Batizando personagens

Foto: Harsha K R

Por Raphael Montes
BLOG DA COMPANHIA

Ao pensar no projeto de um romance ou conto, um dos meus maiores desafios é escolher os nomes dos personagens, desde o protagonista até aquele que só aparece em uma ou outra página. Ao leitor imerso na história, talvez pareça que a decisão de nomes é aleatória ou intuitiva. No meu caso (e acredito que para a maior parte dos escritores), o batismo dos personagens é calculado, meticuloso e racional.

Na literatura, assim como na vida, vale a máxima: “a primeira impressão é a que fica”. Se pensarmos bem, o nome de uma pessoa é uma das primeiras coisas que sabemos sobre ela. Assim, é natural que nomes afetem nossa impressão inicial sobre as pessoas (incluindo as ficcionais). Por isso, o escritor pode fazer uso do nome do personagem para seduzir ou impressionar o leitor como deseja. Em geral, nomes trazem muitas informações, como bagagem familiar, personalidade, idade e etnia. Naturalmente, um personagem chamado Scott ou James deve ser americano ou inglês, enquanto um Hernández supõe-se espanhol e um Cláudio, brasileiro. Mirtes, Dulcina e Agenor são nomes característicos de pessoas mais velhas, enquanto Sofia e Raphael são nomes de pessoas mais novas, pois se tornaram populares nas últimas décadas.

Todo nome traz uma carga consigo, uma série de links que o leitor faz automaticamente ao se deparar com aquela informação. Particularmente, sigo uma série de requisitos para eleger os nomes de meus personagens. Evito, num mesmo livro, nomes de sonoridade parecida ou de origem comum. Gosto de nomes pequenos, mas chamativos e fáceis de memorizar, como Otto e Noel. Costumo usar também nomes grandes que possuem apelido menor, como Alessandro (Alê) e Teodoro (Téo). Mantenho uma lista de nomes num caderno. Sempre que ouço algum de sonoridade interessante, anoto para usar em livros futuros. Quando sou apresentado a alguém, costumo brincar: “saiba que é possível que eu use seu nome em um dos meus livros”. É o risco que se corre ao conhecer pessoalmente um escritor.

Em Suicidas havia mais de 20 personagens, de modo que tive todo um cuidado de escolher nomes fortes, que fixassem na mente do leitor, e que não fossem muito parecidos entre si. Todos os sobrenomes do livro são de amigos ou de pessoas conhecidas.

Já em Dias perfeitos, a escolha de nomes teve mais a ver com significados. Na história, Teodoro (Téo) é um jovem estudante de medicina, muito sério e metódico, que fica obcecado por Clarice, uma menina de espírito livre e mais espontânea. Teodoro é um nome forte, sóbrio. E significa “presente de Deus”, aquele que tem “muita paixão e amor para dar”. Tinha tudo a ver com um personagem que fica obsessivamente apaixonado por uma mulher. Já o nome “Clarice” traz essa noção de clareza, de luz. De certo modo, ela ilumina a vida de Téo, ainda que as consequências dessa relação sejam trágicas. O sobrenome de Clarice é “Manhães”. Também tem essa carga de “amanhecer”, de “trazer o dia”. Além disso, Clarice é um nome que resgata sentimentos e impressões do leitor brasileiro graças a Clarice Lispector. Propositadamente, a personagem Clarice tem algumas poucas nuances e características da Clarice Lispector. É tudo muito sutil, funcionou mais como uma brincadeira da minha parte.

Por fim, preciso confessar (mesmo contrariado), há nomes que simplesmente surgem. Em Suicidas, a primeira palavra do livro é “Cyrille”, o nome da casa de campo de uma família milionária. Em Dias perfeitos, a palavra que abre o livro é “Gertrudes”. São nomes fortes, atípicos, que causam estranhamento no leitor. Essa escolha não dependeu de mim. Gertrudes veio e me disse: “meu nome é esse e nenhum outro”. Eu apenas respeitei.

Sou supersticioso e uma das minhas várias manias é sempre começar meus livros com um nome próprio. Mas essa coisa de manias e superstições entre escritores é muito comum; o assunto rende. Melhor ficar para a próxima coluna…

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery Magazine. Suicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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