Bartolomeu Correia de Melo

Por Eduardo Gosson *

Bartolomeu habitou entre nós por 66 anos e fez-se Verbo: a sua palavra era tiro certeiro a criar belezas espirituais. Conheci-o na maturidade, ganhador de diversos prêmios literários. Soube que era formado na antiga Faculdade de Farmácia. Foi contemporâneo do meu tio, Francisco Gosson, que posteriormente veio a ser professor na mesma. Enveredou longo tempo pelo conhecimento científico sendo professor de Quimíca. Mas a menina dos seus olhos era a Literatura. E que era irmão do poeta Paulo de Tarso. E que teve uma Verônica por toda a vida a enxugar-lhe as lágrimas.

Contudo, o que mais me chamou atenção em Bartola era a perfeita harmonia entre criador e criatura. Geralmente, na seara literária, a criatura é terrível: grandes escritores, cidadãos nota zero. Bartola, não. Desde a reorganização da União Brasileira de Escritores em 2006, que Bartola vinha colaborando ativamente: dos III Encontros de Escritores participou de dois, atuou em comissões, colaborava com o site da entidade, abastecendo-o com matérias; apoiou Campanhas desenvolvidas pela UBE/RN, como a que foi lançada no final do ano passado “Campanha de Valorização do Autor Potiguar”. Veja a Carta que Bartola escreveu para Públio José, idealizador da campanha:

“Natal, 2011 / janeiro, 14.

Prezado Públio José:

Não sei se bem lembra, mas fomos apresentados quando do lançamento da

meritória campanha de divulgação natalina do livro, por você gestada e

gerenciada. Eu sou aquele velhote alto, magro mas barrigudo, portador

de óculos e bengala. Aliás, dentro da minha memória já também

claudicante, restou aquela vaga impressão de conhecê-lo de algum

passado lugar.

Parabéns pela iniciativa. Infelizmente, não posso congratular-me pelo

pleno sucesso da mesma. Afinal, ainda não recebi retorno algum quanto

aos resultados dessa campanha. Não falemos dos poucos leitores, mas

dos muitos escritores potiguares.

Sou um velho inválido, em processo de desincompatibilização com as

alegrias da vida, mas não amargo por isso. Sou consciente que, pelo

menos em teoria, diante das grandes verdades, calam as pequenas

hipocrisias. Portanto, assim não lhe escrevendo por rabugice, lhe

direi que por antiga e amarelecida esperança.

Sinceramente, aquela bem conformada mas – digo eu – inócua solenidade

de abertura jogou água fria nas minhas expectativas. Ali esperava uma

pauta menos formal e mais pragmática e detalhista, na qual fossem

dissecados problemas e entraves para, devidamente debatidas as

estratégias, pela troca de vivências entre escritores, livreiros,

editores, jornalistas e publicitários, fossem otimizadas e terminadas

as linhas de ação previamente elencadas pelos idealizadores da

campanha. Mas constatei que, com minhas dificuldades de limitação

física, comparecera para apenas escutar falas, nem todas objetivas e

adequadas ao evento, apesar da representatividade dos oradores. Com

boca de escritor ou marqueteiro, nenhum, mais explícitamente, se

pronunciou.

Ora, a realidade da literatura da nossa província (que parece ainda

pousada nos nostálgicos louros de Cascudo) foi bem tangenciada pelo

seu oportuno escrito. Mas existem ainda alguns aspectos que gostaria

de lhe detalhar ou mesmo provocar. Como não sou publicitário, advirto

que muita coisa será dita de modo confuso ou mesmo inoportuno. Até lhe

pediria generosidade no julgamento e paciência na garimpagem de alguma

idéia aproveitável em meio aos malrascunhos que lhe apresento.

