Basta de impunidade

Mensagem do escritor Agassiz Almeida à Presidente Cristina Kirchner:

No dia 30 de abril, desaba sobre a nação portenha esta trágica notícia: tombava na bucólica cidade de Santos Lugares, Argentina, Ernesto Sábato, pensador que encheu o século XX com grandeza. Ele soube construir com a sua consagrada obra literária, destacadamente Nunca Mais, um monumento de indignação e verdade, diante da devastação sinistra que assolou os povos latino-americanos pela tirania militar, na última metade do século passado .

Foi um homem cercado de uma mística para qual confluiu o escritor universal e a tempera de um revolucionário, e assim, com altivez, ele arrostou o ódio e a ira dos torturadores e genocidas.

Tudo em Ernesto Sábato carregava-se de um altaneiro sentimento do mundo. Nunca se curvou ante a sabugisse dos medíocres e lacaios.

Olhou a vida numa visão ao mesmo tempo pessoal e social, em que vislumbrava no homem os seus grandes instantes diante da existência, relevando, por outro lado os seus momentos de pequenez.

Convocado em 1983, pelas forças democráticas a mergulhar nos porões trevosos da ditadura militar argentina, a fim de desvendar os delitos de lesa-humanidade, praticados por tipos sórdidos, Ernesto Sábato, com descortino e coragem, ofereceu à história dos povos uma “ bíblia” de dor e verdade, em cujas páginas desfilam vultos deformados e trágicos horrores desconhecidos nos anais dos tempos, dentre os quais 30 mil mortos tragados no desaparecimento.

Quadro sinistro de inominável monstruosidade.

Ernesto Sábato, podemos dizer, foi um “filho do destino” numa hora melancólica da pátria grande, a América Latina.

Pensador universal e um homem das circunstâncias frente às quais desafiou os réprobos. Ele se fez catalisador dos momentos de angustia e sofrimento do seu povo; hora tão alta na qual se plasma os destinos das nacionalidades.

Estenda este soluço de dor a toda América Latina, que perde um vulto da dimensão de Ernesto Sábato, cuja vida foi marcada por uma constante luta em defesa dos direitos humanos. Enquanto em todos os países, os torturadores e genocidas são chamados às barras dos tribunais e condenados, destacadamente os próprios ditadores, no Brasil ao que se assiste? O desfile insolente da impunidade satisfeita e até ameaçadora.

Ao encerrar esta mensagem, rememoro certa tarde de outubro de 1984, em Buenos Aires, quando me encontrei com Ernesto Sábato, personalidade cuja envergadura sabia imprimir destinos aos homens. De suas mãos, recebi esta obra potentosa contra a tirania fardada,- “Nunca Mais”. Assim ele me falou: “A liberdade está dentro de nós. Escravo é aquele que tem a alma de lacaio. Não podemos pelo silencio ou omissão, ser cúmplices dos genocidas e torturadores dos povos sul-americanos. Basta de impunidade.” Ao ouvir estas palavras, nascia o livro para o qual dediquei anos e anos de estudos e pesquisas, – “ A Ditadura dos generais”.

Nas mãos de Vossa Excelência esta mensagem, extensiva ao povo argentino.

Saudações latino – americanas

Agassiz Almeida

Agassiz Almeida, deputado constituinte de 1988- Escritor do grupo Editorial Record. Autor destes clássicos de literatura brasileira – “A República das elites” “A Ditadura dos generais” . Participou de congressos mundiais em defesa dos Direitos Humanos. Promotor de Justiça aposentado.

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