Balanço sentimental do amor de um poeta

Há pouco mais de um ano, o poeta Paulo de Tarso Correia de Melo lançou uma edição omnibus de sua obra poética através da editora da UFRN-Edufrn, sob o título de “Talhe rupestre – poesia reunida e inéditos”, organizada e anotada pelo escritor Carlos Newton Júnior. Suas mais de 440 páginas constituem uma espécie de mosaico minucioso e discreto dos muitos motivos que explodem na poesia intempestiva desse poeta tardio. Obra densa, tocada por uma linguagem contida, às vezes se confundindo com um “coloquial culto e escorreito”, está ainda a merecer uma abordagem ampla de suas múltiplas tendências e do acerto poético dessas tantas vias, trabalho que certamente revelará inúmeras pérolas, de variados valores e matizes.

A partir deste 9 de setembro, a poesia de Paulo de Tarso ganha um novo rebento. Trata-se de “Sabor de amar”, obra que sai sob a custódia da editora Sarau das Letras, de Mossoró. Não por acaso seu prefaciador é o operoso Clauder Arcanjo, enquanto a contracapa ficou a cargo do poeta Davi Leite.

“Sabor de amar” poderia ter outro nome. Por exemplo, “O livro de Ana”, porque é em torno da longa e bem-sucedida relação amorosa de Paulo de Tarso com sua Ana Maria que nascem e findam os motivos poéticos derramados na obra. Não é raro, portanto, que alguns poemas se reportem a acontecimentos passados, vividos, firme ou vagamente lembrados. Nessa espécie de contabilidade sentimental é frequente tais retrospectos. Um dos mais representativos é, certamente, o poema “Cantiga de amigo II”, elogio do amor sereno, pródigo em verdades de afeto e que dispensam, assim, retórica e metro. Ei-lo: “Um dia / eternamente / deixaremos a terra / ¬– nossa casa – / e o amor – / nossa veste – // Por enquanto / agradeço / o / que / de suave / e terno / me deste”.

Não é difícil ao leitor perceber por trás de cada poema, como uma sombra solar, a imagem da musa do poeta, uma musa real, histórica, fator determinante para como que costurar um poema ao seguinte, garantindo-lhe uma veraz poeticidade, não obstante os desdobramentos de tons, cores, tempos, lembranças. À paleta de afetos recenseados corresponde uma forma adequada, porque sabe o poeta que “Não passa o canto / passa o cantor” – / ars fugidia – / não passa. Permanência”. É por essa razão que o livro abre como o conhecido verso de Virgílio: “Arma virumque cano”.

Todavia, o momento mais ambicioso de “Sabor de amar” é seguramente o quase-soneto “Cantiga de velha lembrança”, cujo primeiro quarteto diz: “Lembrar-te é endereçar-me à pulsão das estrelas / e às fibras que maduram no âmago do tempo / para fazerem fenecer as flores / e aparecerem rugas num momento.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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