Auta de Souza: a indelével mediocridade

Por Márcio de Lima Dantas
Professor de Literatura Portuguesa da UFRN

Et commeilsavouraitsurtout les sombres choses,
Quand, dans la chambre nue aux persiennes closes
Artur Rimbaud
Mas perdi-me ao seguir a criançada
Bruno Tolentino

 

1. Prelúdio: andante

Também não gosto.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo, a gente acaba[descobrindo
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.
Marianne Moore

Até parece que a poeta americana escreveu este poema pensando na poetanorteriorandenseAuta de Sousa (12.09.1876 – 07.02.1901). Poucos são os que a leram com atenção, porém vasto o número dos que apreciam a poesia do seu único livro publicado em vida: Horto. No âmbito da nossa crítica universitária, é unânime o desprezo pela obra da poeta, embora no entourage dos meios indigitados oficiais o nome dela seja citado como uma das potentes vozes da lírica do estado. Contudo, um olhar mais acurado sobre o conjunto da sua obra talvez revelasse coisas para além dos clichés, sem muita reflexão, que lhe são atribuídos. Tanto nos que a desprezam, quanto nos que a exaltam como uma grande poeta.

Para começo de conversa, vou logo avisando que não adianta querer procurar originalidade ou rupturas na obra de Auta de Sousa. Nada avançou ou contribuiu às poéticas a que estava fragilmente atrelada. Não vai encontrar. Também não é por isso que não devamos lê-la ou estudá-la. Numa literatura pobre como a nossa, originada numa região periférica com relação ao eixo cultural São Paulo-Rio de Janeiro, faz-se necessário um relativismo metodológico alargador do abraço que contempla autores e obras para compor o nosso cânon literário. Quer dizer, autores não detentores de grandes qualidades estéticas ou inovadoras no seu tempo de produção, autores que muitas vezes não passaram de uma simples presença da noção de literatura num meio provinciano e distante de outras informações. O melhor exemplo é o poeta Jorge Fernandes que, embora se inscreva como aquele que cingiu nas nossas letras a modernidade, se quisermos seriedade ante o ato crítico, não podemos deixar de considerá-lo como um poeta de pouco fôlego lírico, malgrado seu valor histórico. Ora, é justamente aí onde eu gostaria de configurar um vetor formado não como um monólito, mas como um feixe de diversos matizes no qual pudesse congregar toda uma sorte de autores, historiadores, poetas de cidades do interior, etc, que, apesar das adversidades intentam produzir algo para si e para o seu meio, muitas vezes retirando do seu próprio bolso o orçamento para a impressão de um livro. Vejamos o que diz o crítico Antonio Cândido ao tratar da formação da literatura nacional, inclusive já citado nas nossas duas mais importantes antologias:

Comparada às grandes , a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem ; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão. (CÂNDIDO, 1981: p. 10)

Concordo. Também vejo assim. O pedantismo tão caro aos críticos da Academia parece-me nefasto e encurtador de possibilidades, mas quando ocorre o contrário, -quando só temos palavras de louvação gratuitas, – também não ajuda em nada à compreensão dos nossos escritores. Para além de atitudes feministas ou relativa aos chamados Estudos Culturais – que encontram qualidades estéticas num escrito só porque foi escrito por uma pessoa do sexo feminino, não podemos esquecer que a poeta de Horto despontou num meio provinciano, distante do que se convencionou apelar de “centros culturais” do país, e tradicionalmente, esse meio, controlado pelos homens.

E olha que não precisa ser um grande entendedor de poesia para encontrar as imperfeições na obra da mulher de Macaíba. Ceder à rima de maneira extremamente descarada como no poema Simples. Pobreza filosófica. Metáforas excessivamente evidentes e já batidas desde sempre. Ausência de resposta nova para temas recorrentes da lírica ocidental, uma certa concepção pueril do mundo, malgrado dizerem ter sido leitora de autores franceses no original, tais como: Bossuet, Fenelon, Chateaubriand, Lamartine, Victor Hugo.

Os defeitos são inumeráveis. Seria chover no molhado se ficasse aqui escacaveando a imperícia da poeta quando do uso dos procedimentos poéticos empregados para o engendramento do signo literário, dos seus símbolos, enfim, da produção de uma semiótica multiforme que é todo e qualquer bom poema.

Para não estirar conversa, a verdade é que Auta de Sousa não seria reconhecida como escritora em nenhuma literatura: nem no Brasil, nem muito menos alhures. Embora tenha recebido o aval do poeta parnasiano Olavo Bilac, que fez bondosamente – espécie de esmola – a introdução da primeira edição de Horto. Manuel Bandeira também fez referência à poeta, assim como Jackson de Figueiredo e Tristão de Ataíde. Tudo resultado de condescendência (o primeiro) ou busca de preencher uma lacuna de uma poesia religiosa (Católica!) ou mística nas letras nacionais (os dois segundos).

