Aviso de despertar

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

A falta de acabamento ou de conexão entre os objetos e suas funções é um traço cultural de informalidade

No lugar de parafusos, um pedaço de arame prendia uma peça próxima a uma das sapatas do freio do bonde que descarrilhou em Santa Teresa. Sei que a notícia que leio não é a conclusão final de um laudo, mas a constatação indicial de um perito sobre o estado do veículo que trafegava superlotado pelas vias inclinadas do trajeto maravilhoso. É a esse pedaço de arame que eu vou me agarrar aqui, diante do acidente que matou e feriu pessoas. É que o arame tem o valor de uma peça sintomática, de uma metonímia gritante (a parte falando pelo todo), quase como um fragmento prototípico.

Minha paixão pelo Rio de Janeiro já foi declarada com todas as letras desde o início dos meus artigos nesta coluna. Tudo o que eu vejo de fascinante, problemático e único nessa cidade é inseparável, suas maravilhas e seus problemas, das observações miúdas que venho fazendo, ao longo dos anos, sobre o fenômeno intrigante e recorrente dessa verdadeira entidade metafísica que é a gambiarra carioca. No Rio, a gambiarra parece ser não apenas um acidente, no sentido filosófico do termo, mas o próprio fundamento, um pilar quase irrecusável para o funcionamento das coisas. Se não for propriamente isso, é no mínimo um sintoma querendo ser ouvido, precisando ser ouvido, e que falou agora de maneira trágica.

Já juntei muitas histórias exemplares sobre esse tema, e lamento não ter anotado todas. Não se trata de que me incomodem pessoalmente, mas formam uma espécie de pesquisa informal de campo que fico querendo conferir para ver se têm valor objetivo ou se são rastros de uma projeção minha, de uma alucinação persecutória.

Sabemos que a hotelaria é uma peça chave da economia material e simbólica dessa cidade fascinante cuja vocação é turística por excelência. Não tenho nenhum tipo de frescura com hotel. Mas me chama a atenção o modo como tantas vezes os hotéis do Rio, mais do que em qualquer grande cidade do Brasil, e mesmo quando bons e caros, funcionam muitas vezes na base das mais bizarras disfunções. Um chuveiro pode, por exemplo , emitir jatos d’água descontrolados que atingem com precisão o rolo de papel higiênico, transformando-o numa pelota de papel machê. O recepcionista sabe que não há um pelotão de manutenção pronto a sanar a falha, e que elas pipocam com variedade notável. Tacitamente, a indicação é de que elas fazem parte de acontecimentos que se inserem na ordem natural das coisas. Ao mesmo tempo, o hóspede pode encontrar de repente, ao voltar ao seu quarto, um funcionário fazendo uma instalação elétrica não solicitada, que se supõe que deveria ser feita, se fossem seguidas as mais elementares regras da hotelaria, num período de total desocupação do cômodo, quando ninguém estivesse hospedado nele. Um frigobar voltado vistosamente para o quarto, num hotel da orla de Ipanema ou Leblon, pode exibir os fundilhos desarrumados de suas fiações no lado interno do banheiro. A falta de acabamento ou de conexão entre os objetos e suas funções é um traço cultural de informalidade, profundo, que seria bom enquanto tal, se não fosse o sinal, muitas vezes, de um desinteresse ou de uma inconsciência sobre o próprio lugar e a própria importância.

Um funcionário não transmite para o outro, que lhe sucedeu, informações sobre a instituição que se responsabilizará pelas despesas do hóspede, que depois será cobrado por elas, dessa vez com uma eficiência e uma insistência que não se vê na qualidade geral dos ser viços. Pelos mesmos lapsos de comunicação interna, pedidos de despertar podem passar em branco. Na Bahia isso também pode acontecer, mas a reação da recepcionista será sintomaticamente diferente. Se reclamo que não fui chamado e que posso perder o avião por causa disso, ela dirá sestrosamente, como já ouvi:

“Oh, parece que o pessoal não está querendo que o senhor vá embora da Bahia.”

Lá, a modernização turística é muito mais recente, seguida com um afã quase escolar, com desejo de acertar e muitos erros, que são desarmados na base da reserva de charme. No Rio de Janeiro acho que esses traços estão associados à baixa estima de uma cidade que viu perder parte da sua centralidade, e que não parece encontrar motivação genérica, muitas vezes, para imprimir energia àquelas coisas que a distinguem (o turismo) e aos serviços básicos de sua população (como a infraestrutura de transporte). Essas duas desatenções estão cruzadas no fio de arame do bonde de Santa Teresa.

Sei que estou sendo superficial, ligeiro e parcial. Mas guardo há muito tempo a vontade de dizer essas coisas, mesmo que nesse estado. Acho que a perspectiva da Copa de 2014 e das Olimpíadas incide também sobre coisas como essas. Não se trata de querer transformar o Rio de Janeiro nalguma Miami, mas que a cidade esteja à altura de sua magnitude, nesses detalhes significativos que, afinal, acabam tendo muitas consequências.

Um contraexemplo: no Hotel Novo Mundo, uma simpática e eficiente telefonista nos acorda com a seguinte gravação: “Este é um aviso de despertar. Não esqueça do seu compromisso”. Acho adorável a candura desse conselho, tão eficiente, tão impessoal e tão pessoal ao mesmo tempo, a nos lembrar que existem os compromissos. Tão carioca. Acho que nele está a chave.

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