Bandeira branca na Casa de Rui

O filósofo e cientista político Wanderley Guilherme dos Santos foi o nome escolhido para presidir a Casa de Rui Barbosa, no lugar do sociólogo Emir Sader, que caiu em desgraça após chamar a ministra Ana de Hollanda de autista. Com discurso conciliador, Santos disse que a Casa não será partidarizada.

Por André Miranda
O GLOBO

Um dia após o anúncio de que o sociólogo Emir Sader não seria mais o presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, o Ministério da Cultura (MinC) divulgou o nome do novo escolhido: o cientista político carioca Wanderley Guilherme dos Santos, de 75 anos. Wanderley assumirá o cargo em meio a uma crise institucional no MinC, que levou à queda de Sader antes mesmo de ele ter assumido. A informação foi divulgada em primeira mão por Ancelmo Gois, em seu blog.

A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, fez o contato com o cientista político anteontem à noite. Segundo ele, os dois não conversaram sobre diretrizes para a Casa, mas acertaram um encontro após o carnaval. Ana de Hollanda planeja visitar a instituição em 10 de março, para tentar minimizar a crise.

– Houve uma exposição da Casa de Rui Barbosa, que é uma fundação extremamente sóbria e que raramente aparece nos jornais. Então me parece que a primeira coisa a ser feita é retomar as atividades normais. É tirar a casa dos jornais – disse Wanderley. – Quero ouvir os pesquisadores, eles são o melhor celeiro para se saber o que anda acontecendo na instituição.

A mudança no rumo da Casa de Rui Barbosa foi decidida esta semana. Sader estava na berlinda desde que, em entrevista ao GLOBO, há um mês, falou em levar para a fundação projetos ligados ao governo Lula. No domingo, em entrevista à “Folha de S. Paulo”, ele chamou a ministra de “meio autista”. A afirmação foi motivo de apreensão no MinC. Ana se reuniu segunda-feira, com seu secretário-executivo, Vitor Ortiz, e com o presidente da Funarte, Antonio Grassi. A intenção da ministra era afastar Sader, mas temia-se que o caso enfraquecesse o ministério, já abalado pelas discussões em torno da reforma da Lei do Direito Autoral. Outro agravante é o fato de Sader ser um militante histórico do PT e ter sido um articulador do encontro dos artistas com a presidente Dilma Rousseff na campanha de 2010.

A solução surgiu dois dias depois, quarta-feira, por decisão de Dilma: Sader seria afastado para preservar a integridade da equipe. Ana, então, teria tentado manter na presidência da Casa José Almino Alencar, no cargo desde 2003. O Planalto preferiu um terceiro nome, também ligado à esquerda, como Sader, mas com perfil mais moderado. Crítico do governo Fernando Henrique Cardoso, Santos disse em 2005, durante as denúncias do mensalão, que a oposição estaria tentando dar um “golpe branco” na Presidência de Lula.

– A dinâmica do embate político às vezes provoca desencontros. Ouvi falar de muitas coisas em que não acredito sobre o que o Emir teria dito ou estava imaginando para a Casa. Isso vem do descontrole do debate. Minha impressão é que a coisa começou pequena, mas adquiriu uma dimensão que levou a um desfecho ruim para todo mundo – afirmou Wanderley.

Formado em filosofia, com PhD em ciência política pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, Santos é professor titular aposentado da UFRJ e um dos fundadores do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), hoje transformado em Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj. Atualmente, é diretor do Laboratório de Estudos Experimentais da Universidade Candido Mendes e é membro da Academia Brasileira de Ciências. É autor de mais de 30 livros, como “Razões da desordem”, “Décadas de espanto e uma apologia democrática” e “O ex-Leviatã brasileiro – do voto disperso ao clientelismo concentrado”.

Novo presidente da casa estuda desigualdades sociais

Wanderley tem se dedicado a estudar a democracia brasileira, com destaque para suas desigualdades sociais e políticas.

Ele sempre teve muito interesse na Casa, tanto como pesquisador como quanto amigo. Conhece as publicações, as linhas de pesquisa – afirmou a presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio, Rosa Maria Araújo, ex-diretora-executiva da Casa de Rui Barbosa. – É um grande nome, um intelectual de peso ligado a debates da atualidade, mas preocupado em preservar a memória.

Na Casa de Rui Barbosa, Wanderley vai encontrar pesquisadores que reagiram às declarações de Sader sobre fazer da instituição palco de debates políticos.

– A discussão sobre se politizar a Casa é muito subjetiva. Politização sempre tem. Quando você promove um debate sobre um sistema partidário, isso é um debate político. Mas isso é diferente de partidarização, o que nunca haverá e nem acredito que tenha sido a proposta de ninguém – diz Wanderley.

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