A verdade é que a crítica norteriograndense se comporta com a irmã de Henrique Castricianoe Eloy de Souza da mesma maneira que se comporta com todo e qualquer poeta: não-ata-nem-desata, porquanto permanece, ou repetindo os lugares-comuns tediosos, ou compondo um discurso carregado de evasivas que nada contribuem para a exegese da obra ou para situá-la no justo lugar do nosso sistema poético.

Proponho-me neste trabalho fazer uma modesta miseau point, assim como apontar alguns traços dessa que é considerada uma das referências poéticas do estado do Rio Grande do Norte.

 

2. Fuga: allegro ma non troppo

A preservação da sua individualidade biográfica nos textos, articulando liames estreitos entre vida e obra é um dos pontos bastante positivos da sua poesia. Não que eu pense que isso necessariamente deva estar implicada na consecução do objeto estético (se assim o fosse, não existiriam poetas dramáticos, como Shakespeare ou Goethe, ou escritores prolixos na criação de personagens, como Eça de Queiroz).

O que me vem a cabeça dizer é que esse estreito laço foi produzido a partir de uma grande sinceridade, de uma enérgeia que demandava consubstanciar-se, agora se essa potência não se materializou em formas de requintada beleza estética, são outros quinhentos. Não podemos negar é a autenticidade da lírica. O sopro da musa pode até ter sido mal recebido ou, quem sabe mal trabalhado – quem sabe por limitações subjetivas ou ausência de um repertório mais requintado do fazer poético – o que não podemos duvidar é que ela não tivesse predisposição à escritura. Sim, eu sei muito bem, não precisa me dizer, literatura não se faz com bons sentimentos, não me lembro quem foi que disse. Todo mundo já sabe e repete. Literatura se elabora a partir da literatura já estabelecida, a partir da articulação das palavras num determinado arranjo.

O que estou chamando de sinceridade foi capaz de engendrar ritmos estruturados na cadência da prosa de simplicidade absoluta, de despojamento sem que houvesse a intermediação do pensamento (reflexão). O fôlego lírico não sofreu nenhuma oclusão. Por isso, alguns versos são bastante toscos, não elaborados pelo trabalho artístico. Talvez essa rudeza, que, por sua vez, se confunde com espontaneidade (naturalidade) seja um dos bons atributos da poeta. O que quero dizer é que havia um substrato forte para o pouso da musa, contudo, não se firmou como virtuose. Quem sabe, a angústia observada em alguns poemas seja resultado de uma autocompreensão dos seus limites. Diz-se que foi aluna diligente no Colégio S. Vicente de Paulo, na Estância, Recife, recebendo distinções, e que falava francês fluentemente (falar uma outra língua pode nada significar, crianças aprendem rápido uma língua estrangeira, como todo mundo sabe).

O que podemos atestar na grande popularidade de Auta de Souza, entre as gentes do nosso Estado, é que sua fama se deve a mais uma espécie de consolidação de um nome para ocupar um lugar no parnaso lírico, à falta de outro, na literatura. Como em muitos fenômenos sociais, constata-se a existência de um lugar mental que busca ser preenchido por uma forma, não interessando ao coro uníssono dos que elogiam sem, no mínimo, terem convivência ou intimidade com os traços principais da obra de um autor. Repete-se ao infinito, desponta em todas as listas canônicas, contudo, não se conhece a obra, que, ao final das contas, é o que interessa.

Creio, sim, que podemos atestar uma poética plena de sofrimento sincero. Acontece que uma insuperável melancolia justaposta a um fracasso iminente não podem ser tomados como critério de avaliação de uma obra. A forma é o fator determinante e o critério para se avaliar a produção de um escritor. Podemos apontar outros exemplos na história da literatura, tais como Florbela Espanca ou Mário de Sá-Carneiro. Ambos conseguiram estreitar os laços entre a sinceridade de uma vida plena de vicissitudes, fracassos que conduziram ao suicídio de ambos, acontece que formataram esses embates com a realidade por meio de formas que transcenderam tempo e lugar de elaboração, permanecendo válidas até hoje. Florbela é considerada uma das melhores sonetistas da língua portuguesa, estando à altura de um Camões, a poesia experimental de Sá-Carneiro, com o manuseio de tipografismos de diversos tamanhos e formas, resta ainda atual e nutridora de poéticas de vanguarda, tendo sido um dos precursores da poesia Concreta.

O que quero dizer é da necessária atemporalidade da arte, de uma escritura que seja expressão de uma imanência que pulsa do coletivo, que uma experiência particular apenas represente metonimicamente o todo pela parte. A vida datada e localizada vem a organizar pulsões emanadoras da coletividade. O indivíduo funciona como espécie de antena a captar esses estímulos provindos de uma razão social.

A poesia de Auta de Souza, à exceção de alguns poemas, é enfadonha e tediosa quando lida sob a ótica do espírito da nossa época, não suportando uma leitura que leve em conta o modus vivendi dos dias de hoje. Como se prendeu a determinadas faixas semânticas, ou seja, haja quadras ao gosto popular sobre a beleza das amigas, sobre o cabelo ou o perfume das mulheres que a acompanhavam à missa, sobre enterros de crianças mortas em tenra idade. Creio que suas obsessões vieram a se tornar seu maior equívoco: prendeu-se em demasia aos temas calcados na tristeza e numa concepção aziaga da vida.

