Beethoven: 240 anos

A propósito do aniversário de nascimento de Ludwig Van Beethoven, um dos pilares da música no mundo, talvez valha a pena trazer até este SPlural a seguinte citação de um livro sobre o ícone – e escrito, nada mais, nada menos, por outro gigante da música erudita, chamado Richard Wagner:

“Mas foi Schopenhauer o primeiro a reconhecer e definir, com clareza filosófica, a posição da música em relação às demais artes ao lhe atribuir uma natureza inteiramente distinta daquela que caracteriza a poesia e as artes plásticas. Toma como ponto de partida o fato surpreendente de que a música fala uma linguagem imediatamente compreendida por todos, sem necessidade da mediação de conceitos, o que justamente a diferencia por completo da poesia, cujo único material são os conceitos empregados para tornar clara a ideia. De acordo com essa tão luminosa definição do filósofo, as ideias do mundo e seus fenômenos essenciais são, no sentido de Platão, o objeto das belas-artes em geral. Enquanto o poeta torna as ideias inteligíveis à consciência intuitiva através do emprego, peculiar à sua arte, de conceitos em si racionais, Schopenhauer acredita reconhecer na própria música uma ideia do mundo, pois aquele que pudesse esclarecê-la completamente por meio de conceitos, teria criado uma filosofia capaz de iluminar o mundo. Se Schopenhauer apresenta essa concepção hipotética da música como um paradoxo, uma vez que a música não pode propriamente ser elucidada através de conceitos, ele nos fornece por outro lado o único material fecundo para demonstrar a exatidão de sua profunda concepção. E se ele não prosseguiu nessa demonstração foi talvez pelo fato de, como leigo, não dominar ou não estar suficientemente familiarizado com a música. Além disso, seu conhecimento dessa arte não lhe permitia ainda um estudo preciso daquele músico cuja obra revelou ao mundo, pela primeira vez, o mais profundo segredo da música. Pois, de fato, a própria obra de Beethoven não pode ser analisada a fundo sem que antes seja corretamente esclarecido e solucionado o profundo paradoxo que Schopenhauer apresentou ao conhecimento filosófico.”

(Richard Wagner, in Beethoven, trad. do alemão e notas por Anna Hartmann Cavalcanti, Rio de Janeiro: Zahar Editor Ltda., 2010, pág. 14/16).

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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