Bar do Botafogo: a loucura boleira do seridoense Franc Jr.

Tarde de domingo, Maracanã cheio, maioria das pessoas vestida de vermelho e preto.

Cenário de Ben Jor.

Dia 18 de abril de 2010, final da Taça Rio, o segundo turno do Campeonato Carioca.

Campeão da primeira fase, a Taça Guanabara, o Botafogo de Jefferson e Loco Abreu enfrentava o Flamengo do Império do Amor, alcunha tosca espelhada na dupla de atacantes Adriano e Vagner Love.

Fazia três anos que o rubro-negro levava o caneco em cima do rival – e quem já sofreu essa maldição, como os vascaínos, sabe o quanto é insuportável ser sacaneado por flamenguista após a perda de um título.

Em meio aos 60 mil pagantes, Francisco Silvestre de Azevedo enlouquecia.

“Tem um amigo meu, que é botafoguense também, que é dono de uma padaria aqui. Ele ia com os dois filhos deles, todos botafoguenses. Só que eles foram na terça-feira e a final era domingo. Aí ficaram na minha cabeça: ‘Bora! Bora!’. E meu primo já vinha ligando pra mim, pra eu ir pra lá. Aí eu fui. Minha mulher disse: ‘Tu tá ficando doido?’. Procuramos a passagem na internet e fui no bate e volta”.

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FOTOGRAFIAS.: John Nascimento

Esse “aqui” do começo da fala é o bairro das Quintas, em Natal (RN), de onde Franc Jr. (sem K mesmo) saiu feito um doido, horas antes da final.

Era sua primeira vez em um avião, imagine você.

“Eu tenho pavor de andar de avião. Saí daqui de madrugada, chovendo, fui quase bêbado. Tomei umas quatro doses de uísque pra ter coragem de ir. Foi uma loucura. Fechei os olhos aqui e só abri lá no Rio, quando o cara falou que tava pousando. Saí de lá bêbado novamente, para voltar”.

Entre os dois porres, pênalti para o Botafogo, aos 26 minutos do segundo tempo.

O placar estava 1×1, o que levava o jogo para a prorrogação.

Na cabeça de muito botafoguense, um martírio, pois uma derrota daria o título do returno ao Flamengo e forçaria mais dois jogos – caso o Botafogo vencesse, seria campeão dos dois turnos e eliminava A Decisão.

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Centroavante uruguaio Loco Abreu marcou segundo gol do Botafogo contra o Flamengo, no jogo que valeu o Segundo Turno e o Carioca de 2010; famosa cavadinha acabou com sequência de três finais perdidas para rival rubro-negro

“Não deixe o Megão chegar”, ecoava o mantra pessimista, impregnado de decepções anteriores.

O temor botafoguense terminou com a famosa cavadinha do uruguaio Abreu, definidora do 2×1 e do fim da freguesia.

Franc em êxtase , um potiguar de 51 anos de idade fanático pelo Glorioso desde a infância em Jardim do Seridó.

Ele é dono do Bar do Botafogo, lugar de cerveja ‘mainstream’ gelada, carne de sol na manteiga do sertão e de devoção a um dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro.

Repleto de cartazes, pôsteres, relógios e um sem número de souvenires, é dos pontos mais movimentados da Zona Oeste da capital potiguar, sobretudo em dias de jogos das séries A e B.

“Eu passo inclusive do Flamengo. Eu não gosto porque contamina a tevê, mas quando termina o jogo eu passo álcool nela”, brinca o pai de dois pequenos botafoguenses.

Se hoje sobra alegria, seus anos iniciais de vida mostraram outra realidade, do tipo bem conhecida para muitos sertanejos.

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Mais de 100 pôsteres adornam Bar do Botafogo, com destaque para títulos de 1906 e do Campeonato Brasileiro de 1995; espaço fica no bairro natalense das Quintas

Quase sempre era madrugada

O menino Francisco jogava bola nos descampados do povoado de Currais Novos (não confundir com o município também seridoense), zona rural de Jardim do Seridó, e via pai e mãe labutarem no pedaço de chão seco que abrigava a família.