Sinceridade no sentido do que busca consolação, redenção diante de uma existência miseravel, de quem se aproxima da arte para não sucumbir totalmente às vicissitudes.

 

3. Allegretto: a autenticidade em arte

Se me perguntassem, juro que eu não saberia explicar por que a leitura de Auta de Souza evoca-me a pintura da artista mexicana Frida Kahlo. Embora tenham lidado com códigos distintos – poesia e pintura – , penso que o elemento sinceridade artística permite-me esse cotejamento. Ambas têm em comum não só fato de terem sido mulheres de temperamento mórbido, mas também pelo recorrente dobrar-se sobre si mesma numa atitude narcísica de quem busca angustiosamente transcender o mundo via a expressão de algo que lhes pungia.

Obsessão que projetou-as como dramatizadoras do seu próprio fim. Frida autoretratou-se a vida inteira. Seus quadros são uma narrativa da sua historia pessoal, da sua via dolorosa, tanto física quanto subjetiva. Auta atolou-se no seu ego, fetichizando sua breve existência, fazendo-se personagem e gozando horrores nos seus fracassos. Parecia não se fartar de mamar no peito da velha parceira da Musa: a melancolia. Num dos seus mais bem construídos poemas, abomina até mesmo o amor e se consagra como noiva do verso. Vejamos o poema “Minh’ alma e o verso”, dispostos em sextilhas, no qual alterna decassílabos de fatura elegante, em dísticos, alternados com heróicos quebrados. Ademais, insere no corpo do poema uma segunda voz, em septassílabos, demonstrando capacidade de manusear, em versos, o gênero dramático.

“Eu sou o orvalho sagrado,
Que dá vida e alento às flores;
Eu sou o bálsamo amado
Que sara todas as dores.

Eu sou o pequeno cofre
Que guarda os risos da Aurora;
Perto de mim ninguém sofre,
Perto de mim ninguém chora.

Todos os dias bem cedo
Eu saio a procurar lírios,
Para enfeitar em segredo
A negra cruz dos martírios.

Vem para mim, alma triste
Que soluça de agonia;
No meu seio o Amor existe,
Eu sou filho da Poesia.”

Um dos mais belos poemas da mulher de Macaíba. Não apenas pelo apelo metalinguístico, apresentando a Poesia como possibilidade de obliterar a realidade e redimir o Ser do sofrimento, mas também no que concerne à fatura do texto, empregando habilmente alguns procedimentos formais (os quebrados de heróicos arrematam de maneira contundente o dístico-decassilábico). E tudo isso configura um universo autoreferencial em relação à realidade, provocado que foi pelo desacerto, por uma imanente incompatibilidade que a fez alimentar a doença, e por tabela, nutrir a Poesia demandada por seu pendor saturniano.

Bem claro que a poeta conferia si mesma uma representação de uma alma não nascida paravida, fechada para o mundo, presa a um mundo imaginário. A ficção tomara o lugar da realidade. Não havia mais saída. Assim como a Igreja é a noiva do Cristo, também a poeta auto-ungiu-se namorada da linguagem, olvidando o mundo e buscando guarida no fantasioso mundo da arte.

Quase toda vez que experimento essa estreita relação entre vida e obra, e que não é difícil encontrar chez lesfemmes; indo mais além, eu diria até parece ser uma coisa imanente da mulher-artista (vejam o exemplo de Clarice Lispector). O problema é que o homem, -talvez -, consiga separar um pouco sua produção dos seus estados anímicos. Enfim, o que quero dizer é que as mulheres sejam dadas a representar menos na vida social e até mesmo no interior de uma relação afetiva mais estreita do que os homens, por exemplo.

Esse andamento de prosa nos versos a que estou me referindo muito me agrada por se inscrever numa tradição da lírica
4. Allegro moderato (affettuoso?)

a) Arrisco, mesmo não sendo especialista na área, uma pequena leitura

Não é de admirar, pois, que certas imagens conservem na obra inteira uma marca que possibilita designar para sempre o psiquismo de um escritor (BACHELARD: A terra e os devaneios da vontade, p.175)]

Se considerarmos esta assertiva como verdadeira, então podemos, para inicio de conversa, arrolar as imagens recorrentes na obra de Auta de Souza. E que não são muitas, como sabem todos os que leram com atenção o livro Horto.

Quaisquer que tenham sido as predileções eróticas dessa casta diva da cidade de Macaíba, atesta-se em seus poema, um percentual significativo de de uma erótica voltada para as amigas, numa busca de exaltar a beleza ou a delicadeza do comportamento feminino em sociedade. Como era comum em seu tempo, a poeta Auta de Souza vivia rodeada de mulheres, que fossem vizinhas, comadres ou amigas. Entretando, sua admiração e fixação parecem exceder o nível da amizade, numa busca de enfatizar o belo que as amigas possuíam.

