Bauman e os escritores

Por José Castello
O GLOBO

Laços secretos unem a literatura à sociologia. Irmãs muito próximas, elas têm, porém, uma relação muito difícil. “Sua relação é uma mistura de rivalidade com apoio mútuo”, diz o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A afirmação aparece em “Para que serve a sociologia?” (Zahar), longo diálogo entre Bauman e os sociólogos Michael Hviid Jacobsen, da Universidade de Aalborg, Dinamarca, e seu colega Keith Tester, professor da Universidade de Hull, Inglaterra. Sou pego de surpresa: em algumas páginas, e apesar do título do livro, o sociólogo trata intensamente da literatura. Não esconde sua paixão pelas ficções e a segunda verdade que elas sustentam. E mostra como ela alimenta seu processo de trabalho pessoal.

Pensem em autores tão diversos como Balzac, Dostoievski, Zola e Kafka. Sem se valer de sistemas conceituais, ou de armaduras teóricas, suas narrativas, ainda assim, compõem eloqüentes visões de nosso mundo. Bauman se apega a outros autores ainda mais surpreendentes: Borges, Perec, Musil, Houellebecq. Por caminhos distintos, todos eles rasgam a grossa cortina com a qual, quase sempre – por descaso, por vício, por preguiça _, encobrimos a realidade. Apóia-se Bauman na leitura de “A cortina” (Companhia das Letras, 2006), o belo livro de Milan Kundera. Justifica essa escolha: “Kundera propõe que o ato de romper a cortina dos prejulgamentos foi o instante de nascimento da arte moderna”. Pode marcar, igualmente, o renascimento da sociologia.

Se a literatura nasce de um rasgão, a sociologia _ pelo menos aquela que Bauman pratica e aprecia _ nasce (ou deve nascer) também. Para defender sua tese, ele rememora as palavras de Kundera a respeito de Miguel de Cervantes: “Uma cortina mágica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina”. Com o “Quixote”, o mundo se expõe em toda a sua nudez. Os prejulgamentos desmoronam, deixando à mostra a bruta realidade das coisas. Daí, diz Bauman, a importância de valorizar os “gestos destrutivos” dos romancistas. Mais do que uma construção, a literatura é um trabalho de desconstrução. De aniquilamento do óbvio. Ao romper a cortina mágica do consenso, os escritores “colocam em movimento o trabalho infindável da reinterpretação”. Alerta Bauman: essa não é, porém, uma tarefa que se deve esperar só da literatura. “Realmente creio que é por fazer ou deixar de fazer esse trabalho que a sociologia deve ser avaliada”.

Reafirma Bauman, ainda assim, que “escrever um romance não é o mesmo que escrever sociologia”. São, em vários sentidos _ que incluem a técnica, os princípios conceituais e os métodos _ atividades absolutamente distintas. Mas o desejo de puxar a cortina para descobrir o que ela esconde as aproxima. Se praticadas sem apego a dogmas e sem medo de errar, elas guardam a mesma posição de ruptura e coragem. “Elas têm pais comuns, apresentam uma inegável semelhança familiar, servem mutuamente como pontos de referência”. Tanto a sociologia como a literatura, Bauman prossegue, podem servir como padrões através dos quais medimos o sucesso ou o fracasso de nossas buscas existenciais. Dizendo de outra forma: se praticadas com liberdade, ambas têm (ou devem ter) o homem como fim.

Curioso que os jovens escritores _ provavelmente copiando o que fazem os jovens sociólogos _ estão sempre em busca de mandamentos que sustentem sua escrita. Esquecem-se de que o padrão (o parâmetro) não é um fim em si, mas apenas um meio. O fim deve ser sempre o homem e apenas ele. Recorda Bauman que os grandes escritores procuram “a verdade da vida real”, e não a “verdade absoluta”. Por isso, tanto eles quanto os sociólogos devem, em vez de visar o acerto e a perfeição, se expor a riscos e reconhecer a oscilação inerente ao conhecimento. Para isso, devem estimular em si mesmos o desejo de “aprender sobre as alternativas que permanecem inexploradas, desprezadas, negligenciadas ou ocultas de sua vista”.

Tanto os romancistas quanto os sociólogos se parecem com os detetives. Estão muito distantes, contudo, da figura dos detetives clássicos, à moda do Poirot, de Agatha Christie. Aqueles que, ao fim da história, reúnem os personagens para lhes explicar, ponto a ponto, “tudo o que aconteceu”. Tanto a literatura, quanto a sociologia deveriam saber que não existe essa verdade pronta, feita de paralelos e de encaixes, que o método de Poirot expressa tão bem. Essa verdade impecável que, como um paraíso, nos esperaria ao final da interpretação.

Afirma Bauman – pensando nos sociólogos, mas isso serve também para os escritores _ que não é possível trabalhar bem sem correr grandes riscos. E sem se desviar dos preconceitos. Adverte: “O fracasso nessa vocação deixa apenas uma alternativa: uma oferta aos administradores de ajudá-los a tornar dóceis os administrados mediante sua desumanização”. Posição que ele define como “uma oferta tão fraudulenta quanto abominável”. Também os escritores, se pretendem apenas cumprir regras e agradar a agentes externos, nada mais fazem do que desumanizar seu ofício. Nesse caso, eles o esvaziam do que ele tem de mais contundente: o poder de arrancar os véus das superstições (mesmo as “científicas”) para chegar à grande desordem do humano.

A esse respeito, ele recorda as palavras do cientista social dinamarquês Torben Berg Sorensen, um grande leitor de Kafka, em cuja obra ele encontra pistas para estudar o sistema judicial. Diz Sorensen, citado por Bauman: “A literatura nos permite seguir as pessoas a partir de dentro, enquanto ela está agindo”. Não se preocupa, portanto, com um mundo “em tese”, mas com os desordenados eventos do real. Prossegue Sorensen: “Por isso, a literatura cria um conhecimento que não se encaixa em esquemas de pensamentos existentes. Ela suscita problemas e faz perguntas sobre o que existe”. Ficções são, por definição, intermináveis. Também a sociologia, nos mostra Bauman, deveria ser praticada não como uma ciência “de resultados”, mas como um trabalho sem fim. O homem está em contínuo e perpétuo movimento e tudo o que sociologia e literatura podem fazer é correr atrás dele.

(Texto publicado no suplemento “Prosa”, de O GLOBO, no sábado 21/02/

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezenove + onze =

ao topo