Avoengo

…Pois deu de me habitar um destes verbos madrugadores: colher, ordenhar, confiar. Deu também de me habitar a lembrança dele. Era ele quem me dava de beber o leite tirado da vaca na hora. Não o verbo, o avô. E eu bebia o leite espumado sem nojo, menos porque estava muito apegada às coisas da terra e mais porque confiava nele. Nem pensava em impurezas, bactérias, ou em coisas assépticas. Confiar era cósmico, natural, e ele e a vaca também eram cósmicos e naturais. E eram bons.

Ele dizia que a madrugada era o tempo de acordar e ir para o arisco. O arisco, ele mostrava, era acolá. Eu avistava o horizonte empoeirado, perto do roçado onde o milho balançava. Era distante, mas era bom o arisco. Coisa de tempo e trabalho fazerem virar roçado. Ele era assim também, bom e distante. Carinho não dava, mas era bom e talvez fosse habitado por emoções retidas. Emoções retidas também me habitam, um pouco. Tenho isso dele, tenho pouco dele.

Tive pouco dele, éramos estranhos íntimos partilhando madrugadas, roçados e leite de vaca. Mas, que digo, pouco? E o roçado? Tenho em mim o roçado, o milharal, e isso é muito, porque o roçado era a grande significância dele. Era o seu sentido. Tive muito, tenho muito. Lembra-me também que sei debulhar, e esse verbo diário me habita desde que o aprendi com ele. Pouco, não. Tenho muito dele, mas está retido.

Todo o mundo deseja algo que não lhe está disponível. Ele, não. Desejava com um ardor diário aquilo que tinha, era essa a sua intensidade e a sua precisão perante a vida. Esse era o seu entendimento de suficiências. Quanto a mim, embora não seja mais “tão criança a ponto de saber tudo”, continuo pequena para compreendê-lo. Talvez isso de entendê-lo devesse começar pelo fiapo de rio passando ao lado da roça. Pois era o riozinho que fiava o milho, era a sua insuficiência perene que fazia o milho brotar.

Eu não via nenhuma poesia no avô suspendendo a madrugada para ordenhar e colher. Eu não via, mas não era porque não tinha, era só eu quem não sabia ver. Poesia bem que tinha, poesia empoeirada e arisca como ele. E nem precisava desbastar, a poesia estava feita e por si mesma se sustinha. E eu, alheia, só agora me dou conta de que, além de espigas e leite fresco, ele também me deu poesia para as minhas debulhadas. Mas a poesia imergiu no tempo, na cisterna, no roçagar do milharal, no leite espumoso da vaca cheia de recuos, no cosmos. Imergiu no avô que passou a vida cismando. Imergiu, é certo. Imergiu nos verbos madrugadores que me habitam. E ficou no fundo, precipitou-se.

À maneira de Whitman, diria a poesia precipitada: procura-me no fiapo de rio arranhando a entranha da terra, nos cabelos que envolvem a espiga de milho, na água encoberta da cisterna, no esguicho do leite da vaca, no arisco. Procura me avistar no distante, seco e empoeirado horizonte do arisco; agora e na hora dos teus olhos empoeirados. Procura-me nos longes, diria o avô. Não no beijo, nem no abraço, mas nas retidas emoções. Procura-me no afeto não expressado. Procura-me. Em algum lugar, eu estarei à tua espera.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 4 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 9 de Fevereiro de 2012 18:04

    Carmen, ótimo texto!

  2. Jarbas Martins 10 de Fevereiro de 2012 7:40

    Você, Carmen, é a Estrela da poesia de Angicos. Eu me contento em ser um vaga-lume.

  3. Carmen Vasconcelos 10 de Fevereiro de 2012 12:50

    Grata, Anchieta.

  4. Carmen Vasconcelos 27 de Fevereiro de 2012 16:49

    Jarbas, Jarbas!

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