No que concerne a obra da poetaAuta de Sousa, penso que seria interessante perceber e depois saborear algo extremamente delicado e sutilmente velado ao longo de toda sua obra. A saber : o forte erotismo direcionado às mulheres dessa mocinha que morreria enla flor de la vida, aos 25 anos. Acontece que essa vigorosa sensualidade expressa-se de maneira bastante sutil e inteligente, para não dizer astuciosa. Pouco interessa se era intencional ou não, vale pela eficácia. Na comarca do simbólico as leis são regidas pela lógica da eficácia e não pela lógica do mundo. Tudo o que evoca o sensual vem intermediado por um paravent religioso modulado através de inúmeros arabescos de cunho religioso.

Ora, não é de se admirar que a autora foi buscar no universo religioso, – que por sinal lhe era bastante familiar, pois foi educada em colégio de freiras -, os símbolos que serviram para manusear afim de tangenciar o erotismo aludido. Valeu-se com propriedade, e com uma espécie de cuidado, da metonímia para discorrer acecarca dos seus olhares voltados para o feminino. Se a metáfora é o lugar o desejo, a metonímia é o lugar da repressão. Como sabemos, os processos meotnímicos se regem pelo deslocamento, recuso usado pela linguagem do inconsciente. Nesse sentido, aparecem com vigorosa força fragmentação que não permite ver a totalidade, que é prerrogativa da Metáfora.

De que maneira esses processos se manifestam nos poema de Auta de Sousa? Não é difícil contatar que a autora optou pelo artifício da metonímia, que como sabemos, é uma das estruturas, – junto com a metáfora, da linguagem organizar-se, mecanismos de nomear o real, de apresentar o entorno como esse chega aos olhos de cada um.

Sucede nos poemas um engenhoso artifício. A poeta sabia muito bem dos tabus da sua época, por isso optou por construir seus poemas deidicados às mulheres de maneira que não ficasse explicitada sua – ao que parece – intenção primeva que era uma forte atração pelo que dizia respeito à beleza, a graça e aos ataviamentos que envolviam o universo das mulheres. Vejamos um soneto no qual o que afirmamos aparece de maneira ostensiva:

Na gaze loura deste leque adeja
Não sei que aroma místico e encantado…
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado.

Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado…
Até minh’alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.

E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no côro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,

Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores.

Via de regra, os poemas são rigidamente divididos em duas instâncias. A primeira faz saber de maneira clara a admiração pelos cabelos, da mulher, pelo charme, pela indumentária, por um objeto, como um leque, pelo porte de um feminino que parece bem exarcebado, por isso digno de exaltação em um poema.

Contudo, a poeta sabe que que não pode avançar tanto. É então que opera o processso da metonímia, ao fixar-se numa parte e indo buscar os emleentos comparativos em um vocabulário litúrgico que remete à cerimônias católicas. A forte sensualidade da primeira parte é substituída, falo do profano, pelos elementos do sagrado. É então que a mulher, observada com extrema atenção na sua natureza feminina, vem a se tornar uma virgem, uma santa, um anjo, uma criança, dessa forma exclui o feminino em sua plenitude por meio de um artifício emanado dos rituais litúrgicos, para justo tangenciar o que de profano e erótico havia no começo, cujo enlevo não podemos deixar de constatar. As cerimônias católicas escamoteiam esse forte pendor à uma erótica voltada essencialmente às mulheres. É fato que, à excessão dos irmãos, Auta de Sousa, não dedicou poemas aos homens. Basta ler o livro com atenção.

Em resumo, o conflito entre a pulsão erótica e o requalque está evidenciado no fato do poema vir com um andamento que proclama os olhos com um deslumbramento ímpar face ao objeto do desejo. Ocorre, porém, de chofre, uma espécie de censura, voltando-se para os objetos que compõem o interior da igreja, dos santos, anjos e crianças que perfazem o universo do sagrado.

A invariante dessa estrutura de construção só confirma nossa hipótese de que seu erotismo estava mais vinculado ao mundo das mulheres, não dos homens, que, ou são ausentesem sua poesia, ou são parentes próximos.

b) Casta diva

Não restam dúvidas de que a fé religiosa da poeta serviu de amparo para suportar a precoce orfandande do pai e da mãe, já aos quatorze anos, ou mesmo o luto da perda do irmão que faleceu queimado. Ocorre que as imagens integradoras do universo religioso também servem como espécie de tapume/biombo para escamotear ou apresentar de maneira mais degustável um erotismo fortemente voltado às mulheres. Facilmente se mapeia no livro HORTO. A exceção dos homens da sua família, todos os outros poemas do livro são dedicados a figuras femininas. Na verdade, seria maçante arrolar aqui todas as passagens em que a sensualidade feminina rabiscou na mancha dos versos um olhar mais demorado (e interessado) sobre o corpo das diversas amigas epigrafadas ou citadas nos poemas, melhor dizendo, sobre partes do corpo, pois a poeta habilmente denuncia conhecer o quanto seria se expor em demasia se declarasse explicitamente valor essa espécie de sensualidade. Por isso, faz uso de um artifício bastante conhecido desde sempre dos processos poéticos, a saber : a metonímia. Se bem que até mesmo por encontrar-se ligada à escola parnasiana não faria muito uso da metafora. Até nisso as coisas se juntaram visando escamotear. Aqui porém bloqueia-se num processo de deslocamente astucioso.

