Aulas presenciais…Risco necessário?

Aulas presenciais no cenário atual, no mínimo, são preocupantes. Contudo, antes de responder à questão acima, é preciso que levemos em conta fatores presentes no atual cenário do Brasil e do mundo.

Tenho ouvido de especialistas que o mais importante é não ser contaminado. Medidas preventivas, portanto. Ninguém sabe ao certo como o organismo das pessoas reagirá ao vírus. Em muitos casos, pessoas que a gente esperava que seriam resistentes – como atletas, por exemplo – vêm tendo dificuldades de se recuperar depois de infectados, sendo que muitos não resistem.

A medicina não consegue, ainda, explicar o comportamento do Coronavírus no organismo humano. Antes, dizia-se que as crianças eram imunes. O Reino Unido, depois do surgimento de novas variantes, vem alertando de que crianças podem, sim, ser infectadas. Houve aumento de casos por lá e, infelizmente, aqui no Brasil também.

Em nosso país a situação da pandemia adquire contornos mais graves, pois temos um governo federal irresponsável. Criminoso até. Se o Brasil tivesse aderido à Aliança Mundial de Vacinas – COVAX em abril de 2020, o panorama nosso hoje seria bem diferente. O país teria sido um dos cinco primeiros a começar a vacinação. Mas não. O mesmo (des)governo genocida recusou também, desde agosto de 2020, 70 milhões de doses da vacina Pfizer. E, depois, haja campanha contra a vacina, divulgação de absurdos sobre chips a serem implantados nas pessoas via vacina, que havia risco de mutações genéticas e outros que tais. Nunca se viu tanto negacionismo da ciência como no Brasil de hoje, enfermo de si mesmo e de um vírus político que o corrói nas entranhas.

Finalmente, e talvez já de olho na campanha para 2022, chegou a vacina ao país. Ao todo, 12,7 milhões de doses, sendo 10,7 milhões da CoronaVac e 2,0 milhões da chamada “Oxford”. Assim, iniciou-se um processo lento e que não deu conta de vacinar ainda nem de 3% de sua população.  Até o momento da redação deste texto, apenas 2,55% da população brasileira havia sido vacinada, sendo que apenas 0,32% da população já havia recebido a dose completa da vacina. Imagine o tamanho do estrago que o vírus, enquanto isso,  continua fazendo dentro de um universo de 212 milhões de pessoas, com apenas 5,4 milhões de vacinados.

E, para piorar, há relatos da área da saúde constatando a presença, no Brasil,  de duas das novas variantes do vírus, batizadas de P.1 e P.2. que se transmitem de forma mais rápida e mais infecciosa que a versão original do vírus original da China. Isso caracteriza uma nova pandemia dominante no mundo – em vários países além do Brasil. Há um fator atenuante de que, apesar da propagação mais rápida, tudo indica que o organismo humano vem lidando bem – e às vezes até melhor – com o novo vírus, conforme estudos clínicos realizados pela Universidade de Sheffield, Estados Unidos.

Os estudiosos do SARS-CoV-2 são unânimes em afirmar que o momento vivido pede que se intensifiquem campanhas junto à população sobre os benefícios da vacina e continuem alertando sobre os cuidados básicos de usar máscaras, higienização das mãos e manter o distanciamento social.

Esse tripé, inclusive, vem sendo repetido à exaustão pelo médico intensivista do Hospital de Maringá/PR, Dr. Francismar Prestes Leal, ele mesmo infectado por estar na linha de frente do combate à pandemia. Felizmente, já recuperado. Afirma o referido profissional, na postagem na sua linha do tempo do dia 22/02/2021, no facebook: “Momento de piora da pandemia, associado ao surgimento de variantes do novo coronavírus, ao relaxamento das medidas de prevenção ou proteção, à demora na vacinação, à possibilidade de reinfecção e, principalmente, à escassez de recursos de saúde, especialmente vagas de UTI. Exaustos, resta aos profissionais da saúde, mormente os da linha de frente, além de trabalhar como Hércules (bem mais do que doze trabalhos), informar a realidade, numa tentativa desesperada de salvar vidas, já que pode não haver socorro decente para todos.” 

Imagino que existam centenas de depoimentos dramáticos como esse pelo nosso país afora. Com relatos de muitas baixas entre profissionais da saúde das linhas de frente. Isso nos leva a pensar sobre a necessidade de todos os entes federados, estados e municípios juntarem-se num esforço coletivo de esclarecimentos à população. Principalmente porque o processo de vacinação está lento e aquém das necessidades. Há uma previsão de contratos para entrega de 300 milhões de doses de vacina ao longo de 2021 com a Oxford/AstraZeneca e Sinovac/Butantan. Mas isso ainda será insuficiente para garantir a administração de duas doses para toda a população acima de 18 anos.

Sabe-se que os profissionais da educação ainda não foram imunizados. E existe um longo chão até a primeira dose da vacina lhes chegar. Quanto mais a segunda dose. Estarão professores e professoras sentindo-se seguros para receberem as crianças em salas de aula?

Entende-se que não é fácil para pais e mães de alunos adaptarem-se ao ensino remoto. E que vem sendo difícil para os professores e professoras lidarem com essa nova modalidade de ensino.

Volto a repetir o que se diz pelo mundo inteiro: nova pandemia está aí, com padrões mais velozes de transmissibilidade do vírus nas várias faixas etárias, incluindo crianças. Continua sendo aconselhado, por todos – com mais ênfase no Brasil – de que precisamos seguir os protocolos básicos de segurança: uso de máscaras, higienização das mãos e manutenção do distanciamento social. Medidas de sobrevivência, precauções em defesa da vida.

Ainda é necessário que nos revistamos de paciência, perseverança e atenção máxima com a saúde de todos. E que lutemos, como pudermos, para que a maior parte da população brasileira seja vacinada. Para que o país deixe de contabilizar acima de mil mortes por dia, há mais de um mês.

Por tudo isso, temos que colocar na balança a decisão de retorno às aulas presenciais, se isto poderá e/ou deverá ser feito, agora. Assumir esse risco vale a pena? Reflitamos.

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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