Balé da Chuva

Por Romana Alves Xavier

Vermelha, pequena, xadrez, grande, de bolinha, amarela, florida, listrada, compacta, imensa. De todos os tamanhos e cores, elas passam entre si em saltos altos, com uma elegância digna das passarelas. Vem uma, vai embora a outra, é um levanta a saia daqui, roda saia para ali, abre os braços assim, voa longe de mim, em um balé de movimentos sincronizados onde todas têm seu espaço. Apertado.

Em cada uma delas, um mundo diferente passa apressado nos olhares escondidos e estranhos. Cautela, timidez, fome, paixão, felicidade, alívio, tristeza, amor, angústia, saudade, frio.

Tantas vidas se cruzam e nem se cumprimentam. Uma por uma, ou duas a duas, até três juntas, abraçadas, com seu sentimento particular protegido pela beleza estampada nos seus rostos femininos, fortes e molhados de um choro contínuo que não cessa e nem tem pressa de secar.

E eu aqui, observando, fitando cada uma delas, imaginando de onde elas vêm, para aonde estão indo, se vão se fechar ou se abrir para outro olhar. No meu devaneio, adormeço com a música suave da chuva que não passa. E sou acordada com outra, elegante, grande e preta que se fecha ao meu lado. Debaixo dela, sai um senhor que me cumprimenta, dizendo:

– Hoje não veremos o sol, o dia vai emendar com a noite.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezessete − 2 =

ao topo