E como se encarasse de frente o objeto que deseja contemplar, porém desvia esse olhar imediatamente fazendo uso de comparativos com signos remetedores ao universo do sagrado. E então que a mulher aparece transfigurada.

Ao que parece, a atmosfera de permanente melancolia e luto criou uma forte cortina de fumaça capaz de obliterar o desejo consciente ou inconsciente por uma erótica tornada para o feminino.

Não parece ser coincidência a contribuição do paradigma simbolista ao à maneira como Auta fez uso do erotismo. Como sabemos, no simbolismo o erótico compra-se em ser apenas sugerido, vejamos o caso das Neosimbolistas como Cecília Meireles ou Henriqueta Lisboa, contudo, estas tratam o amor de forma dramática, transfirguando numa multifacetada plêiade de personagens. A autora de Horta não tinha tal fôlego lírico para, por meio de personagens, fazer valer o múltiplo que é o humano em sociedade. Ateve-se ao recurso que estava a seu alcance: a sinceridade artística. Limitada no seu fôlego lírico, não poderia ser de outra maneira.

Com relação ao romantismo, não podemos esquecer sua eterna e tediosa nostalgia com relação a uma infância indílica que supostamente teria vivenciado, bem como reaver o paraíso perdido, que, como sabemos são sentimentos inerentes e fundamentais para a construção de uma poética Romântica.
c) O mitema do amor não correspondido

Engraçado é que tudo o que se relaciona a esse amor fracassado encontra-se envolto numa atmosfera evanescente, coisas de “disseram”, nunca algo palpável, até parece que funciona como espécie de mitema para compor a totalidade da legenda dessa poeta romântica como querem muitos dos seus apreciadores e críticos. Vejamos, só para se ter uma idéia, de como aparece o elemento masculino na história dessa moça. É óbvio que só pode aparecer como algo interditado, impossível de se realizar. Em suma: o antigo mitema do amor não correspondido, tão sobejamente tratado pelos românticos. Vejamos como alguns biógrafos e críticos o representaram:“uma paixão humana reprimida por imposição alheia” (Pe. M. Lacerda); “existência de um amor frustrado” (Sânzio de Azevedo); “amor infeliz” (Jandira); “E até um amor que não chegou a se consolidar…” (Tarcísio Gurgel).

Ora, o que faz essa série de leituras tão assemelhadas na sua estrutura senão reforçar o mito da mulher fracassada no amor, e por isso, afundada na cidadela de ilusões da arte?

O que se percebe a partir desses sintagmas sem muita reflexão ou pesquisa histórico-biográfica é que não passam de frases ditas num contexto semelhante, ou seja, correspondem a partes de um ritual social : o amor não correspondido. Serviriam como elementos para qualquer uma outra história de amor acontecida alhures.

A história é a seguinte. Espalhou-se a conversa que Auta de Souza apaixonou-se por um bachareal, Promotor em Macaíba, sucede que não ocorreu maiores desdobramentos, pois há que diga que o moço não merecia o afeto investido pela poeta. Onde foi parar esse amor fadado ao fracasso? No que a crítica aponta como “devoção”, aqui entra mais uma vez o componente religioso. Se é que aconteceu isso mesmo – pois duvido muito – , a autora de Horta refutaria, encontrando sempre uma desculpa a pretexto de não deixar esse amor realizar-se. Amor não rima com devoção, nomenclatura advinda do vocabulário da religião

Insisto em dizer: o que se constata a partir desses sintagmas sem muita reflexão ou pesquisa histórico-biográfica é que não passam de frases ditas num contexto semelhante, ou seja, correspondem a partes de um velho arquétipo conhecido dos rituais sociais: o amor não correspondido, o fracasso.

Ora, como sabemos, a lógica mítica busca no entorno as estruturas que fortaleçam sua eficácia. O mito atrairá os elementos que preencham os hiatos de uma narrativa na qual a realidade não mais se distingue da ficção. Como disse o antropólogo do Imaginário, Gilbert Durand, “A história escorre para o mito”. Isso mesmo, fomos acostumados a pensar o contrário. Quer dizer que a lógica mítica é dotada de uma lógica centrípeta, atraindo o que lhe convém, para que a narrativa de determinado evento pareça aceitável e com contornos os mais verossímeis possíveis.

Não é de se admirar que essa moça houvesse permanecido compondo a partir de estruturas poéticas românticas. Se ainda no século XXI perdura essa representação da poesia fazendo com que os poetas se expressem por meio de formas de amar que não mais condizem com nosso espírito da época. As pessoas agem, no cotidiano de determinada maneira, contudo ainda prevalece a atitude de idolatrar a pessoa amada. Algo mais do que ultrapassado, mesmo por que a prática constatada não é essa.

