Barthes, crítica e repetição

Por José Castello
LITERATURA NA POLTRONA

O escritor francês Alain Robbe-Grillet considerava “Fragmentos de um discurso amoroso”, um dos mais importantes estudos críticos de Roland Barthes (foto), não um livro teórico, mas “o romance de Barthes”. A idéia dissonante, mas corajosa, de Robbe-Grillet me é devolvida por Leda Tenório da Motta, em “Roland Barthes: uma biografia intelectual” (Iluminuras), livro de que já tratei em minha coluna semanal no Prosa & Verso. Uma idéia cuja potência não se desgasta e que vale a pena repetir.

Repetir para descobrir: eis uma idéia rica demais para que eu a desperdice. Escritor de grande força experimental, Robbe-Grillet conhecia muito bem a fragilidade dos limites entre os gêneros literários. A fraqueza da repetição impensada de cânones, de escolas, de estilos. O fracasso das certezas. Recordo que, há muitos anos, quando li “Fragmentos de um discurso amoroso”, e sem conhecer a opinião do romancista francês, pensei que se tratava, na verdade, não de um romance, mas de um poema. A Leda, para quem talvez só “os poetas entendem Roland Barthes”, também não escapa esse vínculo.

A crítica é, ela também, um gênero literário. Diz Leda, serena: “A operação do crítico diante do livro é a mesma do escritor diante do mundo: a operação de desdobrá-lo em sentidos”. Sempre penso em uma governanta de hotel que, na solidão do quarto de hóspedes, pega uma colcha jogada ao chão, a puxa para o colo e a desdobra, devagar, sobre a cama. Em segundos, o que era um entulho se transforma em um objeto de decoração.

A literatura, evidentemente, não tem relação alguma com a decoração. O crítico, “se ele ainda existe”, como a própria Leda assinala, não é mais aquele policial que, de posse de cânones, regras e aparatos teóricos, mensura, diagnostica e classifica uma ficção. Não é mais um homem severo, de terno preto e bloco nas mãos que, como um detetive, investiga um livro como se a literatura fosse um crime.

O crítico também não é, como dizia Balzac, não pode ser mais, “o Jovem Crítico Louro”, criatura dos salões literários, de espírito purista (por isso, “louro”, embora possa ser moreno) que, como observou o romancista francês, se notabiliza por ser “um moralista, um negador”. E cujo axioma, acrescenta Balzac, seria: “A crítica hoje só serve para fazer viver a crítica”. Isto é, não passa de um ganha pão, de um ofício como qualquer outro. Por que não fazer, então, publicidade, ou jogar na Bolsa?

Um atordoamento se instala: o crítico não é mais isso, não é mais aquilo. Contudo, alguma coisa na postura crítica ainda se repete. A própria literatura incorporou a crítica _ escritores costumam ser os melhores leitores das ficções e poemas de seus contemporâneos. Por fim, esteja onde estiver _ na universidade, na imprensa, na ficção _ ela é, sobretudo, um treinamento do olhar.

Uma repetição _ como novo olhar sobre coisas antigas _ lançado sobre o passado literário, seja ele recente (o lançamento de ontem!), ou longínquo (o clássico medieval). Escreveu Barthes em “Crítica e verdade”, Leda nos lembra: “Não há nada de surpreendente em que um país retome assim periodicamente os objetos de seu passadoe os descreva de novo para saber o que fazer deles”.

É algo que se assemelha à inspeção distraída, mas dura, que, toda manhã, fazemos de nós mesmos diante do espelho. O sujeito que fui hoje pela manhã é um pouco diferente do que serei amanhã de manhã. E diferente também do que fui ontem, e anteontem, etc. A vida se caracteriza por essas inspeções rápidas, mas cruciais, sem as quais não conseguiríamos fazer a barba, espremer uma espinha, ou concluir que está na hora de visitar o cabeleireiro. São pequenos gestos que se repetem, gestos mínimos, quase imperceptíveis. Mas é dessa repetição que a mudança, enfim, nasce.

Do mesmo modo, a cada leitura, as ficções e os poemas passam por novos crivos e novas avaliações, por novas paixões. Brevíssimos deslocamentos, mínimas alterações se passam na mente de cada leitor; mas é no acúmulo desses movimentos que um livro se mantém vivo. Há, portanto, uma força na repetição que, por se repetir, deixa de repetição ser _ já que as coisas nunca são iguais, ou seja, nunca se repetem. Inferno da linguagem! Também os leitores não são jamais os mesmos. O “Quincas Borba” que li no mês passado não é (embora seja sim) o mesmo “Quincas Borba” que reli há dois anos.

A repetição se torna, assim, um elemento crucial no treinamento do olhar crítico. É preciso repetir e repetir, reler e reler, repensar e repensar, até que um dia, em um tranco inesperado _ como uma cotovelada que levamos em plena avenida _, algo muda de lugar. Um quase nada, muito pouco coisa, muito pouco mesmo. Mas que, na estrutura geral do edifício crítico, fará uma enorme diferença.

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