Autora de 26 anos tem obra de estreia poderosa

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

CRÍTICA ROMANCE

Ganhador do Orange Prize, “A Noiva do Tigre”, de Téa Obreht, faz retrato pungente sobre as consequências da guerra

À primeira vista, nada joga a favor. A capa dá a impressão de que sobreviveu ao mergulho numa Fanta Laranja. O corte muito curto das orelhas impede a capa de fechar corretamente.

A encadernação dura obriga a fazer força para manter o livro aberto. A tradução do título troca “A Mulher do Tigre” (“The Tiger’s Wife”) por uma “noiva”, achada sabe-se lá onde. A foto da autora parece recortada de uma caixa da Barbie.

A má impressão acaba, porém, tão logo se comece a ler este belo romance de estreia de Téa Obreht, nascida na antiga Iugoslávia em 1985. Pelo livro, a autora recebeu o Orange Prize de melhor romance.

Com as violentas guerras de desintegração do país, em 1997 emigrou, na companhia da mãe, para os Estados Unidos, onde vive até hoje.

Ao escrever, porém, foi de sua região natal que se lembrou. A ação do romance se passa nos dias de hoje, quando a península Balcânica já mostra sinais de recuperação.

No entanto, os efeitos das guerras ainda estão lá; por exemplo, nas formas decepadas dos inválidos e nos ódios novos a estranhar os diversos sotaques, antes familiares.

O livro narra em primeira pessoa a viagem da pediatra Natália para levar vacinas a crianças de um orfanato, o qual, com as novas fronteiras, está agora do “outro lado”, e não mais em seu país.

Obreht tem o cuidado, contudo, de não nomear os “lados”, o que torna a situação aplicável a todos eles.

Sendo ela própria natural de Belgrado, atual Sérvia, e de filiação bósnia e eslovena, é possível supor que a mistura favoreceu uma visão não sectária.

Durante a viagem, Natália fica sabendo da morte do avô querido, numa vila perto do orfanato, a qual guarda evidente simetria com ele, pois se trata de uma favela de veteranos de guerra.

O luto de Natália é então intensamente vivido entre as carências dos órfãos e a obstinação de um grupo de escavadores que buscam o corpo de um companheiro.

Mas, sobretudo, Natália encarece a sua perda pelas lembranças dos rituais com o avô: as visitas para ver o tigre e as histórias do homem que não podia morrer.

O terrível, porém, é saber que o passado já não pode ser lembrado, sob risco de denunciar o crime da vida partilhada com inimigos. Como recuperar até a memória pessoal, íntima, quando a guerra destruiu a história comum?

Como balanço geral, pode-se dizer que Obreht oscila entre a consciência histórica, vivida como dor pessoal, e certo abandono ao exotismo.

Ainda assim, o conjunto é poderoso para uma menina de 26 anos, que nem sequer escreve na língua materna.

*****88

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Unicamp

A NOIVA DO TIGRE

AUTORA Téa Obreht

EDITORA Leya

TRADUÇÃO Santiago Nazarian

QUANTO R$ 34,90 (280 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

TRECHO

Os quarenta dias da alma começam na manhã após a morte. Na primeira noite, antes dos quarenta dias começarem, a alma fica parada contra travesseiros suados e observa os vivos dobrarem suas mãos e fecharem seus olhos, sufocarem o quarto com fumaça e silêncio para manter a nova alma longe das portas, janelas e rachaduras no chão, para que ela não fuja da casa como um rio. […]

Tudo o que é necessário para entender meu avô está entre duas histórias: a da noiva do tigre e a do homem sem morte. Elas correm como rios secretos através de todas as outras histórias da minha vida -dos dias do meu avô no exército; seu grande amor por minha avó; os anos que passou como cirurgião e tirano da Universidade. […]

Antes da guerra, a cada semana desde que eu tinha três anos, meu avô e eu íamos à fortaleza ver os tigres. Sempre, só nós dois. Começávamos embaixo e subíamos por trás do Monte Strmina, caminhando pela velha trilha de carruagem através do vale de sombras do parque no lado oeste da cidade, cruzando dúzias de pequenos córregos claros que corriam pela vegetação em que eu, quando garotinha, passara incontáveis horas […]

Extraído de “A Noiva do Tigre”

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