Com efeito, a poeta não conseguiu fugir às representações que o senso comum infundiu à poesia, a saber, uma mescla de romantismo ultrapassado no conteúdo com estruturas fixas parnasianas na forma. Essas impregnações românticas persistem até os dias de hoje, não fazendo mais sentido, uma vez que os modos de amar e tratar a pessoas dita amada sucumbiu perante mudanças  tão rápidas da tecnologia, da família e do relacionamentos interpessoais já bastante esgarçados.

De outra parte, vale lembrar que o primeiro título do livro HORTO, chamava-se Dálias, titulo bastante sugestivo na medida em que evocaria inconscientemente o ramalhete de flores que a poeta ia colhendo ao longo da sua vida. Desde sempre a flor esteve relacionada a mulher, sendo, quase sempre uma metáfora do feminino, pela delicadeza.

c) Da arte de autoria feminina

Quase toda vez que experimento essa estreita relação entre vida e obra, e que não é difícil encontrar chez les femmes; indo mais além, eu diria até parece ser uma coisa imanente da mulher-artista (vejam o exemplo de Clarice Lispector). O problema é que o homem, quem sabe, consiga separar um pouco sua produção dos seus estados anímicos. Enfim, o que quero dizer é que as mulheres sejam dadas a representar menos na vida social e até mesmo no interior de uma relação afetiva mais estreita do que os homens, por exemplo. Esse andamento de prosa nos versos a que estou me referindo muito me agrada por se inscrever numa tradição da lírica.

Quando leio os “poeminhas fúnebres” (rubrica que uma ex-aluna me enviou em carta quando sugeri que lesse Horto com atenção) de Auta de Souza, me vem à lembrança a obra da pintora mexicana Frida Khalo. Nesta, podemos perceber o liame forte entre o engendramento de uma obra e o percurso do uma vida. A ascese e dramatização de um sofrimento perpetrado durante toda uma existência elevou sua obra a um estatuto bastante alto, assumindo a feição que vigora hoje, no mundo da crítica e no surgimento de uma legião de novos admiradores.

Quem é que não consegue, digam-me, perceber que Frida Khalo não tinha um domínio absoluto das técnicas de pintura? Quando comparada com seu companheiro Diego Rivera, percebe-se a sua inferioridade no conhecimento da arte de pintar, do domínio da perspectiva. Contudo, isso não inviabilizou a produção de uma das mais originais pintoras do século. A revitalização atual da sua obra denota isso. Se Rivera era engajado para fora (arte comprometida com o social e o político), Frida era engajada para dentro. Interessante como os dois fecharam o circuito da existência. Só mesmo um par pleno de inversões como aqueles dois poderia gerar essa complementaridade de obras.

Ainda há que lembrar a polêmica da sinceridade em arte. Este é um valor estabelecido e aceito por determinado tempo, por um estilo histórico. Trato da sinceridade como valor bem caro aos românticos e aos naturalistas. Porém, nem, sempre foi assim, a poesia dramática se inscreve como quer Fernando Pessoa, como o mais alto grau que uma lírica pode alcançar. Não é o caso de Auta de Souza, cujos poemas estão voltados exclusivamente para um narsicisísmo ególatra que não a permitia enxergar o mundo além do que seus olhos alcançavam. A arte pode adquirir uma alta voltagem estética sem necessariamente estar vinculada à razão de sinceridade. Como exemplo, podemos reter Sor Juana de Inês de La Cruz.

Assim como a freira mexicana, que adorava se passar por homem e escrever poemas dedicados às amigas, a poeta de Horto também gosta, embora com menos intensidade. Mas o que naquela não era testemunho, devido ao que o Barroco propugnava como poética, a ausência da sinceridade em arte, nesta ocorre o frescor de uma espontaneidade, parecendo que tudo que escreveu não sofreu o filtro da memória. Transfigurou no momento, denotando não haver tanto burilamento do discurso poético. A freira, uma das maiores expoentes do barroco hispânico, apropriou-se de procedimentos advindos da poesia dramática, enquanto Auta de Souza restringiu-me a um lirismo de forte apelo confessional. Ora, as limitações desta eram muitas, como querer que criasse personagens, refratando o autobiográfico?,sua poesia aproxima-se muito mais do que costumamos nominar de “desabafo”, eivada de resíduos românticos que proclamavam a unidade entre autor e obra.

5. Finale : adagio lamentoso

O certo é que, a essa altura, fica difícil recusar a presença da poeta Auta de Sousa no cânon literário norte-rio-grandense, pois como já disse, historiadores, intelectuais e críticos firmaram involuntariamente um acordo tácito para elevá-la à condição de nossa primeira poeta de importância, espécie de mártir, sendo assim o mito primevo de uma literatura que não alçou maiores voos, se compararmos com literaturas de outros estados do Nordestes, como Pernambuco, Paraíba,Ceará ou Piauí.

Mas, insisto,desde quando sofrimento explícito foi critério para que uma obra acedesse ao cânon de autores maiores?

Também não podemos negar, sob pena de sermos injustos, uma opulenta sinceridade no sentido de quem busca consolação, redenção, diante de uma existência miserável, uma morte anunciada, uma vida afetiva sublimada, ou seja,de quem se aproxima da arte para não sucumbir totalmente às vicissitudes imposta pelas Moiras e por Cronos.

