O Beco da Lama não é só samba

Foto: Canindé Soares

Por João da Mata

Tem umas notícias que deixam a gente INfeliz. Repõem o que o tempo desgasta. O SABER QUE O BECO NUNCA VAI DÁ SAMBA

É assim como TENTAR curar as chagas de um doente querido.

O rosto muda, a boca da noite abre, e tudo que era triste fica descontente.

No beco da lama tomava caldo de Cana no Orós para dá sustança. Papai vendia cachorro quente para manter a vida e eu comprava as linhas para pespontar e cozer a vida que precisa ser vestida.

O cinquentão Nordeste foi transformado numa loja grã-fina. Sua vizinha, a antiga Praça das Cocadas também perdeu a graça. Saudades de gargalhar novamente com as piadas do Bispo de Taipu. Conversar sobre
os tempos áureos do Cinema Nordeste. Nossa Pasárgada, enfim, conquistada
e restaurada.

Os boêmios só querem um pretexto para comemorar e a festa já começou em
homenagem a um SAMBA nunca terminado.

Depois de tomar umas tantas no antigo bar do Nazi alguém lembra que a lei
é seca e pergunta como ir para casa. Por um momento a
alegria foge, o semblante enrijece e alguém tem a brilhante sugestão de
convidar a sociedade recreativa desunidos do Beco da Lama.

Assim ela saberá que somos parecidos com o Rio de
Janeiro e transformará tudo numa Lapa de boêmios e seresteiros. Não é
possível que eles queiram transformar nossos hábitos, depois de aprendermos
inglês.

Todos os detalhes já foram miudamente planejados. Alguém sugeriu fazer um
grande baile de inauguração com a orquestra tocando a valsa vienense para
lembrar dos tempos que o Cinema Nordeste exibia os filmes de “Sissi, a
Imperatriz”. Afinal, o velho e saudoso Nordeste foi sepultado. Um
outro mais nostálgico e habituê do Beco da Lama prefere que seja tocado
aquela música do Gonzaguinha: “Começaria tudo outra vez…”

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