Beats do Walter

Fotografia: Rudá de Melo

Nos chegam duas impressões, após o mergulho nas beats do músico e produtor natalense Walter Nazário: elas traduziram bem uma espécie de ‘sentimento pandêmico’, de que todos estão em busca Daquela Greia e preocupados com o que tem acontecido nos últimos meses.  

O experimentalismo com música e imagens que ele condensou em produções com 01min de duração foi das coisas mais legais que vi na pandemia.  

Walter participou do projeto 30 Dias, 30 Beats, criado pelos paraibanos Daniel Jesi e Paulo Alves. A ideia teve uma primeira temporada em abril de 2019, mas cresceu este ano. Um grupo no WhatsApp com uma centena de produtores foi a base para ideias publicadas no Instagram.

“Com a pandemia, todos os meus projetos estavam parados. Eu aproveitei para voltar a me conectar com esse lance de produzir pra mim, encontrar os estilos que eu gosto. Samplear um por dia foi massa, foi um lance que deu pra me redescobrir um pouco”, ele me disse semana passada, em um áudio.

Leia “Mahmed em Barcelona: Walter Nazário cruza céus e mares com seu post-rock”

Os temas compostos por Walter (integrante de vários projetos musicais, dentre eles o extinto Mahmed, hoje Ian The Kid, e o Mardub) criam (1) novas percepções para sons distintos como Miles Davis, Coltrane,  Ednaldo Pereira e o funk carioca.

E uma (2) narrativa para imagens de células do sistema imunológico, trechos de filmes de Akira Kurosawa e Glauber Rocha, documentário de Jacques Cousteau e Romário jogando futevôlei no Rio de Janeiro.

“Eu me encontrei com algumas coisas que eu não tava nem botando fé, sabe? Tipo, no meio do caminho, lá pelo vigésimo dia fazer um funk, um brega-funk, esses ritmos que são mais populares. Deu pra explorar essas duas coisas, de uma hora eu ir pro lado mais sério e outro, pra um lado mais greioso”.

Walter Nazário integra bandas, como Ian The Kid (Ex-Mahmed) e Mardub. Fotografia: Luana Tayze

30 dias, 30 beats: experimentalismo na pandemia

Jazz, hip hop, funk, muito funk, biologia, oceanos, futebol, uma ida ao supermercado. As Beats do Walter saíram da cabeça em trinta dias seguidos.   

“É um corre absurdo. Eu tinha que me preocupar em fazer a música em um dia, mas também fazer o vídeo. É uma produção contínua e diária.  Você tem que ter um despego maior e deixar as coisas fluírem mesmo, porque você não tem tempo. Veio o sampler, baixou ele, você já pensa numa linha percussiva, uma linha melódica e a coisa tem que sair rápida. Às vezes não fica do jeito que você quer, mas você lança e ele já está lá”.

Eu quis saber como estavam as várias bandas que ele toca ou produz, desde que parte da população se isolou em casa, cerca de seis meses atrás.

“Em relação aos meus projetos, realmente quebrou as pernas. Para projetos que eu tinha e dependia de música ao vivo, que dependia de encontro também. Alguns projetos se adaptaram bem [ao isolamento social], caso do Mardub, foi dos meus projetos que melhor se adaptou. O Ian The Kid paralisou total.”

“Mas do ponto de vista de produtor, de produzir artistas, quase não mudou. Realmente falta o encontro final pra ajustar algumas coisas, mas meu processo é, naturalmente, muito à distância mesmo. Os artistas mandam áudio pelo WhatsApp, cantando, tocando violão, batendo palma, estalando dedo, e eu vou construindo as músicas de acordo com as referências.”

Abaixo segue uma seleção das beats que mais gostei. A relação completa foi publicada no Instagram de Walter Nazário: @n.walter

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