Penúltimo a nascer de sete irmãos, ele tinha 14 anos ao ganhar de um tio uma camisa do Botafogo.

Falamos de quase quatro décadas atrás, futebol nacional só no rádio, naquele trecho do Rio Grande do Norte encravado em uma das regiões mais áridas do Brasil, em franco processo de desertificação.

A dificuldade aumentara anos antes, com um acidente sofrido pelo pai, durante a fase em que rodar pelas estradas do país com mercadorias era o ganha pão familiar.

“Ele estourou a cabeça num acidente, estava sentado num pau de arara, entre a cabine e a carroceria, voltando de Brasília, pra onde tinha sido levado como escravo, para trabalhar pela passagem de volta. Quase morre. Ficou não sei quanto tempo em um hospital de Pirapora [Minas Geras], sozinho. Um tio meu que foi buscá-lo”.

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Dia de jogo das séries A e B lugar fica lotado; carne de sol na manteiga do sertão é preparada por Franc. Foto: Arquivo Pessoal

Aos 18 anos, sem perspectivas para incrementar o pirão, Francisco se muda para casa de uma tia em Natal – até hoje seus seis irmãos moram em Jardim do Seridó, enquanto pai e mãe estão vivos (com 90 e 86 anos, como reza a fama de o seridoense viver muito).

“Aí aqui foi que o povo passou a me chamar de Franc”.

Houve um estágio em Irecê, na Bahia, também como caminhoneiro, pois a curiosidade pelo mundo seduziu aquele jovem sertanejo.

Então o tio sossegou o facho, apostou em alugar um espaço e trabalhar com uma das principais culturas do Seridó: a gastronomia.

Franc sentiu que era uma ótima oportunidade para adquirir independência financeira.

“Quem entende de carne é o gaúcho. Aí uma vez, em Irecê, eu vi um gaúcho preparar uma carne cozida no leite e pensei: ‘Se isso ficou bom no leite, na manteiga do sertão pode ficar melhor ainda’. O cozinheiro aqui no Bar do Botafogo sou eu”.

Foram 19 anos ao lado do tio na Carne Assada do Valdemar, sempre com um olho na clientela e outro no televisor, em dia de jogo.

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Natural de Jardim do Seridó, município distante 225km da capital, Franc Jr. inaugurou Bar no dia 01 de maio de 2001, após trabalhar 19 anos no mesmo ponto com tio na Carne Assada do Valdemar; última vez em que viu um jogo com o pai foi a final de 2013, a de Clarence Seedorf

Aos poucos, surgiram pôsteres do alvinegro carioca na decoração do estabelecimento do parente torcedor do Fluminense, e conversas ‘boleiras’ com a clientela.

No dia 01 de maio de 2001, após a aposentadoria do tio, Franc assumiu a titularidade no recém-inaugurado Bar do Botafogo, agora uma casa temática, com poucos similares no Nordeste.

“Até meu tio questionava: ‘Não vai ninguém lá não’. Eu sou desportista, gosto de brincar e hoje é casa cheia aqui. Todo torcedor que vem aqui é bem recebido”.

Franc paga R$27,00 por mês como sócio do Fogão.

Com o valor, tem desconto em jogos nas capitais vizinhas e na aquisição de produtos oficiais do clube.

Ele destaca a camisa 10 usada por Paulinho Criciúma na final de 1989 como um dos principais itens de sua coleção.

“Quando terminou o jogo, ele jogou a camisa pra torcida e um cara pegou. Pois esse cara veio a Natal a passeio, viu o Bar e parou para conhecer. Era um cara do Rio. Ele se apaixonou pelo bar e fez amizade comigo. Ele me mandou a camisa pelo correio, junto com uma garrafa de champanhe”.

Coisas que só acontecem por quem é louco pelo Botafogo.

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Marinho Chagas batia ponto aos sábados e domingos no Bar do Botafogo, clube que o lateral esquerdo defendeu com sucesso na primeira metade dos anos 1970. Foto: Arquivo Pessoal

Ilustres visitantes

O maior deles, claro, foi Marinho Chagas.

