Aviso

Amanhecia. O Sol tocava, delicadamente, o telhado das casas e os arbustos recém-plantados com seus raios de luz. O cheiro do orvalho ainda se confundia com o frescor do café preparado, o qual escapava pela janela e pelos corredores da casa, despertando os corpos ansiosos pelo ímpeto de experienciar o sabor da vida.

O menino descia as escadas, ainda cambaleando de sono, procurando os braços quentes maternos, que o certificavam sobre a segurança de que os dias valeriam à pena.

Era mais uma jornada de novas descobertas. O diferente sabor de bolo posto à mesa da cozinha; as palavras escritas no caderno; a textura das penas de um passarinho; a existência de um líquido viscoso e vermelho embaixo da ferida no joelho; e os novos números riscados na parede do quarto – marcavam dois centímetros a mais do que na quinzena passada.

O pequeno homenzinho iniciava a sessão de “porquês” sem adiamentos, e não sustentava as respostas obtidas na menor das obviedades. Não entendia a razão pela qual se comprava tantos sapatos, se só se tem dois pés, nem a das pessoas falarem coisas más, enquanto a voz foi feita para gargalhar e contar histórias – “aventuras são tão legais!”.

Questionava-se, também, sobre o motivo dos adultos produzirem armas, se poderiam usar seu tempo livre para construir casas de lego para pessoas que gostam de dormir nas ruas – “elas poderiam montar e desmontar, indo morar onde quiserem!”.

Após alguns centímetros conquistados, o menino via que, no mundo dos adultos, tudo beirava o extremo da estranheza. Os desenhos eram, permanentemente, substituídos por quadros com números; textos escritos sem papel e caneta; uma mensagem eletrônica, e não o abraço da mãe; a falta de curiosidade sobre o que mora debaixo das feridas; a textura de uma tela de celular, e não a da pele de quem se gosta.

O Sol continuava a sua tarefa inderrogável de tocar, gentilmente, os telhados e os arbustos – tão crescidos, que se perdia a visão de seus topos. O aroma do café despertava os corpos com dificuldade, e os números riscados na parede do quarto foram substituídos por uma camada grossa de tinta bege. Onde estavam os braços maternos? E os porquês inesgotáveis? Ainda havia gosto por aventuras?

Foram construídas casas de lego? Se computados, os centímetros pareceriam retroceder, apesar das inúmeras camadas de tinta da parede.

Uma nota do caderno foi relida, dentro de um quarto excessivamente branco e equipado, numa manhã em que o Sol insistia em imperar: “aviso: se, um dia, eu for adulto, lembrar de voltar a ser criança”.

Natural da Cidade do Sol. Estudante de Psicologia. Amante de prosa, poesia e música clássica. Contempla a beleza de um abraço apertado e da espontaneidade de um sorriso largo. Não dispensa um moleskine dentro da bolsa. Devaneia mais do que se acha à primeira vista. [ Ver todos os artigos ]

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