AVENIDA NOVE

“Alecrim, Alecrim dourado Que nasceu no campo sem ser Semeado”.

N´avenida nove naveguei nos mares da infância.
Com Jerônimo – o herói do sertão – fui herói.
Sonhei com Aninha em tardes de novenas.

Era uma vilinha estreita de casas irmanadas
Na dor, nas brigas e nas brincadeiras,
Para chamar o vizinho, xingar, só precisava gritar.
– Sua rapariga. – É você sinhá sirigaita.

As brigas eram fellinianas e o cenário – a vila.
Que não era Izabel, mas tinham muitos mistérios.
Em noites de ronda dos fantasmas, da
malhação de Judas e semana santa,
onde só se podia ouvir música clássica.

A rua era o palco sem asfalto e contramão
O filme na parede, mãos ao alto eu sou caubói
– Está faltando uma. – Eu troco.
Era um escambo sem fim.

Tudo se trocava: Bola de gude,
Revista em quadrinho, álbum de figurinha do Benhur,
de Tarzan ou premiada.
O dinheiro era uma nota da carteira de cigarro.
A cabeça da boneca podia servir de bola

Seriado e paixão de cristo no cinema São Pedro.
Filme de Tarzan no cinema São Luis.
Hoje tem sabatina da alegria no teatrinho
Sandoval Wanderley.

Nem lembrava que era véspera de sessenta e quatro
E muitos colegas seriam presos.
Não entendia porque se escondiam os livros.
Depois fiquei sabendo que o livro podia ser comunista e perigoso.
Desde então nunca mais me livrei deles

Dona Xixi foi quem desasnou.
A mim, papai e toda a rua nove.
– Joãozinho, me compre meia dúzia de pães.

Foram as palavras mais bem pronunciadas
Que já ouvi em toda minha vida.
Na Cartilha de Sarita aprendi a Ler
No domingo, catecismo no “Sagrada Família”
Depois o jogo de bola que não saia da cabeça.

Na semana jogava na calçada da escola
Com um olho na bola e outro em papai
Se fosse pego era bolo na certa
De palmatória e castigo por brincar com
Aquele menino danado.

Cavalo –ou – bila
Tica – Cola
Esconde-esconde

Pegar “morcego” era outra brincadeira
Um dia o caminhão de lixo me banha de coco
E o fedor nunca mais saiu das minhas ventas
Acompanhado do cheiro de meia que podia
Se transformar numa bola de futebol

Nem lembrava de tempo
A chuva caia e o banho era a bica
Televisão só na casa da frente
Esquina da Vila Nóbrega.

Vila de gente chique
Onde morava o meu amigo Reinaldo.
Um grande artista continua menino.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo