Bar do Louro & Bastinha Sururu

Croniketa da Burakera #46, por Ruben G Nunes

… é Bastinha ou não é…

éééééé´… então cûme cûme cûme que é?

quiripomba zepelin

canjerê com gergelin

aleguá guá guá

bambuê caxinguelê

imbaúba berimbau

é massa! é massa! é massa!…

chegou o sururu

da Bastinha bundaça!!!

 

… e tudo correndo frouxo, m’ermão… numa tardemansa em que o céu de Natal se reverberava num aglomerado de cores rosavermelhazul… dessas tardes de um fantástico pôr-do-sol do rio Potengi que… se alongando… e quase-cantando… ia mergulhando na vasta amplidão do mar. Rio e mar. Mar e rio. Atlântico e Potengi… abraços d’águas.

Dessas tardesmansa em que há músicas no ar e dentro de nós. E os passos dos deuses parecem ressoar no coração. Como uma comunhão do finitoinfinito. Um religare d’Alma com os Mistérios.

Dessas tardes, sabe, em que a garganta engasga por qualquer coisinha. Em que tudo flutua e a Vida s’enrosca, s’estica, no solo contínuo da incrível guitarra de Santana tocando o clássico Europa (link).

E você uiskflutua

Numa tarde aqui e agora.  Aquém e além.  Em que o Sol se deita entrecoxas da Noite toda-se-abrindo. Tarde em que teu espírito engancha-se-espalha na química mágica do mar, nuvens, gaivotas, praias, saudades, amores, boleros, motéis, cubas-libres…

Tudo emaranhado nos rodopios dos Tempos. Lembruxas lembruxando… línguas linguajando… E você uiskflutuando

Conversas…  conversas…  conversas… conversas.

Conversas de bar: partituras da VidaViva.

–  … quem vai casar mermo, mano?

–  Isso aí!… tá arriado os quatropneus por uma boyzinha…

– Boyzinha?  Olhaí, cara… acabou contigo…

–  … boyzinha é teu boga fulêro!

–  …  vai te reá não!

–  … vai mais uma cerva?

–  … tâmos aí!!!…

Bar do Lourival, Natal, RN, Brasil-Esquina. No vídeo-mental corre o final dos anos 70. PereiraPedro, professor de filosofia, tomaumas e desfilosofa, com amigos.

Cigarrando. Cervejando. Ir mijar.

Enchendo o copo da santa cerva, agora… espumadinha, espumadinha. Por via da dúvidas, PereiraPedro deu um gole pros caboclos. Sacumé, mano, ninguém sabe se eles estão de olho-olhudo pra cima da gente. Ninguém sabe…

A não ser pelos caminhos da fé.

Mas PereiraPedro já tinha perdido a fé nas esquinas da vida. E nos textos fiosofeiros. Todavia gostava das atmosferas silentes das igrejas. E sempre que uiskmeditava pensava nesses enredos de sentido da Vida.

Sentir a Vida vivendo.

Qual o sentido de tudo isso, diante do Infinito? Ou o sentido é não ter sentido. Eis o que sempre concluía no terceiro gole do terceiro uisk.

O Bar do Louro vivia.

As pessoas gesticonversavam.  Gestibebiam. Aqui e ali uma frase solta, mais alta, um riso, gritos. Barulhos de bar numa tarde poente ainda espreguiçando-se-avermelhando horizonte afora.

Copos e bocas se tocando se tocando se tocando… bocas, olhos, mãos, tocando-se-falando, falando-se-tocando… nesses lentos e antigos gestos e sons de todos os bares, em todos as tardes, em todas as noites, em todo o mundo… algazarras, borborinhos, olhos brilhando, tragos de cerva, gargalhadas… ei garçon!… digaí chefia!… outra cerva, mago…

Num repente, por entre as mesas na calçada vai passopassando, ligeirinha, Sebastiana, vendedora de sururu.

Velhusca, gorduchenta, pernas grossas, ancas largonas, desdentada, cabelos enbranquiçando amarrado em coque, rosto cor de pergaminho. Rosto de muitas rugas, pelancas e vidas.

Duas coisas sobressaíam naquela velhice massuda e bizarra: os olhos ainda vivos e a bunda ainda carnuda. Bundabundona, a dela. Dessas que andam sozinhas, e grudam nos olhos, com balançantes movimentos desencontrados. Estrambótica sensualidade. Bunda que tinha, segundo alguns, muitos quilômetros dados e rodados, muitas estórias picantes e empicadas. E que, segundo outros, ainda rodava pelas quebradas nos cios de bêbados a perigo.

– Bastinha! Ô Bastinha… conta pra gente como foi aquela do Coronel…

Quando moça, Sebastiana tinha trabalhado na casa dum Coronel aposentado que, segundo ela, passava todas as empregadas.

– Conta Bastinha, conta como foi!

Sebastiana fazia um certo suspense enquanto recolhia todos os cigarros que podia. Era o pagamento costumeiro pelo bizarro e repetido causo.

Depois, com aqueles olhos vivos e meneando bem o traseiro treinado nos amassos de cada dia, ia contando a meia voz aguda e espetaculosa como o patrão-coronel dela, quase todo-dia, quando a patroa dele saia para pegar os netos na escola, ele, o patrão, com aquela careca redonda e aquele bigode branco e cheio, costumava enfiar cara, língua e tudo mais em sua, dela, bundona:

–  Coroné Zurmiro me danava a língua no rabo!… e a língua dele mais parecia uma lixa, e olhe, é mais forte que folha de cajueiro brabo, simsinhô!

– E você gostava, ein Bastinha, diz aí?

Iiiiche, seo Pedro, eu sentia era um troço esquisito subindo pelos meus quartos acima… meu cu ficava piscando e eu me reava era toda. Iiiiche… era umas coisas de gemedeira que me dava, simsinhô!

E a casquinante dela risada de bruxa velha bunduda, sem dentes, se fundia com nossos cervejantes-risos, fixando uma eco-imagem eterna nos sons das tardes de sábado do Bar do Lourival, Natal, Brasil-Esquina.

… e tudo correndo frouxo, m’ermão…


Ilustração: blog Daniel Marinho

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