“Todo domingo pela manhã ele vinha aqui. Quando não vinha no domingo, vinha no sábado à tarde. Ele só era ruim pra ele mesmo. Quando estava liso, bebia duas, três cerveja e ia embora. Quando estava com dinheiro, se chegasse aqui e tivesse dez mesas ocupadas, ele pagava a conta de todo mundo. A gente tinha uma ligação muito próxima. Foi uma perda tanto para o torcedor do Botafogo como para quem gosta do futebol”.

Um dos últimos episódios vividos por Franc ao lado do Marinho (1952-2014) foi em Recife, no jogo entre Botafogo e Fluminense (1×0).

Isso foi em julho de 2013.

“Ele disse que ia me botar no vestiário do Botafogo. Só que deu errado pra mim lá, viu? Porque a gente chegou pra entrar pro vestiário, os caras quando viram ele carregaram ele nos braços. Eu ia atrás dele, aí quando ia entrando os seguranças me barraram. Eu gritei: ‘Eu tô com ele, tô com ele’, mas nada dele olhar pra trás. Eu só queria tirar foto com o pessoal pra botar aqui”.

Mais tranquila, porém de lembrança lamentosa foi a vez em que o goleiro Wagner, o do titulo de 1995, esteve no Bar – localizado em um entroncamento de vias que levam às praias do litoral norte potiguar, nas imediações de Natal, como Genipabu, Jacumã e Muriú, bem perto da Urbana.

“Ele passou com um cara num bugre aí, parou e eu tirei um bocado de foto com ele, mas ficou numa máquina que me roubaram num assalto no Alecrim”.

O momento épico protagonizado por Wagner, Donizete e Túlio Maravilha foi transformado em marco na vida de Franc.

Sozinho, ainda funcionário do tio, ele viu a final do Brasileirão contra o Santos ajoelhado durante todo o segundo tempo, para terminar na praia do Meio ao som do hino do clube amado no carro de um amigo.

“O grande ídolo hoje pra mim é Jefferson. Tá ali porque quer. Ama o Botafogo. Vários times tentaram levar ele, mas pela emoção do coração ele quis ficar”.

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Goleiro Wagner, titular durante anos no Botafogo, inclusive no titulo brasileiro de 1995, passava de bugre ao ver Bar de Franc; fotografia do encontro ficou perdida em uma máquina roubada

Perder pra ninguém

Para muita gente boa, o futebol virou algo relacionado à violência, medo, perigos mil, com ares bélicos, sem controle do poder público.

“Eu mesmo não vou a um jogo entre ABC e América”, diz Franc.

Seja no estádio ou em uma mesa de bar, a paixão desenfreada pode terminar em tragédia, coisa que ele se orgulha de nunca ter acontecido no BB.

“Um vascaíno aqui, uma vez, quis complicar. Tava passando o jogo Botafogo x Flamengo e ele sem ter nada a ver começou a discutir com um flamenguista, até amigo meu. Foi preciso eu desligar a tevê e falar que todos eram bem vindos, mas para fazer confusão não. Pedi para ele se retirar, ir embora tirei meu amigo também. Hoje esse meu amigo agradece muito por ter feito isso, cortado o mal pela raiz. Porque a casa aqui é familiar. Estamos aqui pra brincar, não pra fazer confusão”.

Nas Quintas, dados da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análise Criminal (COINE), da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Estado, dão que 23 pessoas foram assassinadas em 2015.

É oitavo pior no ranking dos 36 bairros de Natal.

Ciente que o Botafogo deixou de ser time grande, estacionado como ‘tradicional’ (de rico passado, com muitos torcedores, forte apelo na mídia, mas sem brigar por títulos relevantes), Franc analisa o presente.

“Hoje a gente não conta mais quantos pontos o Botafogo fez. Eu já conto quantos faltam pra não cair. O Botafogo, como, em geral, o futebol brasileiro, caiu muito. A dificuldade financeira é grande. Qualquer jogador que fez três gols a gente pode esquecer que ele vai embora. A luta é grande. É jogo a jogo. Mas eu acredito que esse ano a gente não vai cair não”.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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