Batismo de fogo

Por José Castello
O GLOBO

Contar uma vida, resumi-la, explicá-la — será isso possível? É o esforço que faz Ignácio Cañas, o protagonista de “As leis da fronteira”, livro do espanhol Javier Cercas (Globo Livros/ Biblioteca Azul, tradução de Josely Vianna Baptista).

O romance é narrado como uma série de entrevistas, não apenas com Cañas, o principal informante. Pedaços se costuram precariamente. Vozes buscam um fio que as ligue. Tudo no esforço de dar vida a Zarco, um marginal cheio de glamour a quem Cañas conheceu, e de cuja luta insensata se aproximou, em1978, três anos apenas após a morte do general Franco. As aventuras de Zarco, um mito da marginalidade, se passam em Girona, na Catalunha. Ele é um “charnego”, apelido dado aos emigrantes vindos do interior do território. A essa altura, Girona é uma cidade cercada por um mundo marginal.

Uma fronteira imaginária separa suas duas

partes. Quando conhece Zarco em um fliperama,

Cañas é só um adolescente de classe média,

tímido e inquieto, massacrado pela brutalidade

dos companheiros de escola. Procura um

esconderijo, encontra-o na figura do herói marginal

— repetindo um fascínio pela margem que

marcará parte importante da juventude da segunda

metade do século XX.

 

Trinta anos depois, um escritor colhe material

para um livro sobre o mito de Zarco. Cañas se

torna seu principal informante. No fliperama

em que ele e seu anti-herói se conheceram, a

máquina de pinball preferida de Cañas era dedicada

ao herói Rocky Balboa. Zarco e a garota, Tere,

o expulsam do jogo. Naquele primeiro gesto

brusco, contudo, surge uma aliança. Passa a frequentar

o Bairro Chinês, que não era exatamente

um reduto da comunidade de migrantes da

China, era mais uma espécie de “boca do lixo”.

Ainda tenta resistir trabalhando numa mercearia,

mas quando dá por si está totalmente envolvido

pelo mundo sujo de Zarco.

 

“A história que vou lhe contar não é a do Zarco,

mas a de minha relação com o Zarco”, ele adverte

seu entrevistador. Começa a se traçar, assim, um

retrato torto do herói marginal, uma espécie de retrato

lateral, marginal ele também. Javier Cercas, o

escritor real, sabe que também a literatura transcorre

numa oscilação entre o centro e a margem,

entre a verdade oficial e as verdades submersas, e

que é dessa inconstância que

ela tira sua riqueza. Quanto

mais paradoxal, mais inquieta

uma narrativa, mais rica ela será.

 

Cercas é mestre na arte da

quebra de fronteiras e este romance

é mais uma prova disso.

Conforme se aproxima de Zarco,

Cañas — que em sua entrada

na gangue será apelidado de

Quatro Olhos — passa a sentir

rancor profundo contra os pais.

Renega sua classe social para viver

um sonho — doloroso, mas intenso — de

transfiguração. Sua admiração por Zarco é uma

mistura explosiva de fascínio e dúvida. A gangue

rouba carros, assalta casas vazias, pratica pequenos

furtos. “Ali começou o perigo de verdade”,

Cañas resume. Quando participa pela primeira

vez do roubo de chalé, experimenta seu batismo

de fogo. Queima-se — com entusiasmo e medo,

espanto e excitação — no mundo da margem. Toca

o outro lado. Aquele que não é previsto pelo

script de sua vida de rapaz de classe média. Entende

que entrou em um caminho sem volta.

 

Os objetos furtados vão para receptadores. Uma

rede sombria passa a envolvê-los. Não usam drogas

pesadas, apenas maconha.

Conservam certos limites que,

no entanto, não servem para garantir

coisa alguma. A seu entrevistador,

30 anos depois, Cañas

nega que Zarco fosse idealizado

e assegura que aceitou dar um

depoimento só para destruir seu

mito. Mas admite que terminou

sendo o primeiro a idealizá-lo.

Quanto mais confessa, quanto

mais abre suas memórias, mais

se afunda nas próprias palavras.

 

Conhecida como Liang Shan Po — nome tomado

de empréstimo de um seriado de TV, uma versão

oriental de Robin Hood —, a gangue de Zarco está,

sim, desde o início, encoberta por lendas.

Cañas se torna, ele também, mais uma lenda.

Na versão policial, Zarco é não só um dos símbolos

da delinquência juvenil, mas o “viciado oficial”

da Espanha. Já Cañas seria apenas “um

adolescente de classe média dando um passeio

pelo lado selvagem”. Com o avançar das páginas,

o contraste de versões ao mesmo tempo clareia e

borra o retrato de Zarco. Quanto mais a verdade

se adensa, mais ela mostra, mas também mais

esconde. A polícia começou a perseguir a gangue

de Zarco ainda sem saber o que perseguia. A

margem é fluida e obscura, nelas os personagens

surgem de repente e desaparecem logo depois.

 

Mais complexo que seu anti-herói, Cañas

luta para sobreviver em uma vida dupla, entre a

marginalidade e o convencional, entre o crime e

a lei. Perdido, debatendo-se para cá e para lá,

torna-se um personagem tão rico quanto Zarco.

A gangue é guiada pelo improviso e pelos impulsos

de Zarco — e é isso que traça sua decadência.

Mais tarde, Zarco se tornará um herói da

mídia, assinará biografias e terá até filmes sobre

sua vida. O que nele tanto fascina? Não é a certeza,

mas a incerteza. Como seu anti-herói, também

Cañas é um personagem de alma dividida.

É esta divisão e o abismo que ela descerra que

torna os dois personagens tão fascinantes. Estruturado

como uma busca inconstante, e não

como um romance com início, meio e fim, também

o livro de Javier Cercas guarda o mesmo estilo

escorregadio que marca a vida marginal. O

último golpe da gangue, improvisado e patético,

é um fracasso. Tudo isso, em vez de obscurecer,

engrandece o mito de Zarco e dos seus.

 

O destino do jovem Cañas será traçado por um

policial, o inspetor Cuenca, e por seu próprio

pai. Um círculo se fecha — ou um futuro imprevisto

se abre. O romance de Cercas trata da construção

dos mitos, que podem ser feitos de materiais

imprevisíveis e representar sentimentos

improváveis. Em nosso mundo cada vez mais caracterizado

pela turbulência e pela mistura, a

margem está, a cada dia, mais quebrada, mais

difusa e mais próxima. Uma pergunta parece definir

nossos dias: “Onde estou?” No fundo, carregamos

a margem dentro do peito como uma espécie

sinistra de destino.

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