Quem efetiva a divulgação e a distribuição de qualquer literatura é a

comercialização, que é diretamente proporcional à qualidade real ou

aparente daquilo vendido. Ora, depois que apareceu computador, todo

mundo virou escritor, inclusive este que isto lhe escreve. Além do

que, com o barateamento dos produtos e serviços gráficos ficou

bastante acessível editar livros às próprias custas. Se antes, no

tempo do patrocínio por órgãos públicos, bastava ter um amigo no lugar

certo, agora, basta poder bancar a impressão da ?obra?. Nisso, o

principal filtro de qualidade, o julgamento da ventabilidade, feito

pelo interesse comercial da editora, deixa de existir. Convenha que,

se antes havia um dois ou três lançamentos mensais, agora, são oito ou

dez semanais. Como você infere, os amigos que arquem com os custos a

baixa qualidade… Na primeira conclusão, o escritor paroquial pouco

vende porque, na maior parte dos mesmos, pouca é a qualidade oferecida,

ou mesmo imposta, aos parcos leitores.

Se bem que havemos, a duras penas, escapado daquela realidade

provinciana, onde apenas um restrito grupo de intelectuais (geralmente

poetas beletristas) escrevia, com pequeninas tiragens. O primeiro

publicava, o segundo elogiava, o terceiro criticava… E então vinha o

rodízio: o segundo publicava o terceiro elogiava o primeiro

criticava… Técnico ou cientista era visto como curioso ou maluco,

nunca como intelectual. No máximo escrevia apostilinhas ou, mais

recentemente depois, adaptava e imprimia teses acadêmicas, nem sempre

palatáveis ou digeríveis. Enfim, uma confraria de egos que se

retroalimentavam, isolados em academias. Apesar disso – basta

verificar quantos restaram realmente imortais e conhecidos além

fronteiras potiguares – havia um percentual de aproveitamento bem mais

significativo.

Na segunda conclusão, muitos são os impressos, pouquíssimos os

escolhidos. Há que se divulgar os bons escritores, resgatando-os do

oceano de mediocridade. Quem compraria uma carrada de frutas na qual

nove décimos são bichadas? Um elementar critério de qualidade

indiretamente levantado por você, seria baseado na questão: Tal

escritor natalense tem nome lembrado em Recife, Fortaleza ou, pelo

menos, em Caicó ou Mossoró? A quantas reedições chegaram seus livros?

Para um incremento de consumo, surge a necessidade da figura do agente

literário. Aquele profissional que caça talentos e os empresaria, como

se faz com artistas e esportistas, agenciando-lhes pelo menos um

contrato com uma editora propriamente dita (aquela que compra ou aluga

os direitos autorais). Enquanto a produção, divulgação e

comercialização não saírem do amadorismo, não existirá literatura bem

vendida, isto é, lucrativa.

Escritor de verdade não é pra sair de livraria em livraria, tentando

colocar seus livros nem implorando que órgãos culturais os adquiram

para bibliotecas descartáveis. Estando no Brasil, não iria enriquecer

com literatura, mas teria o suporte da sua editora para publicar,

lançar, divulgar, distribuir e vender; ao mesmo apenas restando

receber direitos autorais e escrever novos livros. Mas para atingir

essa condição necessita antes de tudo competência. Do agente, do

editor, do livreiro e, principalmente, do escritor. A qualidade desse

conjunto será aferida pelo número de edições comercializadas.

E aqui vai a última conclusão: Se, até então, apenas meia dúzia de

escritores potiguares (quase todos no sudeste) atingiu este estágio,

há muito ainda o que fazer pelas boas letras da terrinha. Sua

iniciativa, por tão louvável e necessária não deve ser desestimulada,

mas sim repensada, reforçada, repetida com o máximo e devido apoio,

coisa mesmo de mutirão. É tarefa de abnegação a médio prazo, trabalho

em equipe, sem solenidades, apesar das muitas invejas e enormes

vaidades.

E nisso lhe credito minhas quase derradeiras forças.

Um abraço respeitoso.

Bartolomeu Correia de Melo.”

É esse o Bartola que todos nós devemos reverenciar: combativo e íntegro. Com certeza o amigo foi recebido com muita alegria na Nova Jerusalém e agora pode contemplar bem de perto a resplandecente estrela da manhã.

* Presidente da União Brasileira de Escritores – UBE/RN

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