Há um intricado dualismo que desponta no conjunto da obra de Auta de Souza. Ao mesmo tempo em que não se sustenta face aos métodos mais ditos ‘formalistas’ da teoria da literatura, não há como negar uma popularidade advinda de uma esquisita simpatia por parte de um grande número de leitores. Mesmo um leitor familiarizado com poesia de qualidade, e detendo as ferramentas que a tradição da teoria da literatura imprimiu aos que adentram com uma atitude mais complexa diante da arte da versificação, mesmo tais leitores, conseguem descobrir qualidades em algumas de suas composições. Vejamos, só para ficarmos em um exemplo, o quanto a poeta tinha de talento que permaneceu como potência, não exteriorizando-se em poesia de alta voltagem estética, mas, de toda maneira, olhem aqui como é belo este soneto, o quão podia manusear uma metáfora de apelo imagético ímpar:

CAMINHO DO SERTÃO
Tão longe a casa! Nem sequer alcanço
Vê-la através da mata. Nos caminhos
A sombra desce; e, sem achar descanso,
Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos.

É noite já. Como em feliz remanso,
Dormem as aves nos pequenos ninhos…
Vamos mais devagar…de manso e manso,
Para não assustar os passarinhos.

Brilham estrelas. Todo o céu parece
Rezar de joelhos a chorosa prece
Que a noite ensina ao desespero e à dor…

Ao longe, a Lua vem dourando a treva…
Turíbulo imenso para Deus eleva
O incenso agreste da jurema em flor.

Aludi à opulenta metáfora do fechamento da última estrofe, como convém aos que conhecem como funciona um soneto, ou seja, a necessária síntese propugnada pela teoria desta forma fixa. A bem da verdade, a poeta sugere um conhecimento da teoria da versificação em formas pré-estabelecidas, contudo, o conhecimento do engenho da palavra metrificada, dotada de um ritmo, não necessariamente torna alguém um bom poeta. Inútil repetir isso: há bons leitores, ótimos teóricos, excelentes poetas, que nunca ouviram falar de como se constitui o signo poético, de onde emana sua eficácia e seu número. Maria do Santíssimo não tinha consciência do que fazia, tampouco da qualidade da sua obra, nem por isso deixa de ser, talvez, tendo em vista um caráter, digamos, antropológico, seja nossa mais importante artista plástica.

Quem sabe a empatia despertada por tais versos venha justo de um intimismo que mescla simplicidade no proclamar uma sincera amargura, semdescambar para o piegas. Parece muito mais querer a cumplicidade de um eventual leitor. Com efeito, sua poesia pode até ter um tom de “desabafo”, porém não beira o que quase sempre sucede a essa espécie de escritura eivada de um travo agudo de sincera melancolia: o panfletário que sucumbe diante de uma vala aberta

Talvez seja por esse motivo que Câmara Cascudo, numa sacada aguda de bom leitor que sempre o foi, questiona o rótulo de poeta mística. O místico busca o retorno ao sagrado, numa possível união, numa religare, ao que fora completude, integridade, perfeição. Bem diferente da nossa poeta, extremamente presa à realidade palpável, lamentando o fato de uma catástrofe anunciada: a maldição que circundava os tísicos daquela época.

É nessa direção que segue o vetor da leitura cascudiana: alguém que amava a vida, a árvore verde da vida, – como Fausto, mirando da janela do seu sombrio gabinete de trabalho -, dificilmente poderia enveredar por uma mística que conduzisse a uma busca de reincorporação ao sagrado de há muito perdido, desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Cascudo vem argutamente dizer que é “justamente o inverso”. Auta de Souza amava o real, quebrantada pelo bulício que toda realidade comporta, pela movimentação de coisas e pessoas, pela luz e pelas sombras provindas das coisas em movimento. A poeta se compraz em valorizar as pequenas coisas de uma vida que nada tem de extraordinário, tudo se cumpre sem expectativas, sugere não haver o imponderável, os ritos do cotidianos se cumprem como ordem infalível do destino, que a tudo preside, que a tudo outorga o que costumamos nominar de real, que a tudo faz acontecer com rígida previsibilidade. Em matéria dos simples dias, como rosário, conta seguindo conta, não há o que ponderar. Há que aceitar, tão-somente.

Onde começa, onde termina ficção e realidade, doença e psicosomatição, alma e corpo, quem dará palpites sobre relações estreitas e complexas? A doença, antes de qualquer coisa, caracteriza-se como símbolo do que emana da psique, do temperamento, da forma de representar o mundo, de receber as sensações vindas do contato com o real.O vocabulário da doença está calcado essencialmente na sintaxe de como um sujeito percebe os estímulos advindos do mundo que o cerca.

Haveria, enfim, que se perguntar se sua originalidade não estaria junto no fato de ser sincera, o que a aproxima da poeta que é o mito fundante da poesia lírica: Safo. Ambas criaram obras com uma sinceridade que nos faz desenvolver uma empatia, por falar de um lugar onde a verdade interior repousa, por não impregnar a poesia de artificialismos, por buscar na poesia conforto e transcendência, por uma autoconfiança de que a escritura é o lugar individual de onde um sujeito proclama os valores, costumes e representações da sua época.

