Baile de casacas alugadas

Por Ivan Maciel de Andrade – Advogado
TRIBUNA DO NORTE

Machado de Assis disse numa crônica que “o mundo é um baile de casacas alugadas”. A comparação com um baile não chega a surpreender, mas de casacas alugadas? Por que alugadas? Porque nada, a rigor, nos pertence, embora possamos ter a ilusão de que somos donos de muitas coisas, materiais e imateriais. Mas tudo não passa de “casacas alugadas”. Mais cedo ou mais tarde, teremos de deixá-las para outros que virão depois de nós. As nossas casacas tão queridas e em que às vezes imaginamos brilhar tanto são apenas alugadas: deveremos abandoná-las. Serão alugadas por novos personagens. E para eles surgirá também a hora em que o baile terminará e suas casacas se tornarão trastes inúteis. Um ciclo interminável, sempre renovado – de bailes e casacas alugadas.

Uma história que ilustra o acerto do pensamento machadiano. Eu a conhecia de encontros casuais. Quando ia naquela loja, conversávamos amistosamente. Dessa vez, não a encontrei. Havia outra jovem em seu lugar, dentro da cabine envidraçada. Perguntei pela moça que me habituara a ver naquele local de atendimento aos clientes: “Está de férias ou deixou a empresa?”. A jovem que a substituíra me disse, em voz baixa: “Ela morreu”. Tive dúvidas sobre o que ouvira: “Repita, por favor”. Veio a explicação: “Ela descobriu um câncer em estágio avançado e morreu em pouco tempo, três meses.” Fiquei parado, atônito, sem querer acreditar na informação. Limitei-me a comentar: “Mas me parecia tão jovem, muito alegre, prestativa, cordial, simpática”. A minha informante confirmou: “Nós todos nos surpreendemos. Foi tudo tão rápido”. Fiquei em silêncio, um longo e pensativo silêncio. Sempre evitamos pensar em nossa “trágica finitude”, na total falta de sentido da morte, sobretudo da morte prematura, que Albert Camus considera a suprema expressão do absurdo existencial. De repente, fui conduzido à assustadora advertência do Eclesiastes: “do pó viemos, ao pó voltaremos”.

Ao rever antigas postagens no meu perfil do Facebook, contendo aforismos, reflexões, ideias, observei que receberam comentários marcantes e muito pessoais de amigos que faleceram há alguns meses. Fiquei imerso em questionamentos e me perguntei: como explicar que, havendo tanta vida neles, tudo de repente tenha terminado, só restando agora o silêncio, a memória e a saudade do que foram e do que fizeram? Como nenhuma explicação, nessa matéria, tem – ao que me parece – poder de convencimento, a única saída é a óbvia conformação, pelo reconhecimento de que esse, afinal de contas, é o trágico destino reservado a todos nós, sem que possamos saber por quê nem para quê.

Dizia Pascal: “Tudo o que sei é que devo morrer e contudo o que mais ignoro é essa morte que não poderei evitar. Assim como não sei de onde venho, não sei para onde vou.” A consciência do efêmero nos leva à exigência de intensidade. E essa voraz carência de intensidade muitas vezes nos conduz a extremos de crença ou desespero. Buscamos, então, a síntese filosófica perfeita, a fé religiosa mais arrebatadora, a convicção científica dotada de maior grau de certeza, algo que dê pleno e salvador sentido à vida. Pois quase nunca nos indagamos se ela tem verdadeiramente um sentido.

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