Balanço do ano literário

Uma crônica de fim de ano deve, de regra, debruçar-se sobre os umbrais do novo ano e antecipar suas potencialidades a partir do legado que lhe deixa o ano morrente. Mas por que não admitir, por exemplo, que a norma seja provisoriamente posta de lado e, ao invés do novo ano, o ano velho, que está prestes a se despedir, seja seu protagonista, nela expondo suas razões, como o romancista José de Alencar o fez numa crônica datada de 1854 intitulada justamente “Ano velho”?

Utilizando-se de um velho artifício muito familiar aos romancistas do Oitocentos, Alencar é visitado por um senhor idoso, o qual se identifica como sendo o ano de 1854. Seu objetivo é de fazer uma exposição de motivos a seu favor, em represália às inúmeras queixas e críticas que lhe fez o autor de Iracema em escritos publicados nos “folhetins” diários do jornal Correio Mercantil.

Salta à vista que se trata de um diálogo de viés onírico, que Alencar se apressa a atribuir a uma razão suficiente: a leitura de uns contos de E. T. A. Hoffmann, o cruento autor de “O homem de areia”, que já havia inspirado a Machado uns tantos contos góticos…

À luz de hoje, quando vampiros lividamente vegetarianos viram motivo de idolatria juvenil, personificar um ano exaurido sob uma forma humana seria um artifício por certo fora de moda, mesmo porque Hoffmann já não constitui um padrão de assombro para os nossos tempos. Por isso, sem precisar reatualizar um subterfúgio oitocentista, poderíamos olhar retrospectivamente o ano que está findando considerando-o, por exemplo, sob o ponto de vista literário (vertente que nos interessa mais de perto), e nos propor a seguinte pergunta: 2009 foi um ano fecundo, do ponto de vista das nossas letras?

Não temos dúvida em respondê-la afirmativamente. Quer no campo da ficção, quer no da poesia, da memória, dos estudos críticos, são muitos e bons os exemplos a citar, a começar pelo romance A fortaleza dos vencidos, de Nei Leandro de Castro, que abriu novas e graves questões à nossa ficção, seguido de Parnamirim Field, de Lenílson Antunes, o qual explora com humor e abundante informação histórica o episódio da segunda guerra em Natal, além de Memórias de Bárbara Cabarrús, de Nivaldete Ferreira (foto acima), novela constituída de fragmentos que podem ser lidos independentemente do contexto da obra.

A poesia viveu uma de suas estações mais férteis, como o provam títulos como Resina de Diva Cunha, Lábios-espelhos de Marize Castro, Talhe Rupestrepoesia reunida e inéditos, de Paulo de Tarso Correia de Melo, Dança em seda nua de Lívio Oliveira, Antielegia para Emmanuel Bezerra de Jarbas Martins e, mais recentemente, Almas nuas de Zedelfino. Esse conjunto de obras, apesar de exibir nomes dos mais importantes da nossa poesia contemporânea, apresenta um viés preocupante na medida em que carece de nomes novos, tirante o de Zedelfino, que goza da condição de poeta bissexto.

A literatura de viagens apresentou pelo menos dois títulos dignos de menção: Portão de embarque II – Portugal, de Manoel Onofre Jr., e Pelas ruas de Havana, de Rubens Coelho.

A crônica foi destaque com Na outra margem, o amanhã, de Cláudio Emerenciano, enquanto a história literária ganhou três trabalhos arrojados: Jorge Fernandes, o viajante do tempo modernista, de Maria Lúcia de Amorim Garcia, Belle Époque na esquina, de Tarcísio Gurgel e Geringonça nordestina, a fala proibida do povo (em 2ª edição) de Geraldo Queiroz.

Na área do conto, tivemos a revelação de Públio José, com Contos. Porque conto, e de Lima Neto, com Um conto em cinco vozes; tivemos ainda Lápis nas veias, minicontos de Clauder Arcanjo, Tempo de estórias de Bartolomeu Correia de Melo, e o nosso Colóquio com um leitor kafkiano.

Visto esse breve panorama, parcial e pessoal, poderíamos afirmar que a literatura norte-rio-grandense deixa 2009 com um saldo positivo, observada a ressalva já referida, tanto no gênero de ficção como no de não ficção.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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