dispersou o seu trabalho, que, no seu caso particular, só pode ser bem compreendido se visto a partir de sua vida tumultuada. Por isso mesmo o meu livro é também uma antibiografia, uma “colcha de retalhos”, que deixa propositadamente para o final o roteiro completo dos principais fatos da vida de Patrícia, usando de uma estratégia de montagens e colagens que, de certa forma, estabelecem um confronto entre vida e obra, mas põem ênfase na sua atividade intelectual. Bonita e fotogênica, inevitavelmente carismática por sua aparência, Pagu teve também aura de “musa”, “anúncio luminoso da Antropofagia”, como foi descrita, e não descuro desse inevitável detalhe de sua personalidade, embora pretenda, com a exibição de uma antologia de suas intervenções artístico-literárias mais relevantes, antes desmusificá-la e desmuseizá-la.

Em um dos textos da introdução, você diz que Pagu talvez tenha sido a “primeira mulher nova do Brasil”. Por quê?

Por todo o seu passado revolucionário. Na história do Modernismo foi certamente precedida por Anita Malfatti e por Tarsila, de quem era discípula. Era muito mais nova do que elas — tinha 18 anos quando estreou na “Revista da Antropofagia”, em sua fase mais radical — a “segunda dentição”, em 1929. Mas nem Anita nem Tarsila eram escritoras, nenhuma assumiu até o fim ideias tão radicais e renovadoras, nenhuma correu os riscos e sofreu o que sofreu por elas, nenhuma defendeu com tanto ardor a arte de vanguarda, nenhuma se pode comparar, em termos de atuação ética e estética, com ela. De um modo ou de outro, todas acabaram cedendo, menos ela.

Como você definiria a postura de Pagu em relação à Antropofagia e ao Modernismo? E quais eram as críticas dela à Geração de 45 e à postura tardia de Mário de Andrade?

Na comunicação que assinou em 1948 com Geraldo Ferraz, Patrícia retrata Oswald de Andrade “de facho em riste, como Trótski, em solilóquio com a revolução permanente”. De fato, Oswald era o último moicano da renovação artística do Modernismo. O “mea culpa” de Mário, com sua desistência, encorajava os “homens da sociografia”, como os chamava Oswald, a tomar em mãos as rédeas da literatura moderna brasileira. Quanto à Geração de 45, que, apoiada pelos “chato-boys”, voltava a padrões conservadores e antimodernistas, basta citar a frase final da comunicação, que rejeita as pretensões dos organizadores do Congresso: “Só uma nova revolução artística pode substituir na história e na evolução da nossa sensibilidade e da nossa inteligência a revolução de 1922.” O futuro mostrou o quanto ela estava certa. Foi a última resistente “antropófaga”.

Qual é o lugar, no panorama da literatura brasileira, da orientação proletária da obra de Pagu, como no romance “Parque Industrial” e no jornal “O homem do povo”?

“Parque Industrial”, conhecido como o primeiro “romance proletário” brasileiro, não é um livro perfeito. Sofre de um maniqueísmo redutor na estruturação dos seus personagens. Mas, influenciado por Oswald, guarda ainda uma relação íntima com a linguagem sintética e a metafórica, de choque, do Modernismo. Difere, portanto, e muito do “romance nordestino” que logo se iria propagar. E tem belos achados: “Brás do Brasil, Brás de todo o mundo.” É uma peça única, e que tem com o romance modernista uma relação análoga à que tem “O homem do povo” com a “Revista da Antropofagia” — duas publicações, mais próximas entre si, pela ousadia de suas sátiras ao establishment, nas quais Patrícia revelou toda a sua verve de panfletária.

Que impacto tiveram as prisões na “vida-obra” de Pagu?

Graciliano Ramos, a quem tanto se enaltece pelas suas “Memórias do cárcere”, não ficou preso mais do que 10 meses. Patrícia ficou encarcerada quatro anos e meio. Não foi só humilhada. Foi maltratada e torturada. Entregue à própria sorte pelo Partido Comunista, foi expulsa do Partidão como trotskista e “degenerada sexual” , como o revelaram as pesquisas de David Jackson, e, segundo o biógrafo de Carlos Marighella, por iniciativa deste. Saiu da prisão completamente transtornada e chegou a tentar o suicídio, passando a viver com uma bala na cabeça. Voltou a tentar o suicídio pouco antes de morrer de câncer aos 61 anos. Claro que afetaram a sua produção. Não foi por outro motivo que Décio Pignatari a chamou de “musa-mártir do Modernismo”.

Você nota que Pagu foi a primeira no Brasil a traduzir fragmentos de “Ulisses” e a falar sobre Artaud, por exemplo. Qual é o alcance da atividade dela como tradutora? E o que se pode depreender sobre a obra dela a partir dos autores estrangeiros pelos quais se interessava?

Ela exerceu, nas colunas literárias dos suplementos do “Diário de São Paulo”, da “Tribuna de Santos” e de outros periódicos menos conhecidos, um papel semelhante ao que teve Mário Faustino, na sua página Poesia Experiência, do “Suplemento Literário do Jornal do Brasil”, na metade final dos anos 50. Como as de Faustino, suas traduções, feitas semanalmente, não eram muito elaboradas, mas se voltavam especialmente para a divulgação de autores desconhecidos, como Joyce, Apollinaire, Artaud, e textos então ignorados como o de Valéry sobre “O lance de dados” de Mallarmé. Com a mesma ousadia, criticava o oportunismo e a vulgaridade de celebridades como Jorge Amado e até as concessões de Oswald, reivindicando dele o vanguardismo de “Serafim Ponte Grande”. Foi uma atuação muito significativa e que, ainda hoje, é uma lição para os atuais cronistas literários, geralmente alinhados com a produção mais conservadora e acadêmica do país.

Qual foi a importância de Pagu para o seu trabalho e para a poesia concreta em geral?

A minha relação com Patrícia Galvão começou, casualmente, por sincronicidade junguiana, quando li um poema que ela publicou, sob o pseudônimo de Solange Sohl, em 1948, com uma falsa biografia. Respondi, à maneira dos trovadores provençais, “sem a ver”, com um poema que dialogava com o dela. Só em 1962, depois de seu falecimento, quando seu marido, o crítico Geraldo Ferraz, pouco simpático aos “concretistas”, viu, também por acaso, o poema republicado na nossa revista-livro “Noigandres”, é que tomei conhecimento da verdadeira autora do poema, por ele revelada em dois artigos cheios de emoção. Ficamos amigos. A revelação foi o estopim do meu interesse por saber mais da desconhecida autora. Como disse Pound: “Out of this beauty, something must come.” Por trás dessa beleza, alguma coisa deveria haver. À medida que o resultado das pesquisas foi-me entusiasmando, e principalmente a partir da descoberta do espantoso “Álbum de Pagu” por José Luis Garaldi, percebi que me encontrava diante de mais um autor não-canônico, como os que haveríamos de identificar em Gregório de Mattos, Sousândrade e Kilkerry. Se não tivesse prevalecido em minha cabeça o título “Vida-obra”, o meu livro poderia chamar-se “Re-Visão de Pagu”, dentro do projeto da poesia concreta de rever criticamente a história oficial da literatura brasileira e que deu as “Re-Visões“ de Sousândrade e Kilkerry. Mas, salvo o caso específico do meu poema “O sol por natural”, anterior à poesia concreta, ela não influiu em nossa poesia. O que mais importa é a lucidez de suas intervenções, a coerência e a afinidade de muitas ideias, e o exemplo ético e estético de sua presença — “Militante do Ideal”, como a chamou Geraldo Ferraz.

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