A empatia à sua obra parece dimanar dessa capacidade bem feminina de, com sinceridade, transmitir um mal estar chantado em acentos de uma melancolia insuperável e um senso de fracasso iminente. Tristeza sem lenitivo ou remédio. Não poderia ser de outra maneira, dado o seu temperamento saturniano.

Destarte, havia se fechado para o mundo. A ficção tomara o lugar da realidade. Não havia mais saída. Assim como a Igreja é a noiva do Cristo, também a poeta autoungiu-se namorada da linguagem, olvidando o mundo e buscando guarida no fantasioso mundo da arte.

O certo é que a poeta aqui estudada detém uma copiosa bibliografia, porém sem grande valor exegético e de contribuições ao avanço da crítica da literatura produzida no Rio Grande do Norte, limitando-se aos encômios e à reprodução hiperbólica de lugares-comuns já convencionados com relação à poesia e a poética da escritora. E estamos conversados.
6. Bibliografia

CÂNDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira (I).6 ed., Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.

BACHELARD, GASTON.

BARBOSA, Edgar. Imagens do tempo. Natal: Imprensa Universitária, 1966.

BRASIL, Assis. A poesia norte-rio-grandense no século XX: antologia. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

CÂNDIDO, ANTÔNIO. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6 ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981 (1º vol.).

CARVALHO, Jandira. Auta de Souza. Fortaleza : UFC/Casa José de Alencar, 1997.

CASCUDO, Luís da Câmara. Vida breve de Auta de Sousa (1876-1901). Natal: Imprensa Oficial de Pernambuco, 1961.

_________. Alma patrícia. 2 ed., Natal: Fundação José Augusto, 1998,

FILHO, João Medeiros. Contribuição à história intelectual do Rio Grande do Norte. Natal : , 1983, v. I, (pp. 199-201).

DUARTE, Constância e CUNHA, Diva. Literatura do Rio Grande do Norte: antologia. 2 ed. Natal: Fundação José Augusto, 2001.

GURGEL, Tarcísio. Informação da literatura potiguar. Natal: Argos, 2001.

MOISÉS, Massaud. O Simbolismo (1893-1902. 2 ed., São Paulo: Cultrix, falta data(vol. IV)

PINTO, Gizelda Lopes do Rego. Auta de Souza e a estética simbolista.3 ed., Natal: Fundação José Augusto, 2000.

SOUZA, Auta de. Horto.4 ed., Natal: Fundação José Augusto, 1970.

______. Horto.5 ed., Natal: EDUFRN, 2001.

WANDERLEY, Rômulo C. Panorama da poesia norte-rio-grandense. Rio de Janeiro : Edições do Val, 1965.

XAVIER, Francisco Cândido. Auta de Souza. 8 ed. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1997.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 26 de dezembro de 2014 7:33

    É bom debater o cânon. Prefiro sem excessos, sem profecias. Lembro dos concretistas irados porque Antonio Cândido valorizou Casemiro de Abreu e não destacou Joaquim de Sousândrade. Lamento o silêncio sobre Sousândrade. Entendo a valorização de Abreu como parte do sistema literário (formação de público, por exemplo). Auta de Souza é personagem e referência de leitura no RN e mesmo fora do estado – haveria tanta corrente piedosa que unisse Bilac a Bandeira? Melhor não considerar seus admiradores apenas ignorantes. Considero a personagem interessante. Sua poesia não é o que prefiro mas entendo seus leitores.
    Resta uma dúvida: que era ser medíocre em Macaíba naquele tempo? Receio que o intérprete cobre de Auta ter lido João Cabral, Emanoel às avessas.

  2. João da Mata 23 de dezembro de 2014 21:35

    Auta de Souza escreveu poesia, sim.
    Enferma fugindo da MORTE
    Deixou o rastro por onde passou
    No chão por onde pisou
    Num tempo que poucos escreviam
    A caetana a pegou na flor da idade
    Não pertenceu a escola.
    Escrevia como quem sofria uma poesia
    Mística feita de sofrimento e morte
    Dos anjinhos da nossa infância.
    Com muita pureza escreveu em estado de graça
    Colhendo as flores dos jardins das oliveiras.
    CAMINHO DO SERTÃO / Canção musicada posteriromente

    A meu irmão João Cancio

    Tão longe a casa!… Nem siquer alcanço
    Vêl-a, atravéz da matta. Nos caminhos,
    A sombra desce… E, sem achar descanço,
    Vamos, nós dois, meu pobre irmão, sosinhos!

    E’ noite, já! Como, em feliz remanso,
    Dormem as aves nos pequenos ninhos…
    Vamos mais devagar… de manso e manso,
    Para não assustar os passarinhos.

    Brilham estrellas… Todo o céo parece
    Rezar de joelhos a chorosa prece,
    Que a Noite ensina ao desespero e à dôr…

    Ao longe, a Lua vem dourando a treva,
    Thuribulo immenso, para Deus eleva
    O incenso agreste da jurema em flor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo